Carol, Patricia Highsmith

Desde que eu soube que estava sendo feita uma adaptação de Carol, de Patricia Highsmith, fiquei aflita meu deus do céu. Isso porque não há nenhum romance lésbico na ficção, de modo geral, que eu ache melhor do que Carol. E quando digo “de modo geral”, eu quero dizer TODA a ficção que já tive acesso (livros, séries, filmes, etc.). Carol é realista sem ser trágico. É intenso sem ser piegas. E, acima de tudo, é um romance pra lésbicas adultas e feministas. Why? Afinal, é apenas a história de uma dona de casa e uma vendedora de loja de departamentos. Pior: são duas mulheres que estão em relacionamento com homens. Carol é casada e tem uma filha. Therese tem um namorado.

Mas não existe aquela coisa de “tô te sacando”. As duas se conhecem no trabalho de Therese, no Natal, quando Carol procurava um presente para a filha. Therese arranja um modo de vê-la novamente (e é bem constrangedor) e, em nenhum momento, existe um questionamento do que é certo ou errado, não se problematizam os sentimentos. As duas mulheres, gradativamente, se conhecem, se tornam íntimas, sabem o que querem. As coisas acontecem de modo natural e sem preâmbulos sentimentalóides.

Carol é uma dona de casa e já teve relacionamento com mulheres. Therese, não. Therese poderia ser uma pessoa indecisa quanto a sua sexualidade, mas não. Ela é quem vai atrás. “Eu preciso conhecer essa mulher”. Não, ela não diz isso, mas a ânsia é essa. É angustiante, tudo é narrado do ponto de vista dela. E Therese tem outras inseguranças que jamais são postas de forma explícita: sua idade (ela deve ser dez anos mais jovem que Carol) e, portanto, sua inexperiência, sua profissão, pois ela tenta se construir como cenógrafa, e a inveja que tem da melhor amiga de Carol, Abby. Um trecho em particular que ainda hoje ficou gravado em minha memória (sim, li o livro há muito tempo) por sua intensidade, angústia e, não sei, talvez aquele sentimento de distanciamento que sentimos de vez em quando pelas pessoas com quem nos importamos: Abby diz algo e Carol ri. E Therese anseia um dia poder fazer Carol rir daquele jeito.

O mistério que Patricia Highsmith tece em torno de Carol é fascinante. No final, eu constatei que esse é um tipo de mistério que toda mulher tem porque a personagem não é extraordinária em nada. E isso é o que a torna mais fascinante ainda: ela manda Therese descansar porque Therese está cansada. Ela se choca quando descobre que Therese é cenógrafa. “Mas você fica escondendo as coisas”. Ela se importa e quer saber sobre a vida de Therese.

Então, Carol acaba sendo uma mulher doce e simples: ela ama Therese, mas diz não poder vê-la porque isso a impossibilitaria de ter contato com a filha. Mas ela também é forte: diz que vai ver Therese e que vai lutar pra poder ver a filha.

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