Limonov, Emmanuel Carrère

Quanto mais eu me adiantava na leitura de Limonov, mais me convencia do fracasso particular do personagem. Afinal, desde a adolescência, a maior ambição de Eduard Limonov era ser famoso no mundo inteiro. E, até a edição de junho de 2017 da Tag, eu nunca soube da existência dessa controversa figura. Mas até aí tudo bem, não tenho a pretensão de conhecer tudo. O caso é que comecei a indagar meus amigos e conhecidos sobre ele e descobri que ninguém o conhecia.

Pesquisei na internet e mesmo lá achei pouca informação sobre Limonov. Pois bem, Eduard Limonov, nascido Savenko, é um escritor e político russo. Filho de um oficial de baixa patente da antiga União Soviética, ele deixou o país na mesma época que o escritor Alexander Soljenítsin, nos idos dos anos 1970. Soljenítsin foi praticamente expulso após a repercussão internacional do livro Arquipélago Gulag, livro que trazia relatos de vários presos políticos.

Morando nos Estados Unidos, Limonov viveu de Assistência Social depois de ir ao fundo do poço. Isso por causa do abandono da esposa e também pelo ressentimento que sentia devido ao sucesso de outros que julgava menos talentosos que ele.

E a narrativa podia parar por aí porque tudo na vida de Limonov é uma sequência de fracassos. Um dos episódios mais hilários narrados no livro, por exemplo, é o engano dele ao pensar que uma das serviçais de uma festa a que vai é a filha do dono da casa.

Todos os livros de Limonov que foram sucesso de público e crítica são relatos de sua própria vivência. Um dia, não tinha mais história para contar. E ele percebeu que era, sim, famoso, mas no underground e entre a crítica. Não era mundialmente famoso. Daí, foi fazer outras coisas. Uma delas, a que causou grande polêmica, encontra-se neste trecho do documentário Serbian Epics.

Depois da separação da União Soviética, Limonov retornou à Rússia e fundou o Partido Nacional Bolchevique, agremiação com tendências fascistas que fazia oposição Gorbachev, Iéltsin e, depois, Putin. Para o escritor e agora político, o fim da União Soviética era um grande erro.

O jornalista francês Emmanuel Carrère faz uma análise dos nasbols como mais do que um grupo de fascistas, mas como o que a Rússia teve de contracultura nos anos 1990. De acordo com o escritor francês, muitos dos adolescentes e jovens que faziam parte do Partido Nacional Bolchevique, em outras circunstâncias, poderiam ter ido por caminhos mais tortuosos. Ao redor de Limonov e de seu partido, eles que viveram suas infâncias na União Soviética, queriam acreditar que o que lhes foi ensinado não era uma mentira.

O partido existiu entre 1994 e 2007 quando foi banido. Limonov fundou outro, The Other Russia. Passou de opositor a aliado de Putin.

Achei a história de Limonov interessante, mas não sei se adotaria o tom indulgente que Carrère adota em relação ao escritor. A impressão que fica é que Limonov é um tanto quanto picareta, mais preocupado com a promoção pessoal e, aparentemente, sem talento para produzir uma obra de ficção que não fosse centrada em aspectos puramente autobiográficos.

O que torna sua história mais interessante é que ele viveu e fez parte politicamente de alguns dos eventos mais importantes do século XX e, como o próprio Carrère diz, talvez a história dele conte um pouco da história sobre eles mesmos, os europeus. E, sobretudo, do próprio autor que também tem ascendência russa. Inclusive, ele usa a origem compartilhada como estratégia narrativa, comparando sua própria trajetória à de Limonov. Então, é uma leitura que vale a pena para quem gosta de história, de literatura e de personagens controversos.

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