Estranha presença, Sarah Waters

Eu não tinha grandes expectativas quando comecei a ler Estranha Presença. Era meu terceiro livro da Sarah Waters e, embora eu tivesse gostado muito dos dois anteriores, tinha lido o trecho de uma resenha no Skoob que afirmava ser a história muito semelhante à do filme O Orfanato. Ao mesmo tempo em que fiquei desapontada, senti um laivo de desconfiança porque pelo meu conhecimento das narrativas desta escritora, ela sempre tratou temas sobrenaturais com certo ceticismo.

Isto, contudo, não a impediu de fazer extensa pesquisa sobre poltergeists e toda essa baboseira para escrever a história da decadente família Ayres. Outra coisa que me desanimava a ler o livro é que este seria o primeiro romance da escritora que não traria temática lésbica. Se você é mulher e homofóbica, não leia Sarah Waters. Ou você pode se tornar caminhoneira. Se é homem e espera encontrar sacanagem, vai por mim, não é igual aos filmes pornôs lésbicos que você vê. ;*

O caso é que nenhum dos três motivos que me desanimavam a ler se mostraram verdadeiros em sua totalidade: vi muito pouca semelhança entre Estranha Presença e O Orfanato. Também, o sobrenatural é apenas uma metáfora para apontar a decadência dos Ayres. Um por um, eles caem, sucumbindo aos seus temores (e segredos, jamais revelados). A narrativa é bastante enfática em mostrar o declínio dos Ayres, uma tradicional família da aristocracia rural britânica, no pós-Segunda Guerra. Como eles soam fora de lugar, antiquados. Parecem saídos de outra época. Porque são de outra época. Seu deslocamento causa desconforto e tristeza. Pelo menos, eu senti.

Tudo isso é visto pelos olhos do médico Faraday, narrador da história e um dos personagens mais desprezíveis que já tive o desprazer de conhecer na literatura. É soberba a forma como Sarah Waters o constrói (e destrói) aos olhos do leitor. Esse diálogo dele com o advogado de Caroline é um tapa na cara do machismo nosso de cada dia:

– Você deve ter uma opinião a respeito – eu disse. – Quer dizer, uma opinião pessoal. Deve perceber a insensatez indiscutível disso.

Examinou a ponta de seu cigarro.

– Não tenho tanta certeza se percebo. É uma pena para o distrito, certamente, perder mais uma de suas antigas famílias. Mas essa casa está ruindo. A propriedade toda precisa de uma administração adequada. Como ela pode esperar conservá-la? E o que o lugar tem para ela, agora, se não recordações infelizes? Sem seus pais, sem seu irmão, sem marido…

– Eu ia ser seu marido.

– Não posso comentar sobre isso… Lamento. Não vejo o que possa fazer por você.

– Pode impedir que isso prossiga, até Caroline recuperar o juízo! Falou da doença do seu irmão, mas não está óbvio? Caroline está longe de estar bem.

– Acha mesmo? Pareceu-me muito bem, na verdade, quando a vi.

– Não estou falando de uma doença física. Estou pensando nos seus nervos, em seu estado mental. Estou pensando em tudo o que ela passou nos últimos meses. A tensão está afetando seu julgamento.

Ele pareceu constrangido, mas também achando um pouco de graça.

– Meu caro Faraday, se toda vez que um homem for rejeitado tentar declarar que a garota está desequilibrada…

Essa é a estratégia desesperada de Faraday quando Caroline se recusa a casar com ele e decide vender a propriedade caindo aos pedaços: convencer o advogado dela de que ela está louca. Não está. Ela é lésbica. Embora isso não seja dito em momento algum, mas é sugerido em cada um de seus diálogos. Em seu complexo de inferioridade, Faraday confunde o motivo da rejeição de Caroline, acha que ela não o quer por sua condição de filho de ex-criada da família. Em sua cegueira, ele jamais descobre o real motivo.

Agora, embora eu tenha plena convicção de que os eventos sobrenaturais da história sejam apenas o modo como a autora escolheu para a destruir gradativamente a família, eu sempre vou me perguntar quem é a pessoa para quem Caroline Ayres exclamou: “Você?!”.

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