Elas gostam de apanhar, Nelson Rodrigues

Elas Gostam de Apanhar consiste em uma seleção de 26 crônicas de A Vida Como Ela é…, coluna de Nelson Rodrigues que foi publicada pelo jornal Última Hora entre 1951 e 1961.

O Última Hora foi o jornal fundado por Samuel Wainer em 1951. Contou com o apoio do governo Vargas e a este também apoiou num momento em que a imprensa, majoritariamente, era antivarguista. Wainer foi um sujeito profundamente apaixonado pelo jornalismo e também um mentiroso, tendo ocultado sua nacionalidade durante a vida inteira de modo a se esquivar da legislação da época que proibia a criação de veículos de mídia, no Brasil, por estrangeiros. Em 1971, o Última Hora foi vendido ao grupo Folha.

A coletânea de crônicas Elas Gostam de Apanhar, foi publicada pela editora Bloch pela primeira vez em 1974. E a Agir a reeditou depois de 23 anos fora das livrarias, um grande serviço prestado aos fãs, e até a quem não é, de Nelson Rodrigues. Digo que é um dos livros mais pessimistas que já tive a oportunidade de ler porque se trata de um retrato trágico dos mais íntimos e profundos desejos humanos. Acho que este texto introdutório de Nelson resume bem o que vem pela frente:

Alguém dirá que A Vida Como Ela é… insiste na tristeza e na abjeção. Talvez, e daí? O homem é triste e repito: – triste do berço ao túmulo, triste da primeira à última lágrima. Nada soa mais falso do que a alegria. Rir num mundo miserável como o nosso é o mesmo que, em pleno velório, acender um cigarro na chama de um círio. Pode-se dizer ainda que é triste A Vida Como Ela é… – porque o homem morre. Que importa tudo o mais, se a morte nos espera em qualquer esquina? Convém não esquecer que o homem é, ao mesmo tempo, o seu próprio cadáver. Hora após hora, dia após dia, ele amadurece para morrer. Há gêneros alegres, eu sei. Fala-se em “teatro para fazer rir”. Mas uma peça que tenha essa destinação específica é tão absurda, obscena, como o seria uma missa cômica. Agora o aspecto da sordidez. Nas abjeções humanas, há ainda a marca da morte. Sim, o homem é sórdido porque morre. No seu ressentimento contra a morte, faz a própria vida com excremento e sangue. [Nelson Rodrigues]

São crônicas muito bem escritas, curtas e sempre com um final trágico. É o tipo de livro que você não esquece. Seja pela semelhança a um caso próximo a você ou que você ouviu falar, seja pela banalidade com que Nelson narra suas estórias, mostrando a tragédia como algo cotidiano, quase vulgar. É um ótimo livro também para quem quer se iniciar no universo rodrigueano. E deixar de lado o preconceito com a obra deste escritor, baseado apenas em citações de efeito.

Contos de fadas, Irmãos Grimm

Peguei essa edição numa biblioteca pública de Teresina quando fiz meu cadastro lá. O acervo não era informatizado e bem pobre. Então, eu tinha de fuçar as prateleiras e escolher algo que me agradasse. Já adulta, achei que seria interessante ler esses contos que acompanharam minha infância.

Minhas primeiras leituras consistiam em adaptações da mitologia grega e, claro, dos contos de fadas dos irmãos Grimm. Acho que praticamente toda criança deve conhecer, no mínimo, um ou dois, já que vários deles também foram adaptados para o cinema. Em alguns casos, em uma linguagem mais infantil. Em outros, de terror mesmo.

Esse Contos de Fadas, da Iluminuras, é muito útil porque reúne 58 contos dos irmãos Grimm. Isso mesmo: 58. Devo dizer que desta seleção, conhecia pouquíssimos. Apenas os mais populares como A Bela Adormecida, Pequeno Polegar, o já citado Branca de Neve, O Príncipe Sapo, Rumpel-Stiltis-Kin, Cinderela, etc.

É um ótimo livro para quem quer dar uma relembrada e também para quem deseja conhecer outros contos dos irmãos que não são tão conhecidos, como Frederico e Catarina ou O Gamo Encantado.

O livro, contudo, tem alguns problemas. Enquanto lia, fiquei me perguntando a quem se destinava essa edição. Eu, por exemplo, esperava algum atrativo a mais nas narrativas. Até brinquei com alguns amigos que queria uma coisa como MORAL DA HISTÓRIA no final de cada conto. Brincadeiras à parte, acho que alguma análise dos contos não seria mal.

Daí, pensei também que se não foi muito interessante para mim, para crianças é que não seria. Não há nenhum atrativo como ilustrações, por exemplo. As falas são marcadas por aspas, deixando os parágrafos monstruosos no tamanho. Eu jamais daria um livro desses para uma criança ler.

O resumo da ópera é que acho essa edição da Iluminuras pobre tanto para adultos como para crianças. E cheia de erros grotescos de revisão.

Ainda com todas essas falhas, recomendo a leitura porque esses contos fazem parte da cultura popular germânica, uma cultura que se espalhou pelo resto do mundo e ainda hoje influencia as pessoas. É bom reler as historinhas que nos contavam quando crianças. Na realidade, é sempre bom reler um livro. Você não tem mais os mesmos olhos que tinha quando era uma criança. Então, faça isso. Talvez você encontre respostas para o comportamento do homem e da mulher socialmente, pelos contos de fadas.

O alienista, Machado de Assis

O alienista é uma das grandes obras de Machado de Assis. O autor adianta em algumas décadas a discussão sobre o tratamento dado a doentes mentais e isso não é pouco.

O livro relata a história de Simão Bacamarte, médico influente que decide estudar a loucura. Para isso, cria uma espécie de asilo que recebe o nome de Casa Verde. Lá, interna metade da vila de Itajaí. Não quero me estender em detalhes, afinal é uma obra curta e eu jamais conseguiria escrever uma sinopse à altura do texto.

O Alienista é uma obra criativa. Não tenho muito conhecimento da produção literária da época, mas não creio que fosse muito comum trazer como temática o padrão de “normalidade” nas pessoas, especialmente aqui no Brasil.

O texto é construído com fina ironia. E somente Machado consegue troçar de várias coisas ao mesmo tempo sem tropeçar nas ideias, sem fazer do texto uma confusão danada, como eu vejo acontecer muito hoje na literatura e no cinema também. Ele faz críticas bem pontuais aos políticos brasileiros que, infelizmente não mudaram muito de lá para cá, e ao poder que se tem quando se conhece as pessoas certas. Será que Simão Bacamarte teria “permissão” para fazer tudo o que fez se não fosse “bem relacionado”?

Onde tudo isso culmina é na crítica à ciência, à busca desenfreada, obstinada, obsessiva, pelo saber. E o conhecimento que não se segura porque tem de estar continuamente atualizado, aprimorado. Ora, isso também é uma crítica à Modernidade. E tudo isso sendo mostrado através de uma narrativa cômica… O Brasil bem que podia parir 200 escritores como Machado de Assis.

Não contem com o fim do livro, Jean-Claude Carrière e Umberto Eco

O surgimento de uma nova tecnologia traz com ela aqueles que sentenciam o fim da antiga. O rádio acabaria com jornal impresso, o cinema com o rádio, a televisão com o cinema, a internet com a televisão… Ao longo da história não faltam exemplos. Neste livro, Umberto Eco e Jean-Claude Carrière discutem a história do livro, bem como o seu destino, já que o e-book tem ganho popularidade nos últimos anos, além das inúmeras plataformas de leitura que têm surgido. Além do computador de mesa [mais torturante], o iPad, da Apple e o Kindle da Amazon têm ganhado cada vez mais adeptos, para citar alguns dos dispositivos mais conhecidos.

Não contem com o fim do livro é estruturado como uma série de entrevistas realizadas por Jean-Philippe de Tonnac, que faz pouquíssimas intervenções, é verdade. Maior parte do livro funciona como um diálogo entre Eco e Carrière, no qual os dois escritores fazem um percurso pela história do livro, falam de suas experiências profissionais e enquanto bibliófilos. Tanto Eco como Carrière têm bibliotecas invejáveis. Seja pela quantidade de livros – Eco tem cerca de 40 mil títulos, por exemplo – seja pela raridade de alguns, adquiridos em sebos e com alguma dificuldade, como relatam eles.

Enquanto lia, fiquei com a impressão de que Carrière está meio senil. Ele conta a mesma história de uma caixa [não vou entrar em detalhes porque a história é muito interessante] que relatou em seu A linguagem secreta do cinema. Tenho a impressão de que ele costuma relatar isso com frequência. Ok, esse parágrafo foi uma brincadeira.

Jean-Claude Carrière é ator e roteirista de cinema. Também um excelente teórico de linguagem cinematográfica. Talvez ele seja mais conhecido pelos longos anos de trabalho desenvolvido ao lado de Luis Buñuel. É também dele o roteiro da adaptação para o cinema de A insustentável leveza do ser, obra do escritor tcheco Milan Kundera.

Umberto Eco talvez seja mais conhecido por quem é viciado em livros. O Nome da Rosa e O Pêndulo de Foucault são livros bem conhecidos aqui no Brasil, até mesmo porque o primeiro foi adaptado para o cinema. E poucas pessoas que conheci na faculdade não tinham visto esse filme. Entretanto, Umberto Eco também tem uma vasta produção como linguista e semiólogo.

Esse detalhe foi o que me chamou a atenção primeiramente para o Não contem com o fim do livro. Um diálogo entre um semiólogo e um especialista em linguagem cinematográfica. Daí só poderia sair uma experiência, no mínimo, interessante. De fato, é. Peço que quem tiver a intenção de lê-lo, que preste atenção à história da caixa de Carrière e que também atente para a opinião dos dois autores sobre a obra de Shakespeare. São dois aspectos que denunciam a forma de pensar desses dois caras que, para mim, são geniais.

O jardim secreto, Frances Hogson Burnett

Somente quando entrei em contato com este livro, descobri que A princesinha é outro título desta mesma autora, Frances Hodgson Burnett. Não que eu tenha lido o livro, mas assisti ao filme e achava semelhante à adaptação para o cinema de O Jardim Secreto.

O Jardim Secreto narra a história de Mary Lennox, uma garotinha indiana que fica órfã e é obrigada a ir morar na Inglaterra com seu único parente vivo, o tio Archibald Craven, um homem misterioso que passa a maior parte do tempo viajando. Praticamente sozinha, numa mansão de 100 quartos, Mary põe-se a explorar o ambiente como criança curiosa que é. E acaba descobrindo uma série de segredos sobre a família e a casa.

A tradução da edição que li é da Ana Maria Machado, escritora reconhecida por seus livros infantis e que tentou trazer para o português certas particularidades do original, como o sotaque carregado de Yorkshire de Marta e Dickon, deixando a edição brasileira divertida de ler.

O Jardim Secreto é um livro sobretudo romântico pela sua exaltação da natureza. Talvez essa seja a grande lição de moral da história. Muito antes de se discutir questões ecológicas, Burnett já apresentava uma obra em que a natureza era importante e que devia ser tratada com carinho e respeito. Dickon é o maior símbolo dessa preocupação e é também meu personagem preferido pela sua meiguice, bondade e pureza. Contrastando com Mary e Colin Craven, as outras duas crianças da história, que são mimadas e egoístas, Dickon é o extremo oposto: teve o carinho e a atenção da mãe e, desde pequeno, mesmo tendo pouco, habituou-se a dividir tudo com seus outros inúmeros irmãos, o que o torna generoso e complacente em relação aos dois amigos.

Mas nem tudo são flores: a narrativa é manipuladora ao sugerir ao colocar que é na Inglaterra que Mary torna-se uma criança saudável e “mais simpática”, pois o clima indiano não permitia. É uma perspectiva preconceituosa em relação às colônias inglesas.

Achei o desfecho também estranho pela mudança de foco narrativo: início e decorrer da narrativa são desenvolvidos sob o ponto de vista de Mary Lennox, mas o final parece ignorar a menina, considerando apenas o que se sucede entre Archibald e Colin. Nesse ponto, acho que o filme de Agnieszka Holland deu um passo adiante em relação a livro, pois a diretora insere Mary Lennox no desfecho e sem sair daquilo que caracteriza a personagem.

Enfim, mas não me arrependo de ter lido. É um clássico da literatura infantil. E clássico é clássico.

O melhor de O Jardim Secreto é a delícia da leitura e o desejo que desperta de se ir em busca do contato com a natureza.

Diário de um ladrão, Jean Genet

Diário de um ladrão é uma espécie de autobiografia fictícia de Jean Genet, polêmico escritor e dramaturgo francês que tem, dentre algumas de suas principais obras, O balcão e As criadas.

As criadas é uma peça inspirada no caso das irmãs Papin, ocorrido no início do século passado na França, quando duas serviçais assassinaram as patroas. Desde que li um artigo que analisava a obra de Genet, procuro esse livro feito uma louca nas bibliotecas de Teresina. Mas até agora, só encontrei O balcão e Diário de um ladrão.

Assim como em O balcão, e talvez aqui de maneira mais até maia acentuada, Genet apresenta uma linguagem muito poética enquanto narra sua vida. De forma não muito linear e não muito confiável.

Ressalto que pra muitas pessoas poético é sinônimo de belo, o ideal de beleza apolínico. Genet é poético e escatológico, ao mesmo tempo. O belo dele assemelha-se mais a um belo dionisíaco do que apolínico. Digamos que ele canta as feiuras da vida, que para ele são belas e para o resto da sociedade não passam de depravações e atos ignóbeis. As principais temáticas do livro são o roubo, a traição e a homossexualidade. Deixando claro que o próprio Genet as especifica.

O que acho chato no livro são as incursões do autor sobre o que ele supõe que o leitor está pensando ao ler seu texto e o modo irritante como confronta o interlocutor, diversas vezes, a respeito de questões morais. Ele abre parênteses na narrativa para fazer essas considerações. Até compreendo que existe uma preocupação em causar certo efeito, mas às vezes suas palavras soam vazias e forçadas. Também tenho a impressão de que essa insistência revela complexos do autor quanto à sua condição de delinquente e homossexual.

Em certo sentido, Genet busca, com a exaltação dessas deformidades morais (e note que estou falando em relação ao contexto histórico do escritor), combater a hipocrisia e os valores estabelecidos.

É uma obra interessante porque permite compreender mais sobre a vida de Genet ou pelo menos o que ele quer expor. Você não vai encontrar detalhes, por exemplo, sobre os intelectuais que intercederam para que saísse da prisão, dentre eles, Jean-Paul Sartre, Jean Cocteau e Albert Camus.

A leitura é instigante, mas ainda prefiro O balcão.

Mindhunter, John Douglas

O livro é bom, mas se você for ler esperando algo parecido com a série da Netflix, é melhor nem ir atrás. Mais do que tratar sobre casos de serial killers, Mindhunter é uma espécie de biografia profissional de John Douglas. Aqui e acolá, ele menciona alguns aspectos de sua vida pessoal, mas o foco é sua trajetória no FBI e como desenvolveu o trabalho pelo qual é famoso hoje: a análise de perfis de criminosos.

O autor apresenta características de sua personalidade que, junto com o treinamento na agência americana e os cursos que fez, o tornaram bom no que faz. Também relata as dificuldades burocráticas do trabalho e a resistência do FBI com sua proposta de desenvolver um trabalho que renderia frutos somente a médio e longo prazo.

Os trechos mais mecânicos do livro são justamente os que deveriam ser os mais empolgantes: aqueles em que Douglas discorre sobre alguns casos, como sua equipe e ele conseguiram traçar o perfil do criminoso, levando à captura do criminoso.

Dois aspectos achei dignos de nota no livro. O primeiro é a crítica feita à metodologia dos psiquiatras e psicólogos no tratamento de criminosos violentos. Não fiz uma pesquisa para conferir a veracidade das afirmações, mas, segundo Douglas, o acompanhamento psicológico/psiquiátrico era feito essencialmente com terapia e medicação. A terapia é aquela mesma que você e eu fazemos com um psicólogo, no esquema “paciente fala, psicólogo escuta”.

Em determinado momento, Douglas expõe um desses profissionais que relata não saber (nem querer saber) qual foi o crime cometido por seus pacientes ou mesmo sua história de vida, alegando querer um olhar livre de prejulgamentos/preconceitos.

Considerando que, para muitos desses pacientes/presos, a liberdade condicional dependia de um laudo psiquiátrico que atestasse sua capacidade de viver em sociedade sem oferecer riscos aos outros ou a si mesmo, é um procedimento bastante questionável.

O segundo aspecto é a opinião de Douglas, enquanto agente da lei, sobre como reduzir a violência. Basicamente, prevenção. Não mais policiamento ou leis mais severas, mas mecanismos fortes de assistência social, com foco na prevenção da violência no âmbito doméstico:

As pessoas costumam me perguntar o que pode ser feito a respeito dos terríveis números de crimes violentos. Embora definitivamente existam coisas práticas que podem e devem ser feitas, acredito que a única maneira de resolvermos nosso problema de criminalidade é se uma quantidade suficiente de pessoas realmente quiser que isso aconteça. Não há problema algum em aumentar o número de policiais, tribunais e presídios, e em melhorar técnicas investigativas, mas o único jeito de reduzir a criminalidade é se todos nós pararmos de aceitar e tolerar isso dentro de nossas famílias, entre nossos amigos e conhecidos. Essa é uma lição que devemos aprender de outros países com taxas muito mais baixas do que as nossas. Na minha opinião, só esse tipo de solução de base tem o poder de ser eficaz. O crime é um problema moral. Só pode ser solucionado em nível moral.

Durante todos os meus anos de pesquisa, lidando com criminosos violentos, nunca me deparei com um que tivesse o que eu consideraria um histórico bom e uma família funcional e solidária. Acredito que a maioria dos criminosos violentos é responsável por seus atos, pelas escolhas que fez, e deve encarar as consequências. É ridículo afirmar que alguém não compreende a seriedade de seus atos porque tem apenas quatorze ou quinze anos. Aos oito anos, meu filho Jed já entendia havia muito tempo o que era certo e o que era errado.

Mas 25 anos de observação também me provaram que criminosos são mais “criados” do que “nascidos assim”, o que significa que, em algum momento da vida, alguém que exerceu uma influência negativa muito forte poderia ter exercido uma influência positiva muito forte. Portanto, o que acredito de verdade é que, além de mais dinheiro, policiamento e presídios, o que mais precisamos é de amor. Não estou sendo simplista; isso faz parte do cerne da questão”.

Fome dos mortos, Vários Autores

Fome dos mortos é uma boa coleção de historinhas cujo único ponto em comum é o apocalipse zumbi. Como ocorre em outras coletâneas da editora Draco, esta é bem diversificada em temáticas e ideologias, uma política deste selo em agradar gregos e troianos. O volume contém sete histórias, cada uma escrita e desenhada por artistas diferentes: Prisão Zumbi, Anhangá, Marcha Fúnebre, Boca de Lobo, O Presente de Camila, Revolução é Meu Nome! e Passarela da Fome.

Destas, eu destaco três. A primeira é Anhangá, que tem como cenário a floresta e como possível centro da contaminação uma tribo indígenas. Não sei por que, mas me remeteu ao filme Zombi, de Lucio Fulci. Acredito que por se passar num lugar inusitado: no filme de Fulci, a ação se passa numa ilha, até então uma novidade pra época, já que este filme foi um dos primeiros sobre zumbis após a clássica trilogia de Romero. Gostei da ideia de ver uma tribo indígena dizimar a humanidade, especialmente depois do que a humanidade (leia, “civilização”) fez com eles.

A segunda é Revolução é Meu Nome!, pois traz como protagonista um zumbi. O foco narrativo está nele e a ação se dá em torno de sua percepção identitária como zumbi e como parte de algo maior. É interessante porque traz a humanização do zumbi, algo que não é exatamente novo nesse tipo de história, mas que só me recordo de ter sido feito em Day of the Dead, do Romero, com o apaixonante zumbi domesticado Bub.

E a terceira é Passarela da Fome por trazer uma metáfora legal sobre a ditadura da magreza e a crueldade da indústria da moda em relação ao corpo feminino.

Um dos que achei mais fracos foi Prisão Zumbi que faz uma péssima analogia com os discursos sobre direitos humanos/direitos dos zumbis. Se Romero, o criador dessa figura fictícia, conseguiu ver humanidade no já referido Bub, me parece meio audacioso Airton Marinho, o roteirista, propor o contrário disso. Claro que o objetivo aqui é colocar os zumbis no lugar dos “bandidos”, afinal, é uma prisão zumbi, não um hospital ou escola. Não dá pra ver uma narrativa dessas de modo ingênuo.

Ler uma história dessas é, no mínimo, desapontador porque quando Romero, principal responsável pela popularização da figura do zumbi, fez A Noite dos Mortos-Vivos, sua metáfora era política: primeiro para desvelar a apatia da sociedade, algo que mais tarde, Shaun of the Dead repetiria com sucesso, ao unir humor e gore. Depois, para se posicionar de forma bem assertiva em relação à luta por direitos civis nos EUA: seus protagonistas são uma mulher grávida, um negro e um homossexual. E, ao contrário da maioria dos filmes de terror, em que estes personagens são os primeiros a morrer, estes aqui são lutadores e sobrevivem.

Outro que achei fraquinho foi O Presente de Camila. Claramente inspirado em narrativas mais atuais sobre zumbis, como The Walking Dead, o pecado da historinha reside exatamente aí: o clichê. Em meio ao apocalipse zumbi, um adolescente procura uma boneca para a irmã mais nova. É melodramático e o twist pretensamente surpreendente não surpreende em nada.

As outras historinhas são de medianas para boas, mas não me captaram. Em todo caso, recomendo fortemente o quadrinho para quem gosta do gênero.

Kiki de Montparnasse, Catel & Bocquet

Kiki de Montparnasse é um livro que você lê rapidinho, apesar das 400 e tantas páginas. É uma biografia em quadrinhos de Alice Ernestine Prin, mais conhecida como Kiki de Montparnasse. Devo externar a minha ignorância: até pegar neste livro nunca tinha ouvido falar desta pessoa. Kiki foi atriz, cantora, dançarina e pintora. E se relacionou com diversos artistas. Dentre eles, Tsuguharu Foujita, Man Ray, Jean Cocteau e Per Krohg. Nasceu no fim do século XX e teve uma vida curta, morrendo aos 52 anos de idade, devido aos excessos com drogas, principalmente o álcool.

É um livro muito gostoso de ler. E diria que o defeito dele reside nisso porque a vida de Kiki não deve ter sido tão leve como a leitura de sua vida. Tenho a impressão de que Alice Prin pode ter sido alegre, mas não foi feliz. Viveu longe dos pais e o único carinho que recebeu quando criança foi o da avó. Foi uma mulher a frente de seu tempo: artista, bissexual e que construiu suas principais relações no espaço público, entre artistas e intelectuais, não na esfera doméstica, espaço reservado às mulheres.

Ironicamente, ao mesmo tempo em que buscava a liberdade de se expressar e de comportamento, Kiki precisava da influência de seus amigos e amantes artistas quando se metia em confusões. Entretanto, Alice Prin é importante por ser figura-chave nesse percurso pela emancipação da mulher, por ter tentado ser livre, conseguindo modestos avanços, mas nem por isso menos relevantes. Ser uma mulher artista e não ser chamada de puta nas ruas se deve em grande parte a pessoas como Kiki.

Eu diria que o ponto negativo do livro é apresentar Kiki de uma forma muito romantizada. É certo que não há grandes omissões quanto aos detalhes penosos de sua vida, mas eles são mostrados de forma muito leve.

Quanto ao desenho de Catel, ele prezou por marcadores que referenciam a Kiki verdadeira. Os traços de Kiki são muito semelhantes ao original, sendo que o desenhista deu especial destaque às características marcantes de Alice: o nariz, o corpo cheio de curvas e o cabelo.

Recomendo a leitura, mesmo fazendo essas ressalvas, mas recomendo também procurar outras biografias de Kiki de Montparnasse.

Retorno a Brideshead, Evelyn Waugh

Publicado em 1945, Retorno a Brideshead, de Evelyn Waugh, é o tipo de romance em que “pessoas tomam chá e cometem adultério” e que duas décadas mais tarde Angela Carter viria a criticar. Dividido em três partes, o romance é narrado em primeira pessoa pelo capitão Charles Ryder que relata a fragmentação de uma família de aristocratas católicos a partir das relações que desenvolve com ela.

Não sei se concordo totalmente com o Luis Fernando Veríssimo, curador da Tag que indicou o livro, de que esta seria uma das melhores prosas do inglês. Não li o livro em inglês, mas não gostei da estruturação narrativa. Vou listar alguns aspectos que me pareceram problemáticos: a) o romance parece uma peça em que personagens importantes saem de cena e só voltam a aparecer como meros coadjuvantes, b) não existe uma coerência narrativa em relação aos conhecimentos de Ryder sobre o catolicismo, ora ele se mostra um completo ignorante, ora menciona aspectos muito particulares da religião como se fosse um perito, c) a forma esquemática como o catolicismo é apresentado: existe um descompasso entre a moral católica e o comportamento dos Flyte que parecem mais orientados por uma moral protestante. Um bom exemplo disso é a personagem Julia Flyte em dois momentos do livro: sua visão comercial e pragmática do casamento e sua reação cínica diante da descoberta que é adúltera.

Posso estar sendo maldosa, mas acredito que o fato de Evelyn Waugh ser um católico convertido o fez acreditar que era um grande entendedor do catolicismo. E ele quer provar que entende: o romance é cheio de pílulas sobre os rituais da religião católica, em alguns momentos de forma pretensamente didática. Faltou considerar dois aspectos da religião católica que praticamente não aparecem: o pecado e a culpa.

Isso é o que não gostei ou vi com estranhamento enquanto lia. Disse que não concordo plenamente com Veríssimo porque embora ache essas questões acima citadas problemáticas, não posso negar que a narrativa é envolvente: a bissexualidade do narrador Charles Ryder, dividido entre os irmãos Flyte, Sebastian e Julia, semelhantes fisicamente, mas diversos em personalidade; o papel da comida, em que é recorrente os personagens atacarem os pratos com voracidade rendeu alguns dos melhores trechos como, por exemplo, o momento em que Rex e Charles encontram-se para jantar em um restaurante chique em Paris, um reflexo inconsciente da escassez vivida pelo escritor durante a Segunda Guerra Mundial, época em que o livro foi escrito; e, claro, a delícia que é ver uma família de aristocratas dando seu último suspiro numa sociedade que não suportava mais aquele modo de vida.

O que é interessante no livro é que este processo vem associado ao de desagregação familiar: o patriarca abandona a família e vive em companhia da amante de forma ostensiva em outro país, o filho mais jovem se debate no alcoolismo, a filha mais velha casa-se com alguém “inapropriado”, causando grande desgosto à mãe e depois se divorcia, o filho mais velho casa-se com alguém igualmente “inapropriado”, a irmã mais jovem, solteira, vive a incerteza da nova configuração familiar, sem saber onde se firmar.

Fora isso, Retorno a Brideshead é uma narrativa com os mesmos elementos de outros romances, na linha de O Leopardo, de Giuseppe Tomasi di Lampedusa: conservador, com uma família aristocrática em franca decadência, representantes dos chamados “novos ricos”, o mesmo tom de “ah, os tempos já não são os mesmos” e o mesmo desdém por essa nova classe de poder aquisitivo ascendente.