Senhora dos Afogados, Nelson Rodrigues

Antes de Babilônia contestar a família tradicional brasileira, Nelson Rodrigues fazia isso de forma mais hard. Foi assim: há pelo menos 4 anos comprei três peças dele, Vestido de Noiva, Valsa nº 6 e Senhora dos Afogados. Li as duas primeiras e a outra caiu no limbo. Se eu lembrava de sua existência, jurava que já a tinha lido. Ou então simplesmente não lembrava. E assim o livro ficou intocado por longo tempo.

Até que recentemente eu me vi numa situação complicada: o trajeto para o trabalho em ônibus lotados. Como ler em pé sem cair? Obviamente eu não podia segurar um livro volumoso. E o e-reader chama a atenção da galëre. Então eu tinha de arranjar livros pequenos com no máximo 200 páginas, mas o ideal mesmo é que fossem livros de bolso. Olhando meus livros na estante, me deparei com os três juntinhos e peguei Senhora dos Afogados. O caso é que tomei um susto ao dar uma olhada na sinopse na contracapa: eu não tinha lido o livro.

Coincidentemente, quando olhei a lista de personagens lá estava o nome da Nathalia Timberg como intérprete de Dona Eduarda na primeira montagem da peça. Vejam só: desde tempos pregressos, Timberg já andava maculando a família tradicional brasileira. Assim como aquela outra atriz, a Fernanda Montenegro, que encomendou ao Nelson O Beijo no Asfalto, outra peça execrável. Imagine: insinua que um nobre pai de família, senhor de cabelos brancos, seja homossexual. Não surpreende que ambas estejam fazendo um casal lésbico idoso em novela global.

Após e durante a leitura de um livro, tenho o hábito saudável de pesquisar nas interwebs o que outras pessoas falam dele: pode ser desde resenhas a artigos científicos. E foi lendo alguns textos sobre Senhora dos Afogados que me deparei com um que a colocava como a melhor peça do Nelson. Acho Vestido de Noiva melhor. As duas não têm uma definição muito precisa do espaço físico e do tempo. Talvez Senhora dos Afogados seja considerada melhor pela infinidade de referências que, confesso, não captei. Agora, a temática é excelente: incesto, adultério, homicídio, culpa, ciúme, obsessão e homossexualidade (não vi referência a este último em textos que li, é interpretação minha mesmo). Em todo o caso, o mais interessante no texto não é nem a temática, mas o texto.

Nelson Rodrigues tem uma forma particular de construir o texto: é histérico e totalmente fora da casinha quando você compara ao modo que uma pessoa falaria, tanto pelo que diz como pela forma como diz. Como este trecho, por exemplo:

Misael (tomando entre as suas as mãos de Moema) – Parecem as mãos de tua mãe…

Moema (com sofrimento) – Eu sei.

Misael (na sua nostalgia carnal) – E se eu ficasse assim, olhando só para as tuas mãos, pensaria estar aos pés de tua mãe… Juraria que tu eras ela… Mas olho teu rosto…

(Moema ergue o rosto)

Misael – …e vejo que és tu… Se não tivesses rosto, eu te amaria…

(Beija as mãos da filha em delírio)

Misael – …como se tu fosses minha mulher…

Moema (desesperada) – Pai, esquece que tenho rosto…

Nelson põe o inconfessável em palavras ditas por seus personagens. As falas dos personagens estão no campo do pensamento, daquilo que não se diz em hipótese alguma. Acredito que seja difícil imprimir “verdade” a essas falas. É coisa para intérpretes realmente bons.

Na história, a família Drummond se estilhaça após a morte de uma das filhas. Ela cometeu suicídio: se afogou, assim como fizera anteriormente outra das filhas. Moema, a única que restou, nutre um ódio terrível pela mãe. O irmão Paulo e o noivo de Moema tentam encontrar o corpo da morta no mar, mas em vão. Enquanto isso, Misael, o pai, se depara com a aparição da prostituta que foi assassinada no dia de seu casamento. Ele se preocupa mais com essa morte do que a da filha. E Dona Eduarda, a mãe, se divide entre o desejo pelo noivo de Moema e a dúvida sobre a morte da prostituta: teria sido Misael que a matou? Ah, não. Não vou dizer. Mas se você já leu algo do Nelson Rodrigues pode imaginar a resposta.

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