Os Prêmios, Julio Cortázar

Honestamente, eu não sei definir muito bem a diferença entre realismo fantástico e realismo mágico. Só sei que o segundo é geralmente associado a escritores latino-americanos como Jorge Luis Borges e Julio Cortázar. Aqui no Brasil tem o Murilo Rubião que tem uma obra pequenina. Um punhadinho de contos.

O que li até hoje associado a esses dois estilos me agradou bastante. Não foi o caso de Os Prêmios, de Cortázar. Essa é a terceira obra e o primeiro romance que leio dele. Os outros dois livros foram, ambos, conjuntos de contos: As Armas Secretas e Um Tal Lucas. O caso é o seguinte: a cada livro que li desse autor, houve uma espécie de escala descendente de qualidade. Gostei de As Armas Secretas, Um Tal Lucas me pareceu repetitivo e Os Prêmios, além de repetitivo (nas temáticas), ainda é chato de você querer morrer.

Uma coisa em favor do realismo fantástico e mágico é a capacidade de envolver o leitor. E aí falo da minha experiência pessoal enquanto leitora, não sei se é objetivo dos estilos. O estranhamento, o mistério, o absurdo são, antes, fatores que atraem e te prendem à leitura. Quem consegue não se sentir envolvido lendo A Metamorfose ou O Processo? Murilo Rubião, embora muito menos cotado que Julio Cortázar, tem um apuro (ele era um perfeccionista) e agilidade superior ao argentino na escrita.

Os Prêmios trata de um grupo de pessoas de variados níveis sociais, econômicos e intelectuais que ganham um cruzeiro na loteria. Logo de início, há problemas no embarque. Depois, já a bordo, os passageiros são informados que não podem acessar determinada parte do navio. E esse é o motor da história: alguns aceitam de bom grado. Outros questionam e cometem uma série de absurdos para acessar a tal parte proibida.

Acho os personagens de Cortázar insuportáveis. Essa foi uma percepção que adquiri com o tempo porque, no final, não existe grande diferença entre os personagens dos contos e os deste romance. Há sempre o intelectual pedante que gosta de referenciar coisas de modo forçado, há uma penca de mulheres sarcásticas e deprimidas, há aquelas que são reprimidas sexualmente, há os homens complexados com sua condição (de inferioridade) econômica e/ou intelectual.

Seriam tipos interessantes se fossem apresentados da forma apropriada, mas na obra de Cortázar o sentido, não sei se intencional ou não, é de frivolidade. Não digo que seus personagens sejam frívolos (embora alguns, de fato sejam). É a escrita dele que carece de seriedade e, me desculpem, maturidade literária.

Os Prêmios é carregado de sexismo e isso também contribui para deixar a leitura, além de chata, nojenta. O trecho em que um personagem, em discurso indireto livre, expressa como acha asquerosa a imagem de uma mulher com as pernas abertas é de um profundo mau gosto. Mesmo que este personagem esteja descobrindo os desejos que, via de regra, são por homens, é um trecho repleto de misoginia e eu não sou obrigada a gostar. Nem pelo “bem” da literatura.

Enquanto lia, procurei textos sobre o autor e acabei descobrindo sobre uma celeuma literária entre ele e a escritora Liliana Heker. De acordo com o que li, Heker destruía algumas das concepções literárias infelizes de Cortázar. Pena que só achei textos secundários que davam conta da treta.

Enfim, esse livro foi determinante para mim. É o último que leio de Julio Cortázar. Não faz sentido continuar.

 

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