Os diários secretos de Agatha Christie, John Curran

Um porquinho foi ao Mercado

Um porquinho ficou em casa

Um porquinho comeu rosbife

Um porquinho nada comeu

Um porquinho chorou, chorou, chorou

Daí eu encontrei um amigo no ônibus e ele jurou que esse livro era um “romance”: Os Diários Secretos de Agatha Christie. Eu expliquei que não era, mas creio que os editores apostaram nesse título dúbio para enganar quem nunca ouviu falar em Agatha Christie na vida.

O título original do livro é Agatha Christie’s secret notebooks: fifty years of mysteries in the making, bem mais condizente com o conteúdo do livro. E bem mais honesto porque o subtítulo dá a entender que se trata de uma análise dos cadernos de anotação da escritora. Porém, o texto da contracapa da edição da Leya insinua que ali teremos acesso a todas as anotações de Agatha. E não é assim. Há várias citações dos cadernos, mas fazem parte da análise de John Curran, autor do livro. Curran é o curador da obra dela.

Eu só li esse livro porque já li muitos da Agatha Christie. Não é um livro para quem queira conhecer a escritora. É para quem já conhece e sente a curiosidade de saber como ela criava que era de um modo caótico. Em alguns trechos dá para sentir que Curran deve ter ficado exasperado quando decifrava os cadernos.

Ele atribui a desorganização ao fato de que o auge de sua criatividade foi durante a guerra, período que as pessoas tinham de racionar, dentre outras coisas, papel. Portanto, às vezes uma página trazia anotações de três livros diferentes. O outro ponto é que ela simplesmente era caótica. Isso é interpretação minha mesmo.

E eu externo minha admiração por John Curran que decifrou tanto a letra terrível dela como os esquemas porque ela tinha várias ideias para um livro, mas nem sempre as usava. E aí? Como fazia para descobrir a qual livro pertencia aquela anotação?

Outra: quando pensava inicialmente em um livro, ela nomeava os personagens de um jeito e, posteriormente, alterava esses nomes, excluía personagens e os usava em outros livros. Ou personagens nunca eram usados, mas serviam de base para outros.

Ideias não aproveitadas em um livro, ela reciclava e usava em outros. Ela aproveitou quase todas as ideias que teve e se recusou a vendê-las a um escritor de histórias policiais.

Resumindo, aqueles cadernos são uma zona. Fiquei imaginando como John Curran deve ter precisado reler livros, anotar nomes de personagens para concluir que Abelardo no caderno é Felisberto no livro.

Ah, e não é preciso dizer que o livro está repleto de revelações das historinhas, além de todas as outras soluções que foram pensadas por Agatha. Vou listar algumas curiosidades interessantes que descobri (não há spoilers):

a) Agatha Christie não era disléxica. Se o curador da obra dela diz isso, então é verdade.

b) O caso dos dez negrinhos se não era o livro de que ela mais se orgulhava, mas chegava perto. Ela ficou fula de raiva porque os editores revelaram tudo o que havia no livro quando da divulgação, menos o nome do assassino. De acordo com os cadernos, a historinha poderia ter tido mais de 10 personagens.

c) Morte no Nilo poderia ter sido uma história de Miss Marple, ao invés de Poirot. E eu acho que teria sido até mais condizente.

d) Infelizmente, as anotações que ela fez para O assassinato de Roger Ackroyd se perderam. T_T

e) “Quero ser lembrada como uma boa autora de histórias policiais”, ela disse ao ser questionada como gostaria de ser lembrada. Achei a declaração sensata, fofa e modesta.

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