Meu amigo Dahmer, Derf Backderf

De modo geral, eu gostei de Meu Amigo Dahmer e entendo o quadrinho ter sido premiado no Festival de Angoulême, um dos mais importantes do gênero. Porém, me senti meio enganada porque a intimidade que o título evoca inexistiu na prática. Derf Backderf não foi amigo de Dahmer. Ele foi, no máximo, um colega que permitia, junto ao seu grupo de amigos, que Dahmer andasse de vez em quando em sua companhia.

Como eu imaginava que o roteiro da HQ era baseado nas vivências de Backderf com Dahmer, tive de praticamente zerar as expectativas que tinha porque o trabalho é construído com base em entrevistas que Dahmer e seus pais concederam à mídia, relatórios policiais, além, é claro, das experiências de Backderf, seus amigos e parte da administração da escola. De modo muito correto, ele deu nomes fictícios a todas essas pessoas, assim como procurou retratá-las, no desenho, de modo distanciado de sua aparência (à exceção de Dahmer e dele próprio) na realidade.

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Dahmer aparece junto ao Clube de Jornalismo da escola. Seus colegas nerds costumavam tirar fotos dele em grupos dos quais ele não fazia parte. Este foi um desses momentos

Então, fora algumas situações mostradas no quadrinho, muito do retratado vem de informações fornecidas pelo próprio Dahmer em depoimentos à polícia ou em entrevistas à TV.

No quadrinho, o notório serial killer é apresentado como um adolescente que estava no último degrau da escala social da escola. Até mesmo no grupo dos nerds (grupo do qual Backderf fazia parte), ele só era admitido ocasionalmente e porque esses jovens achavam muito engraçado as imitações crueis que Dahmer fazia do decorador de sua mãe, um homem com paralisia cerebral. Em algum momento, é levantada a hipótese de que poderia ser uma imitação também de sua própria mãe, uma mulher que teria problemas mentais, tendo inclusive sido internada algumas vezes.

O relato de Backderf mostra Dahmer como um adolescente isolado e com tendência ao alcoolismo, além da informação amplamente divulgada pela mídia de que sentia prazer em dissecar animais. Homossexual, o próprio Dahmer disse em entrevista que sua fantasia envolvia homens inconscientes (ou mortos). O quadrinho de Backderf traz uma menção em relação a isso.

Porém, o relato mais estarrecedor é o de que um dos jovens que fazia parte do grupinho de Backderf e que conviveu com Dahmer deu uma carona a ele certa noite em 1978. E, de acordo com a linha do tempo construída por Backderf, o corpo da primeira vítima de Dahmer estaria ainda na casa do jovem enquanto os dois conversavam dentro do carro, a poucos metros da residência.

O desenho de Backderf é algo a se destacar. Desde o uso de sombras e até mesmo a concepção das paisagens e demais ambientes onde se passa a narrativa, tudo remete à mente doentia de Dahmer e seu isolamento gradativo conforme os anos do Ensino Médio correm.

No mais, eu acrescentaria que a edição da Darkside está muito bonita. Repleta de textos adicionais do autor e de fotos daquela época, o livro traz algumas curiosidades que talvez a maioria das pessoas não conheça. Um exemplo é que a placa de formandos de 1978, ano em que Dahmer se formou, foi removida da escola, uma tentativa débil da instituição em desvincular sua imagem do serial killer. 

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