S. Bernardo, Graciliano Ramos

Graciliano Ramos era mesmo um vermelhinho. Só um comuna pra escrever um texto desses. Percebi isso lendo São Bernardo, primeiro livrinho que li dele. No diminutivo porque é curto, não em tom pejorativo. O livro causou uma forte impressão em mim porque trata de choque cultural, de conflito agrário, de machismo, de ignorância, de como é impossível a convivência pacífica entre dois extremos opostos. Uma hora um vai se quebrar. Talvez os dois.

Desculpem o bairrismo, mas do século XX pra cá, quase tudo de melhor que há na literatura brasileira foi parido no Nordeste: Graciliano Ramos, Rachel de Queiroz, João Cabral de Melo Neto, Ariano Suassuna. (HUEHUE BR). Sorry.

Ai, cara, mas as memórias de Paulo Honório, o herói de São Bernardo, são de chorar de rir, de raiva, de angústia. Para quem entende as expressões regionais do livro, a experiência é ainda mais enriquecedora. Graciliano tece, aos poucos, as lógicas que comandam aquele microcosmo no qual Paulo Honório está inserido. Ele tem um pouco de Heathcliff quando engabela o herdeiro beberrão do antigo proprietário da fazenda São Bernardo para se apropriar das terras. E tem muito o homem do sertão que chega, na secura, para cortejar uma mulher. É um personagem complexo em sua ignorância, brutalidade, incompreensão, avareza e ganância.

O que mais me angustiou, de fato, foram as sucessivas violências sofridas por Madalena, sua esposa. Graciliano não dá as cartas. O foco está todo em Paulo Honório e você, leitor, só enxerga Madalena pelos olhos dele. Isso é o que causa o maior desconforto porque é óbvio que aquele homem é louco de pedra. Em certos momentos, ele também lembra Bentinho, com ciúme de tudo.

Talvez quem é mulher tenha uma percepção diferenciada ao ler esse livro e é claro que toda mulher imagina como ela está se sentindo. Não tem como não imaginar que uma hora tudo vai explodir. Não tinha como dar certo Madalena sendo bem mais jovem, bem mais inteligente, bem mais instruída, bem mais humana, bem mais generosa unida a um homem como Paulo Honório. Cada choque que há entre os dois pela forma como ele trata os empregados na fazenda é de fazer a gente se retorcer toda enquanto lê.

Bem explicado, não é mesmo? E ele falou melhor sobre violência contra a mulher muito melhor que a galera faz hoje quando o termo ainda nem existia. Comuna, esquerdinha e com um pé nos direitos das mulheres.

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