Quase memória, Carlos Heitor Cony

Quase Memória é um livro que explora os limites entre biografia e ficção. Não há garantia de que nada do que esteja escrito nele de fato tenha acontecido e talvez seja isso que torne o livro mais interessante, especialmente quando a gente considera a época que foi lançado, início dos anos 1990, quando este formato ainda não era tão popular. O narrador, o próprio Carlos Heitor Cony, recebe um embrulho endereçado a ele, mas sem remetente. Entretanto, as características do pacote o fazem ter certeza de que o emissor é o pai, Ernesto Cony, morto há dez anos.

A partir do momento em que recebe a encomenda, o autor mergulha em reminiscências de sua infância, adolescência e vida adulta. São memórias da relação que teve com o pai em cada uma das fases de sua vida. Mas nada garante que sejam reais. Cony divaga pelo passado como se estivesse à deriva. Algumas informações são, de fato, verdadeiras como, por exemplo, o tempo em que frequentou o seminário.

A imagem que constrói de seu pai é a de um grande contador de histórias, na linha do personagem de Peixe grande e suas histórias maravilhosas. Ao contrário do personagem de Ewan McGregor, Cony sente um grande fascínio pelo pai e suas histórias que a cada narração recebem mais detalhes, acréscimos ou mudam completamente.

É um livro que traz elementos de afetividade, uma relação entre pai e filho, mas não é algo romantizado ou uma idealização da relação paterna. O próprio Cony admite que seu irmão mais velho é o preferido do pai e informa o leitor que o comportamento de Ernesto andava longe de seu perfeito, especialmente como marido, tendo tido diversos casos extraconjugais. O autor não entra no mérito sobre como isso interferia na vida íntima dos pais, posto que o foco da narrativa é mesmo a relação entre pai e filho.

Embora eu tenha gostado das histórias porque a narrativa funciona como crônica familiar, algumas coisas me incomodaram: a indulgência do narrador em relação às traições do pai (me pergunto se ele adotaria o mesmo tom, caso sua mãe fosse a adúltera), uma constante necessidade de afirmação de sua masculinidade em irritantes afirmações como “quando eu estava casado com minha terceira mulher” que se repetem em curtos intervalos entre as páginas e, talvez o que me causou maior estranhamento, a impaciência e irritação em saber que o pai estava ajudando uma família perseguida pela ditadura militar.

Até onde sei, Cony apoiou a derrubada de Jango que culminou no golpe de 1964, mas depois se arrependeu e passou até mesmo a ser perseguido pelo regime militar. Compreendo ele temer pela vida do pai quando pessoas estavam sendo torturadas, mas se indignar com o que ele supunha serem pessoas se aproveitando de um idoso, sem nenhum exame de consciência de seu papel, enquanto comunicador, para que a situação política do país estivesse naquelas condições me pareceu bem estranho.

Ernesto Cony não informou ao filho sobre suas atividades e isso parece ter causado grande angústia no personagem-narrador-Carlos:

Eu servira na hora dos balões, das mangas roubadas, das encrencas na Sala de Imprensa. Num episódio em que ele lidara realmente com o perigo, que poderia colocá-lo numa situação sem retorno, sendo obrigado também a fugir, nesse episódio que por semanas consumiu-lhe energia, sonho e discurso, ele me quis longe, evitou-me.

Por que será?

De duas uma: ou queria poupar-me, receando que o perigo também me ameaçasse, ou me julgou de menor valia, plateia insuficiente para assistir à sua loucura e ao seu gesto.

¯\_(ツ)_/¯

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s