Movimentos sociais, pós-modernidade, etc.

Eu nunca me propus a escrever sobre feminismo porque não tenho leitura suficiente. Nunca estudei o feminismo em particular, embora tenha lido alguma coisa sobre gênero que pudesse me ajudar em meus estudos de discurso. O caso é que muito do que tenho visto em redes sociais, blogs e até mesmo em algumas altercações que tive com amigas e desconhecidas me fizeram ver a necessidade de me posicionar em relação a algumas categorias teóricas que acho um tanto problemáticas. Antes de mais nada, esse texto não se propõe a determinar uma verdade. Então, primeiro ponto: isso é um posicionamento. Segundo ponto: embora seja um posicionamento, o que digo aqui não são ideias aleatórias que surgiram por geração espontânea na minha cabecinha. Esse texto é para dizer por que não sou uma feminista radical.

Existem dois problemas que noto no discurso de feministas radicais e que, para mim, são irreconciliáveis. O primeiro é de ordem conceitual interna. E o segundo é de ordem conceitual externa. Ou seja, o primeiro tem a ver com o próprio feminismo radical. E o segundo tem a ver com as interpretações que o feminismo radical faz de outras correntes teóricas.

Vou explicar melhor: a base epistemológica do feminismo radical parece ser o estruturalismo sociológico. Digo parece ser porque é o que vejo replicado nos discursos das feministas radicais em seus blogs e em seus perfis em redes sociais. Isso explicaria porque algumas feministas radicais costumam lançar insultos do tipo “pós-estruturalista” quando querem desancar alguém e quando querem desqualificar o que esse alguém diz (sim, eu já fui xingada de pós-estruturalista, obrigada). Isso me fez refletir se estas feministas radicais sabem as implicações de trabalharem sobre uma base conceitual estruturalista e desqualificarem aquilo que entendem como pós-estruturalista.

Grosso modo, e eu digo bem grosso mesmo, o estruturalismo compreende o todo social como composto por partes em que cada uma dessas partes desempenha uma função. Se uma dessas partes tem um problema, isso comprometerá toda a estrutura. O problema é de entendimento: o que é uma estrutura? É uma coisa estanque, com pouca ou nenhuma possibilidade de mudança. Eu creio que o estruturalismo sociológico só foi possível por causa do estruturalismo linguístico, de Saussure. Esse linguista considerou a dualidade língua/fala e se propôs ao estudo da língua por considerar a fala individual e, por isso mesmo, inacessível. Para ele, a fala está no âmbito da mente. Já a língua, o código, um sistema de signos usado por todos, é social e imutável. Mas o código não é imutável, não é mesmo? O uso o modifica: cousa passou a ser coisa. Vossemecê passou a ser você. Não estou falando mal do Saussure. Eu acho que toda pessoa, independentemente de ser da área de estudos linguísticos, deveria ler o seu Curso de Linguística Geral.

Mesmo centrando seus estudos na língua, Saussure previu que um dia alguém estudaria a língua em uso. E acertou.

Isso foi apenas um exemplo do porquê de eu achar um esquema estrutural inadequado para a abordagem feminista. É uma questão de base e eu penso que se você não faz uma boa base, você não faz um bom trabalho. É preciso trabalhar dentro de um paradigma que não só permita, mas que tenha em seu pressuposto básico a mudança social. E é por isso que neste momento eu evoco um autor que talvez nem seja tão conhecido das feministas que é o Norman Fairclough.

Fairclough não diz que não há uma estrutura (s), mas ele a (s) compreende como ordens de discurso. Que fique claro que isso se dá no âmbito discursivo e, dentre outros elementos, integra as formações discursivas que têm uma série de regularidades. Para Fairclough as ideologias estão tanto nas ordens de discurso como nas condições dos eventos atuais. Com isso, ele admite que uma ideologia não-hegemônica pode vir a se tornar hegemônica. Claro que isso não acontece da noite pro dia, é um processo que demanda tempo e muito diálogo.

O meu ponto é que lutar por mudança social e trabalhar dentro de uma perspectiva 100% estrutural me parece um tiro no pé. É contraditório e sem pé nem cabeça. Como vou querer mudar dentro de um sistema que pouco admite mudança? Pode parecer exagero, mas o que tenho percebido no discurso feminista radical é um total ceticismo em relação à própria mudança em si. Em geral é assim: ele clama pela mudança e depois joga no lixo todas as instituições sociais porque elas não vão mudar mesmo, é isso, foda-se. É um discurso combativo (e disso eu gosto), mas derrotista e pessimista que sempre coloca o patriarcado como algo muito difícil de ser desconstruído. Não estou dizendo que seja fácil, só quero chamar a atenção para o fato de que “a dificuldade de se desconstruir o patriarcado” é uma ideia que beneficia quem se beneficia do patriarcado. E, por isso mesmo, muito útil para estas pessoas.

Dando continuidade, é por causa dessa concepção estrutural que o feminismo radical também não admite aquilo que ele considera intrusões. Outro dia fiz um comentário sobre racismo e uma garota (a mesma que me xingou de pós-estruturalista) perguntou quem eu era para falar sobre racismo. Certamente, ela tem uma concepção de protagonismo levada às últimas consequências. Ela pensa que só pode falar sobre racismo quem é uma vítima direta do racismo. Quem vivencia o racismo diariamente e quem o estuda não pode.

Há algum tempo entrevistei a vice-presidente da Comissão da Verdade sobre a Escravidão Negra no Brasil da OAB/PI e ela me falou algo muito óbvio: que no Brasil se criou um conceito de branquitude equivocado, baseado na tonalidade da pele. É este conceito que dá origem a inúmeras facetas do racismo no país. Falta a alguns setores dos movimentos sociais ligados às questões raciais ver o protagonismo com essa perspectiva. Porque quando o foco está apenas no protagonismo, há o risco de se legitimar outros discursos potencialmente danosos para o movimento como o da miscigenação “boa” que é aquela que embranquece.

Se determinados segmentos do movimento negro entendem que não posso falar sobre racismo “porque não sou negra”, dane-se, vou continuar falando do mesmo jeito. Conheço minimamente a história do meu país e acredito que problematizar o racismo é ter um mínimo responsabilidade social. Mas, principalmente, acredito no diálogo. Como resolver problemas sociais sem dialogar? Só para ficar neste tema, vou dar um exemplo: é por meio do diálogo que você percebe o nível de comprometimento das pessoas. Esta semana eu entrevistei uma autoridade local diretamente ligada a políticas públicas e citei uma medida bem simples e barata (custo zero, na realidade) já implementada em outro estado que poderia ser adotada no Piauí e em Teresina para a popularização do Estatuto da Igualdade Racial. E ela respondeu que era uma proposta interessante, mas que ninguém tinha pensado naquilo e que também não sabia que outro estado já fazia aquilo. Então, meus amores, reflitam sobre as palavras-chave vontade e interesse. Eu apoio, mas não tenho vontade e nem interesse. Um discurso maravilhoso, mas que não me serve de nada porque não faço o mínimo.

Falei tanto e agora retorno ao feminismo, o segundo ponto: o problema conceitual de ordem externa. Isso não é algo exclusivo do feminismo radical. No decorrer dessa vida, eu tenho visto diversas pessoas, muitas delas pessoas inteligentes, propagarem memes e textos com interpretações absurdas da pós-modernidade e do pós-modernismo. Para começar, somente o uso dos termos já é um atestado de falta de leitura sobre o assunto.

Em 2011, quando tive contato com esses conceitos pela primeira vez, ou seja, há quatro anos, os conceitos de pós-modernidade e pós-modernismo já eram anacrônicos no meio acadêmico há um bom tempo. Fora de moda, brega, desatualizado, cafona, questionável, flopado. No final dos anos 1980, Sergio Paulo Rouanet ❤ escrevia ensaios que questionavam estes conceitos por razões muito boas. E acredito que fora do Brasil não era diferente. Ou seja, em 2015, as pessoas continuam replicando categorias teóricas mortas, xingando outras pessoas de “pós-modernistas”. Elas estão chutando cachorro morto. A única coisa que posso indicar para elas é: vão estudar. Leiam Lyotard, Rouanet, David Harvey e, mais recentemente, Bauman e Giddens, que fizeram ajustes aos conceitos da melhor forma que puderam.

Dentre algumas das críticas sérias mais comuns feitas à pós-modernidade está o próprio conceito que indicaria uma superação da Modernidade. Alguns autores, como o próprio Rouanet, questiona se viveríamos um estágio posterior à Modernidade. Para ele, o diagnóstico social não é inválido, o que complica é a terminologia. É por isso que outros autores passaram a utilizar termos como Modernidade Tardia, Modernidade Líquida, etc., que expressam um sentido de continuidade, mas com mudanças marcadas em relação a um estágio anterior da Modernidade e elas seriam fruto de um novo estágio do capitalismo. As demandas de hoje não são as mesmas do início do século XX, por exemplo.

Uma analogia comum é que existiu uma fase do capitalismo em que os bens de consumo eram feitos para durar. Hoje estes mesmos bens se tornam obsoletos rapidamente. O mesmo aconteceria nas relações: interpessoais, de trabalho, familiares, etc. O desenvolvimento e o impulso dos movimentos sociais seriam um produto desse novo estágio da Modernidade, mas não qualquer tipo de movimento social e sim de sujeitos sociais até então “sem uma história”, como os negros e as mulheres. As conquistas destes movimentos mudariam a configuração social e produziriam novas tensões sociais. Isso também contribuiria para uma mudança de valores na sociedade. Curiosamente, eu não vejo as pessoas desconstruírem esses aspectos quando criticam a pós-modernidade. As mesmas pessoas que criticam a pós-modernidade são as mesmas que criticam o consumismo desenfreado, por exemplo, que é um dos diagnósticos da pós-modernidade. O que elas questionam é algo como o exposto na tirinha:

pós-modernismo

A Wikipedia diz que Michel Foucault foi pós-modernista. Eu não li a obra completa de Foucault, mas quem fez essa tirinha certamente não leu ou se leu o interpretou equivocadamente. Tenho sérias dúvidas se algum dia Foucault trabalhou com esta categoria teórica para ser chamado de pós-modernista. O que Foucault disse em sua A arqueologia do saber foi que era preciso sacudir, tirar a teia de aranha das nossas narrativas. Esse pensamento de Foucault foi o que possibilitou, por exemplo, historiadores olharem para trás e reverem nossa história. Mas será que foi assim mesmo que nos contaram? Quem contou?

Hoje existe cada vez mais uma tendência nos estudos históricos em trazer a narrativa sob o ponto de vista dos negros, das mulheres, dos imigrantes, dos doentes mentais, em suma, daquelas pessoas que até então eram desconsideradas pela historiografia. Eu, Pierre Rivière, que degolei minha mãe, minha irmã e meu irmão é um estudo do próprio Foucault em que ele se debruça sobre o caso Pierre Rivière e como o rapaz se constrói em seu testemunho, como a Justiça o constrói, como as pessoas do vilarejo em que viveu o constroem, como a Polícia o constrói. Esse é o punhado de histórias igualmente válidas que a tirinha critica. É uma interpretação da profundidade de um pires. Quando se diz válidas, não se quer dizer corretas, valorando a coisa. Se quer dizer que é preciso examinar as várias partes de uma narrativa porque elas são igualmente importantes para a compreensão do fato discursivo. Nem sei se me expressei bem, mas vá lá, qualquer coisa, pergunte nos comentários.

O caso é que durante muito tempo tivemos apenas uma versão dos acontecimentos e ela não era tida como versão, era tida como verdade objetiva, essa verdade que é criticada na tirinha por ter sido questionada “pelo pós-modernismo”. Buscar a gênese dos discursos foi uma lição importante que Foucault deixou. E eu entendo por que muita gente odeia Foucault e o chama de picareta: porque essa é uma visão muito perigosa e ameaçadora para quem quer continuar em seu lugar de poder.

Continuando: qualquer pessoa que tenha estudado um pouquinho de sociologia e tenha mais do que dois neurônios, entende que a realidade é inapreensível. Não há como apreender o real em sua totalidade, mas apenas partes dela. E essas partes são interpretações. Tomando ainda como exemplo a História, antes só se tinha uma interpretação possível e válida: a chamada verdade objetiva. A tirinha acima coloca como algo necessariamente ruim criar sua própria verdade, mas se eu entendo “criar” minha própria verdade como contar a narrativa sob meu ponto de vista, isto é na realidade uma forma de poder. Antes eu não tinha voz. Agora eu tenho. Se isto abre um campo infinito de possibilidades? Sim, abre. Se vai haver quem use isso pra sacanear? Com certeza. Existe algo nessa vida pro qual não se encontre mal uso? Mas por causa disso eu vou invalidar?

Aí, por fim, o trecho “não há mais certo ou errado, apenas um infinito número de “histórias igualmente válidas”” que fora do contexto da tirinha tem um sentido e me choca a má-fé de quem a elaborou porque, só para dar um exemplo: se eu pego a história brasileira sob a perspectiva dos negros, das mulheres, dos homossexuais, dos presos políticos, etc., eu terei um número infinito (se a gente continua citando atores sociais indefinidamente) de histórias igualmente válidas. Quando se fala sobre não haver certo e errado, não existe uma valoração no sentido de estabelecer que vivemos e devemos viver num caos social sem conceitos morais como insinuado pelo autor da tirinha, mas que vivemos um período de transição, em que tudo é muito questionado e, sim, existe uma incerteza moral. É um diagnóstico social, não é um dogma. E isso está relacionado justamente ao número de narrativas que temos. Pode parecer óbvio para uma feminista que luta pela despenalização e legalização do aborto que isso é o certo porque ela tem dados da saúde, de segurança pública, do IBGE sobre exploração infantil, etc. e, sobretudo, porque ela tem uma concepção de corpo e de direitos sobre ele que talvez a maioria das pessoas não tenha. Mas para uma pessoa que não tem acesso a tais dados, que cresceu dentro de uma cultura cristã, isso é moralmente errado.

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