Trechos engraçados #2: Yuri Lotman

Esse trechinho é de um livro que li quando fazia minha monografia, Estética e Semiótica do Cinema, do semioticista russo Yuri Lotman (a edição que li é portuguesa). Acho engraçado e, ao mesmo tempo, elucidativo porque desconstrói essa ideia de que a linguagem é natural, algo óbvio, mas que no dia a dia a gente esquece.

No relato, o autor conta a história de um amigo cuja empregada doméstica que jamais foi ao cinema fica horrorizada com a edição das imagens que não mostra o corpo inteiro das pessoas, levando-a a crer que está vendo pedaços de corpos.

Pode parecer bobo, mas pense no estranhamento que é quando você vê um filme que apresenta uma linguagem diferente dos filmes que você costuma ver. O efeito é similar:

Um dos meus velhos amigos moscovitas falou-me um dia da sua empregada doméstica, que deixara há pouco um kolkhoze siberiano para vir para a cidade. Era uma rapariga jovem, inteligente, que frequentava a escola, mas que, não sei por que razão, nunca vira um filme. (Isto passava-se há muito tempo) Os patrões mandaram-na a um cinema onde era exibida uma comédia. Voltou pálida e de rosto sombrio.

__ Então, gostaste? __ perguntaram-lhe.

Estava ainda sob o efeito do que tinha visto e continuou calada por uns momentos.

__ É horrível __ disse ela, por fim, indignada. __ Não compreendo como aqui, em Moscovo, se deixa mostrar tamanhos horrores.

__ E que viste tu?

__ Vi pessoas cortadas aos bocados. A cabeça aqui, os pés ali, as mãos acolá.

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