Cemitérios de dragões, Raphael Draccon

Cemitérios de Dragões é uma fan fiction do super sentai Power Rangers. Nesta versão, cinco pessoas de diferentes países são lançadas num universo paralelo quando se encontram à beira da morte. Nesse lugar, que não se sabe exatamente que lugar é, há muitos perigos naturais e uns feiticeiros do mal. Desculpem por descrever assim, mas esse é o nível do livro que não se leva a sério em momento algum.

Quem nasceu após os anos 2000 talvez não entenda o que os Power Rangers significou para quem cresceu nos anos 1990. Quase todo mundo da minha geração (nascidos no final dos anos 1980) viu este e outros super sentai na Globo e extinta rede Manchete e isso fazia parte das brincadeiras numa época em que realmente se brincava com os vizinhos da rua e os colegas da escola.

Então, ler um trecho como este que remete diretamente às famosas faíscas que os rangers soltavam quando atingidos acaba tendo um sabor nostálgico:

Duas ligas rasparam em um, dois, três, quatro, cinco golpes, defendidos com partes da armadura, que geraram faíscas no atrito.

O livro é de autoria de Raphael Draccon, escritor brasileiro dedicado à literatura fantástica, gênero que vem ganhando espaço no Brasil e revelando alguns talentos nacionais nos últimos anos. Além deste, Draccon escreveu a série Dragões de Éter e é um dos escritores nacionais de fantasia mais vendidos hoje. Porém, eu não gostei muito deste Cemitérios.

O que eu destacaria de positivo neste primeiro volume é o multiculturalismo: os rangers são de nações distintas (França, Irlanda, EUA, Brasil e Ruanda) e, ainda que de forma bamba, tentam expressar traços culturais específicos ou apontar para aspectos que referenciam estes países, em alguns casos até desconstruindo um pouco a noção que se poderia fazer deles. O brasileiro Daniel, por exemplo, tem ascendência nipônica e de início é confundido com um japonês.

Existe uma tentativa de desenvolver esses personagens e criar laços entre eles, mas falha em ambos os casos. Também não senti química entre os personagens, Amber e Derek ou Daniel e Romain. A quinta protagonista, Ashanti, só vem se reunir ao resto do grupo nos últimos capítulos do livro.

Em relação ao humor, confesso que alguns momentos funciona e eu tive momentos de diversão. Em outros, só me causou um pouco de vergonha. Tipo este:

Avada Kedavra! Cruciatus! Honkizagazan! Incendio! Confringo! – gritou Daniel, em uma tentativa um tanto estranha de simular bruxaria. O corpo derreteu sobre o morto, encharcando-o em um nojento amontoado de visco e concha calcária.

Achei a narrativa confusa, especialmente na construção dos diálogos entre os personagens. Em alguns momentos, tive de reler trechos para identificar quem estava falando. Um problema de técnica e de caracterização dos personagens. Quando um personagem é construído de maneira eficaz, o narrador não precisa identificar que é ele quem fala. Só o modo de se expressar já é o bastante para o leitor identificá-lo com A, B ou C.

Aliás, essa questão da narrativa é bem problemática. Por vezes, a narração adquire um caráter meio estabanado que me causou muita confusão: fiquei sem compreender se havia intenção de causar uma situação cômica ou se era mesmo falta de técnica narrativa. Esse trecho aqui:

Daniel definitivamente gostava da sensação. E então ele cortou mais uma perna, rasgou um tórax, rasgou metade de uma face, cortou outra perna, furou um pescoço, perfurou uma coxa, separou um queixo e continuou a avançar.

Se a intenção era fazer rir… Desculpe, eu só acho meio constrangedor. Claro que existe uma referência aí ao caráter B das produções dos Power Rangers, mas não creio que este seja o modo adequado de demonstrar isso literariamente. Trechos como este se repetem inúmeras vezes e são enfadonhos.

Pra não me acusarem de chata, há alguns livros fantásticos brasileiros que gostei muito. Eu indicaria O Vilarejo, pequena coleção de contos de horror do Rafael Montes, Erótica Fantástica Vol. 1, que traz escritores brasileiros e lusófonos e o volume 4 da série de contos Imaginários que tem excelentes contos fantásticos e distópicos.

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