A Balada de Adam Henry, Ian McEwan

Fiona Maye é uma Mrs. Dalloway moderna e de araque. Essa foi a primeira impressão que tive da personagem quando comecei a ler A Balada de Adam Henry ou, no original, The Child Act. O romance de Ian McEwan traça um paralelo entre a crise de uma mulher às portas da velhice e o fundamentalismo religioso trazido por meio da profissão de Fiona que é uma juíza da Vara da Família e, constantemente, é confrontada com o choque entre as culturas religiosas e o bem-estar de crianças e adolescentes. Engana-se quem pensa que McEwan usa isso como justificativa para recorrer a um discurso islamofóbico ou recheado dos lugares-comuns sobre as religiões. Do Judaísmo às Testemunhas de Jeová e ao próprio Cristianismo, as religiões são representadas pelos personagens que entram e saem da vida profissional de Fiona e que, invariavelmente, colocam seus dogmas acima da vida das crianças.

E esse é o aspecto mais rico do livro. Não espere um discurso virulento contra as religiões. Há uma preocupação quase milimétrica em examinar as questões éticas, morais e culturais envolvidas, mas sempre de um ponto de vista racionalizante e dialogizante, papéis representados por Fiona. Nesse ponto, é interessante a pesquisa minuciosa feita pelo escritor sobre a rotina de um juiz. Mas o romance não é só isso.

Ironicamente, Fiona que é uma juíza especializada em resolver conflitos familiares, encontra-se ela mesma inserida em um: aos 59 anos, seu casamento está em crise, e ela teme uma velhice na solidão já que optou pela carreira profissional e não teve filhos. Em meio a isso, ela se vê envolvida emocionalmente com um de seus casos profissionais: um garoto de 17 anos diagnosticado com leucemia que, sendo ele e os pais testemunhas de Jeová, se recusa a receber uma transfusão de sangue. A ambiguidade dos sentimentos de Fiona em relação ao garoto é até interessante, perpassando de um instinto maternal a algum tipo de atração.

Fiona talvez represente uma das primeiras gerações de mulheres que optaram por desempenhar papéis fora do padrão patriarcal: é uma mulher bem-sucedida profissionalmente e respeitada pelos pares. Casou, mas não teve filhos. Talvez McEwan tente apontar este tipo de mulher chegando à velhice, mas recorre a clichês literários que redundam numa análise simplória e que anda longe de abranger a complexidade de uma mulher.

Esse é um tema muito difícil de construir: o tema da mulher em crise. Já abordado inúmeras vezes em obras literárias, tanto por homens como por mulheres, é uma tarefa árdua não cair na armadilha dos lugares-comuns e nas construções simplistas. E o maior problema é que, embora o foco narrativo esteja em Fiona, é impossível deixar de perceber que é o olhar de um homem (McEwan) sobre uma mulher em crise. É uma sensação terrível quando você, leitor ou leitora, sente as engrenagens ou o fio das marionetes do escritor, no texto que está lendo.

Fiona caminha todos os dias até o trabalho tal qual nossa querida Mrs. Dalloway andou no seu apenas um dia narrado por Virginia Woolf. Enquanto andam, pensam, lembram, refletem. As duas personagens têm até mesmo questões semelhantes, embora tenham vivido em momentos históricos distintos e uma seja juíza e a outra, socialite. Mas Clarissa não pensa explicitamente que está em crise como nossa juíza faz.

Esse foi o primeiro livro que recebi pelo Tag – Experiências Literárias. Gostei bastante da leitura complementar e ainda ganhei um copo e um marcador exclusivos com um desenho da protagonista. Mas espero outras leituras deste escritor que venham a me causar maior impacto do que esta.

É um romance recomendável, mas um filme de Ingmar Bergman fala melhor sobre mulheres em crise. E também trata de religião, ainda que sob um aspecto metafísico…

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