Esaú e Jacó, Machado de Assis

Não estava nos meus planos ler Esaú e Jacó agora. Em minhas notas mentais, sempre desejei que Quincas Borba fosse meu terceiro romance do Machado de Assis. Além de contos, li os dois romances mais famosos dele: Dom Casmurro e Memórias Póstumas de Brás Cubas, que são perfeitos. Mas é a disponibilidade da obra que faz a leitura, né?

Esaú e Jacó é um bom livro, mas sinto que eu teria aproveitado mais a leitura se tivesse feito uma revisão do período histórico em que se passa a narrativa. Basicamente, é aquele momento em que o Brasil passa de monarquia à república. E um dos motivos de conflito (e são muitos) entre os protagonistas é justamente esse. Um é favor da monarquia. O outro, da república. Uma constante que vai se repetir em várias das desavenças entre os dois: um é acomodado, avesso à mudança. O outro precisa da mudança.

Eu também teria aproveitado mais a leitura se conhecesse mais a Bíblia. Esaú e Jacó, como o próprio título sugere, é cheio de intertextos. Os protagonistas, Pedro e Paulo, são irmãos gêmeos que brigam desde o útero. Eles são comparados aos também gêmeos do Antigo Testamento, Esaú e Jacó, daí o título do livro; e aos apóstolos Pedro e Paulo, que também tinham uma relação conflituosa.

Como já falei, um dos motivos de desavença entre os irmãos era a política. O outro era uma mulher, Flora, que é a personagem feminina machadiana mais curiosa até agora pra mim.

Flora é uma protagonista virgem (rs) e muito ingênua se comparada, por exemplo, à Rita (A Cartomante), à Virgília (Memórias Póstumas de Brás Cubas) ou à Capitu (Dom Casmurro). O ponto mais interessante nela é o que os outros personagens da história e até o próprio narrador concluem: Flora não se decide entre os dois irmãos.

Eu acho que não é bem isso… Ela apenas se apaixonou pelos dois homens. Simples.

Coitadinha. Nem ela mesma é capaz de compreender isso. Tanto que funde os gêmeos numa só pessoa.

Os gêmeos. A história é sobre eles e eu aqui me detendo na Flora. Bem, é porque os gêmeos são um saco. E a culpa é do próprio Machado que zomba de seus personagens a todo momento. Você não tem um pingo de respeito por eles. Basicamente, queridos, são dois playboys do século XIX. Tem um trecho muito engraçadinho sobre eles dois:

Agora o que é mister dizer é que a ideia da hospedagem cabe toda aos dous jovens doutores. Que eles eram já doutores, posto não houvessem ainda encetado a carreira de advogado nem de médico. Viviam do amor da mãe e da bolsa do pai, inesgotáveis ambos.

O livro é cheio de zombarias sobre a vida fácil dos jovens e a futilidade dos pais. Um retrato que, infelizmente, permanece atual sobre a elite brasileira.

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