Fome dos Mortos, Vários Autores

Fome dos mortos é uma boa coleção de historinhas cujo único ponto em comum é o apocalipse zumbi. Como ocorre em outras coletâneas da editora Draco, esta é bem diversificada em temáticas e ideologias, uma política deste selo em agradar gregos e troianos. O volume contém sete histórias, cada uma escrita e desenhada por artistas diferentes: Prisão Zumbi, Anhangá, Marcha Fúnebre, Boca de Lobo, O Presente de Camila, Revolução é Meu Nome! e Passarela da Fome.

Destas, eu destaco três. A primeira é Anhangá, que tem como cenário a floresta e como possível centro da contaminação uma tribo indígenas. Não sei por que, mas me remeteu ao filme Zombi, de Lucio Fulci. Acredito que por se passar num lugar inusitado: no filme de Fulci, a ação se passa numa ilha, até então uma novidade pra época, já que este filme foi um dos primeiros sobre zumbis após a clássica trilogia de Romero. Gostei da ideia de ver uma tribo indígena dizimar a humanidade, especialmente depois do que a humanidade (leia, “civilização”) fez com eles.

A segunda é Revolução é Meu Nome!, pois traz como protagonista um zumbi. O foco narrativo está nele e a ação se dá em torno de sua percepção identitária como zumbi e como parte de algo maior. É interessante porque traz a humanização do zumbi, algo que não é exatamente novo nesse tipo de história, mas que só me recordo de ter sido feito em Day of the Dead, do Romero, com o apaixonante zumbi domesticado Bub.

E a terceira é Passarela da Fome por trazer uma metáfora legal sobre a ditadura da magreza e a crueldade da indústria da moda em relação ao corpo feminino.

Um dos que achei mais fracos foi Prisão Zumbi que faz uma péssima analogia com os discursos sobre direitos humanos/direitos dos zumbis. Se Romero, o criador dessa figura fictícia, conseguiu ver humanidade no já referido Bub, me parece meio audacioso Airton Marinho, o roteirista, propor o contrário disso. Claro que o objetivo aqui é colocar os zumbis no lugar dos “bandidos”, afinal, é uma prisão zumbi, não um hospital ou escola. Não dá pra ver uma narrativa dessas de modo ingênuo.

Ler uma história dessas é, no mínimo, desapontador porque quando Romero, principal responsável pela popularização da figura do zumbi, fez A Noite dos Mortos-Vivos, sua metáfora era política: primeiro para desvelar a apatia da sociedade, algo que mais tarde, Shaun of the Dead repetiria com sucesso, ao unir humor e gore. Depois, para se posicionar de forma bem assertiva em relação à luta por direitos civis nos EUA: seus protagonistas são uma mulher grávida, um negro e um homossexual. E, ao contrário da maioria dos filmes de terror, em que estes personagens são os primeiros a morrer, estes aqui são lutadores e sobrevivem.

Outro que achei fraquinho foi O Presente de Camila. Claramente inspirado em narrativas mais atuais sobre zumbis, como The Walking Dead, o pecado da historinha reside exatamente aí: o clichê. Em meio ao apocalipse zumbi, um adolescente procura uma boneca para a irmã mais nova. É melodramático e o twist pretensamente surpreendente não surpreende em nada.

As outras historinhas são de medianas para boas, mas não me captaram. Em todo caso, recomendo fortemente o quadrinho para quem gosta do gênero.

Kiki de Montparnasse, Catel & Bocquet

Kiki de Montparnasse é um livro que você lê rapidinho, apesar das 400 e tantas páginas. É uma biografia em quadrinhos de Alice Ernestine Prin, mais conhecida como Kiki de Montparnasse. Devo externar a minha ignorância: até pegar neste livro nunca tinha ouvido falar desta pessoa. Kiki foi atriz, cantora, dançarina e pintora. E se relacionou com diversos artistas. Dentre eles, Tsuguharu Foujita, Man Ray, Jean Cocteau e Per Krohg. Nasceu no fim do século XX e teve uma vida curta, morrendo aos 52 anos de idade, devido aos excessos com drogas, principalmente o álcool.

É um livro muito gostoso de ler. E diria que o defeito dele reside nisso porque a vida de Kiki não deve ter sido tão leve como a leitura de sua vida. Tenho a impressão de que Alice Prin pode ter sido alegre, mas não foi feliz. Viveu longe dos pais e o único carinho que recebeu quando criança foi o da avó. Foi uma mulher a frente de seu tempo: artista, bissexual e que construiu suas principais relações no espaço público, entre artistas e intelectuais, não na esfera doméstica, espaço reservado às mulheres.

Ironicamente, ao mesmo tempo em que buscava a liberdade de se expressar e de comportamento, Kiki precisava da influência de seus amigos e amantes artistas quando se metia em confusões. Entretanto, Alice Prin é importante por ser figura-chave nesse percurso pela emancipação da mulher, por ter tentado ser livre, conseguindo modestos avanços, mas nem por isso menos relevantes. Ser uma mulher artista e não ser chamada de puta nas ruas se deve em grande parte a pessoas como Kiki.

Eu diria que o ponto negativo do livro é apresentar Kiki de uma forma muito romantizada. É certo que não há grandes omissões quanto aos detalhes penosos de sua vida, mas eles são mostrados de forma muito leve.

Quanto ao desenho de Catel, ele prezou por marcadores que referenciam a Kiki verdadeira. Os traços de Kiki são muito semelhantes ao original, sendo que o desenhista deu especial destaque às características marcantes de Alice: o nariz, o corpo cheio de curvas e o cabelo.

Recomendo a leitura, mesmo fazendo essas ressalvas, mas recomendo também procurar outras biografias de Kiki de Montparnasse.

Retorno a Brideshead, Evelyn Waugh

Publicado em 1945, Retorno a Brideshead, de Evelyn Waugh, é o tipo de romance em que “pessoas tomam chá e cometem adultério” e que duas décadas mais tarde Angela Carter viria a criticar. Dividido em três partes, o romance é narrado em primeira pessoa pelo capitão Charles Ryder que relata a fragmentação de uma família de aristocratas católicos a partir das relações que desenvolve com ela.

Não sei se concordo totalmente com o Luis Fernando Veríssimo, curador da Tag que indicou o livro, de que esta seria uma das melhores prosas do inglês. Não li o livro em inglês, mas não gostei da estruturação narrativa. Vou listar alguns aspectos que me pareceram problemáticos: a) o romance parece uma peça em que personagens importantes saem de cena e só voltam a aparecer como meros coadjuvantes, b) não existe uma coerência narrativa em relação aos conhecimentos de Ryder sobre o catolicismo, ora ele se mostra um completo ignorante, ora menciona aspectos muito particulares da religião como se fosse um perito, c) a forma esquemática como o catolicismo é apresentado: existe um descompasso entre a moral católica e o comportamento dos Flyte que parecem mais orientados por uma moral protestante. Um bom exemplo disso é a personagem Julia Flyte em dois momentos do livro: sua visão comercial e pragmática do casamento e sua reação cínica diante da descoberta que é adúltera.

Posso estar sendo maldosa, mas acredito que o fato de Evelyn Waugh ser um católico convertido o fez acreditar que era um grande entendedor do catolicismo. E ele quer provar que entende: o romance é cheio de pílulas sobre os rituais da religião católica, em alguns momentos de forma pretensamente didática. Faltou considerar dois aspectos da religião católica que praticamente não aparecem: o pecado e a culpa.

Isso é o que não gostei ou vi com estranhamento enquanto lia. Disse que não concordo plenamente com Veríssimo porque embora ache essas questões acima citadas problemáticas, não posso negar que a narrativa é envolvente: a bissexualidade do narrador Charles Ryder, dividido entre os irmãos Flyte, Sebastian e Julia, semelhantes fisicamente, mas diversos em personalidade; o papel da comida, em que é recorrente os personagens atacarem os pratos com voracidade rendeu alguns dos melhores trechos como, por exemplo, o momento em que Rex e Charles encontram-se para jantar em um restaurante chique em Paris, um reflexo inconsciente da escassez vivida pelo escritor durante a Segunda Guerra Mundial, época em que o livro foi escrito; e, claro, a delícia que é ver uma família de aristocratas dando seu último suspiro numa sociedade que não suportava mais aquele modo de vida.

O que é interessante no livro é que este processo vem associado ao de desagregação familiar: o patriarca abandona a família e vive em companhia da amante de forma ostensiva em outro país, o filho mais jovem se debate no alcoolismo, a filha mais velha casa-se com alguém “inapropriado”, causando grande desgosto à mãe e depois se divorcia, o filho mais velho casa-se com alguém igualmente “inapropriado”, a irmã mais jovem, solteira, vive a incerteza da nova configuração familiar, sem saber onde se firmar.

Fora isso, Retorno a Brideshead é uma narrativa com os mesmos elementos de outros romances, na linha de O Leopardo, de Giuseppe Tomasi di Lampedusa: conservador, com uma família aristocrática em franca decadência, representantes dos chamados “novos ricos”, o mesmo tom de “ah, os tempos já não são os mesmos” e o mesmo desdém por essa nova classe de poder aquisitivo ascendente.

As ondas, Virginia Woolf

Faz sete anos que li esse livro e pensei em fazer uma releitura e publicar uma nova resenha, mas ocorre de eu estar sem tempo para isso no momento. Portanto, vai esta mesma, revisada e, no futuro, quando puder reler esse que considero o melhor livro da Virginia Woolf, eu faça uma nova resenha.

A edição que li é da editora Nova Fronteira e com tradução de Lya Luft, que fez um trabalho corajoso em verter uma obra dessas para o português. Mesmo sabendo que Lya Luft ocupa um lugar de importância na literatura nacional, traduções sempre são complicadas, ainda mais quando é um texto que foge ao padrão das narrativas convencionais.

As Ondas não é um livro difícil de ler, embora, provavelmente, seja muito diferente da maioria dos livros que você já leu porque faz recurso de algo chamado fluxo de consciência em que, de modo intimista, o narrador expõe o caos mental dos personagens, onde consciente e inconsciente não têm uma fronteira definida.

Isso era algo que Virginia já fazia em livros como Mrs. Dalloway, mas de modo mais incipiente, presa que estava às convenções de uma narrativa precisa com início, meio e fim. Em As Ondas não há qualquer preocupação com uma trama: mergulhamos nos pensamentos e sentimentos dos personagens como pensamentos e sentimentos costumam ser: caóticos, confusos, sem muita coerência, sem qualquer cadeia lógica como ocorre no processo de fala, por exemplo.

No livro, há seis personagens – Susan, Rhoda, Jinny, Bernard, Neville e Louis. Em pouco mais de 200 páginas, acompanhamos esses personagens desde a infância até a idade adulta, sem ordem cronológica, tomando conhecimento das coisas somente a partir deles, por meio de monólogos intimistas.

Em um dos textos que encontrei sobre este livro, havia a menção ao fato de que Virginia Woolf eliminou a ação da narrativa. Depende muito do que você considera ação. A ação pode não estar lá da forma como aparece em romances convencionais, mas está lá sim, traduzida nos anseios e nas angústias dos personagens.

A relação de alteridade entre eles é bem marcada. Isso se explicita, principalmente, no modo como cada um estabelece vínculos com Percival, personagem que não tem voz direta como os outros, mas que funciona como elo entre eles. Em alguns momentos, é como se os seis personagens se fundissem em um só.

Talvez não seja o primeiro livro para começar a ler Virginia Woolf, mas eu não me arrependo (comecei por ele). E, depois, é sempre possível retornar e fazer uma releitura, como eu mesma pretendo fazer.

Trechos engraçados #5: Agatha Christie

O inimigo secreto é um dos livros mais divertidos da Agatha Christie. É a primeira aventura dos (ainda) jovens Tommy e Tuppence e acontece poucos anos após a Primeira Guerra Mundial. A Inglaterra ainda está se recuperando dos efeitos da guerra e eles, como deveria ser a situação de vários jovens na época, estão desempregados e duros.

Esse trecho que selecionei é cômico porque reflete o desespero de Tuppence frente aos problemas financeiros e a que ponto ela chegou. Como o Brasil vive um momento de crise financeira, com altos índices de desemprego, achei que o trecho tem um pouco a ver também com a gente, enquanto juventude, que passa pelos maiores perrengues, ou porque estamos desempregados ou porque estamos em empregos precários:

Também já pensei em todas as maneiras imagináveis de obter dinheiro. […] Só existem três: herdar uma bela fortuna, casar com alguém podre de rico ou ganhar dinheiro. A primeira está fora de cogitação. Não tenho parentes velhos e ricos. Todos os parentes que tenho são velhotas recolhidas em asilos para senhoras distintas e decadentes. Pelo sim pelo não, costumo sempre ajudar as idosas a atravessar a rua e os cavalheiros anciãos a carregar suas compras, na esperança de descobrir que um deles é um milionário excêntrico. Mas até hoje nenhum deles perguntou meu nome – e muitos sequer disseram “Obrigado”.

É, Tuppence, a pessoa em questão tem de ser muito excêntrica para ela própria, sendo idosa, carregar pacotes pesados quando poderia ter alguém encarregado para fazer isso. De qualquer forma, é uma ideia.

Os vivos e os mortos, Jason

“Um garoto conhece uma garota. Um meteoro cai. Os mortos voltam à vida. Os mortos comem os vivos. O garoto salva a garota. A garota vira zumbi. O garoto vira zumbi. Os dois começam a viver e comer juntos, felizes para sempre.” Não é um spoiler. Essa é a sinopse da HQ de Jason. Parece simples? Sim, é. Mas não é medíocre.

Os personagens têm características humanas em seu traço, mas com feições que lembram cachorros. Não há falas e são pouquíssimos os elementos textuais. Aliás, o uso de texto em Os Vivos e os Mortos é bem interessante, porque remete ao cinema mudo: as frases são bem explicativas e aparecem em quadros inteiramente negros. A própria sequência da história seria um filme mudo, não fosse o fato de estarmos lendo.

E este é um dos aspectos mais legais na historinha. O outro é mais óbvio que é a referência ao diretor de filmes de terror George Romero, recentemente falecido. Afinal, foi ele quem popularizou os roteiros de zumbis no cinema, sempre com uma visada mais política.

É uma leitura rápida, leve, divertida e, claro, provavelmente agradará aos fãs dos gêneros citados. Porém, não tão fácil de achar. A editora que o publicou parece que está morta. Tentei encontrar alguma imagem para postar aqui e não encontrei nada.

Trechos engraçados #4: João Ubaldo Ribeiro

Desta vez são dois. E são do livro Um brasileiro em Berlim, conjunto de crônicas sobre o ano em que João Ubaldo Ribeiro morou na cidade alemã. É um dos meus livros favoritos, assim como João Ubaldo Ribeiro é um dos meus escritores favoritos, especialmente neste gênero, a crônica.

Estes trechos são extraídos do capítulo Memória de livros, que traz relatos do autor sobre sua infância, seu letramento e os primeiros contatos com livros e a leitura em si. Acho bonito, fofo e engraçado. O pai de João Ubaldo Ribeiro deve ter sido uma figura e tanto e eu me imagino um pouco como ele quando um dia tiver filhos:

Não sei bem como aprendi a ler. A circulação entre os livros era livre (tinha que ser, pensando bem, porque eles estavam pela casa toda, inclusive na cozinha e no banheiro), de maneira que eu convivia com eles todas as horas do dia, a ponto de passar tempos enormes com um deles aberto no colo, fingindo que estava lendo e, na verdade, se não me trai a vã memória, de certa forma, lendo, porque quando havia figuras, eu inventava as histórias que elas ilustravam e, ao olhar para as letras, tinha a sensação de que entendia nelas o que inventara. Segundo a crônica familiar, meu pai interpretava aquilo como uma grande sede de saber cruelmente insatisfeita e queria que eu aprendesse a ler já aos quatro anos, sendo demovido a muito custo, por uma pedagoga amiga nossa. Mas, depois que completei seis anos, ele não aguentou, fez um discurso dizendo que eu já conhecia todas as letras e agora era só uma questão de juntá-las e, além disso, ele não suportava mais ter um filho analfabeto. Em seguida, mandou que eu vestisse uma roupa de sair, foi comigo a uma livraria, comprou uma cartilha, uma tabuada e um caderno e me levou à casa de D. Gilete.

– D. Gilete – disse ele, apresentando-me a uma senhora de cabelos presos na nuca, óculos redondos e ar severo -, este rapaz já está um homem e ainda não sabe ler. Aplique as regras.

“Aplicar as regras”, soube eu muito depois, com um susto retardado, significava, entre outras coisas, usar a palmatória para vencer qualquer manifestação de falta de empenho ou a burrice por parte do aluno. Felizmente, D. Gilete nunca precisou me aplicar as regras, mesmo porque eu de fato já conhecia a maior parte das letras e juntá-las me pareceu facílimo, de maneira que, quando voltei para casa nesse mesmo dia, já estava começando a poder ler. Fui a uma das estantes do corredor para selecionar um daqueles livrões com retratos de homens carrancudos e cenas de batalhas, mas meu pai apareceu subitamente à porta do gabinete, carregando uma pilha de mais de vinte livros infantis.

– Esses daí agora não – disse ele. – Primeiro estes, para treinar. Estas livrarias daqui são umas porcarias, só achei estes. Mas já encomendei mais, esses daí devem durar uns dias.

Parece que ele está treinando o filho para a guerra. Só que com livros. Uma graça.

O segundo trecho é sobre psicologia reversa:

[…]Meu pai usava uma técnica maquiavélica para me convencer a me interessar por certas leituras. A circulação entre os livros permanecia absolutamente livre, mas, de vez em quando, ele brandia um volume no ar e anunciava com veemência:

– Este não pode! Este está proibido! Arranco as orelhas do primeiro que chegar perto deste aqui!”

O problema era que não só ele deixava o livro proibido bem à vista, no mesmo lugar de onde o tirara subitamente, como às vezes, a proibição era para valer. A incerteza era inevitável e então tínhamos momentos de suspense arrasador (meu pai nunca arrancou as orelhas de ninguém, mas todo mundo achava que, se fosse por uma questão de princípios, ele arrancaria), nos quais lemos Nossa vida sexual do Dr. Fritz Kahn, Romeu e Julieta, O livro de San Michele, Crônica escandalosa dos Doze Césares, Salambô, O crime do Padre Amaro – enfim, dezenas de títulos de uma coleção estapafúrdia, cujo único ponto em comum era o medo de passarmos o resto da vida sem orelhas – e hoje penso que li tudo o que ele queria disfarçadamente que eu lesse, embora à custa de sobressaltos e suores frios.

Uma técnica eficaz (não sei se saudável) a ser aplicada aos filhos e sobrinhos de todos aqueles viciados em livros.

Quase memória, Carlos Heitor Cony

Quase Memória é um livro que explora os limites entre biografia e ficção. Não há garantia de que nada do que esteja escrito nele de fato tenha acontecido e talvez seja isso que torne o livro mais interessante, especialmente quando a gente considera a época que foi lançado, início dos anos 1990, quando este formato ainda não era tão popular. O narrador, o próprio Carlos Heitor Cony, recebe um embrulho endereçado a ele, mas sem remetente. Entretanto, as características do pacote o fazem ter certeza de que o emissor é o pai, Ernesto Cony, morto há dez anos.

A partir do momento em que recebe a encomenda, o autor mergulha em reminiscências de sua infância, adolescência e vida adulta. São memórias da relação que teve com o pai em cada uma das fases de sua vida. Mas nada garante que sejam reais. Cony divaga pelo passado como se estivesse à deriva. Algumas informações são, de fato, verdadeiras como, por exemplo, o tempo em que frequentou o seminário.

A imagem que constrói de seu pai é a de um grande contador de histórias, na linha do personagem de Peixe grande e suas histórias maravilhosas. Ao contrário do personagem de Ewan McGregor, Cony sente um grande fascínio pelo pai e suas histórias que a cada narração recebem mais detalhes, acréscimos ou mudam completamente.

É um livro que traz elementos de afetividade, uma relação entre pai e filho, mas não é algo romantizado ou uma idealização da relação paterna. O próprio Cony admite que seu irmão mais velho é o preferido do pai e informa o leitor que o comportamento de Ernesto andava longe de seu perfeito, especialmente como marido, tendo tido diversos casos extraconjugais. O autor não entra no mérito sobre como isso interferia na vida íntima dos pais, posto que o foco da narrativa é mesmo a relação entre pai e filho.

Embora eu tenha gostado das histórias porque a narrativa funciona como crônica familiar, algumas coisas me incomodaram: a indulgência do narrador em relação às traições do pai (me pergunto se ele adotaria o mesmo tom, caso sua mãe fosse a adúltera), uma constante necessidade de afirmação de sua masculinidade em irritantes afirmações como “quando eu estava casado com minha terceira mulher” que se repetem em curtos intervalos entre as páginas e, talvez o que me causou maior estranhamento, a impaciência e irritação em saber que o pai estava ajudando uma família perseguida pela ditadura militar.

Até onde sei, Cony apoiou a derrubada de Jango que culminou no golpe de 1964, mas depois se arrependeu e passou até mesmo a ser perseguido pelo regime militar. Compreendo ele temer pela vida do pai quando pessoas estavam sendo torturadas, mas se indignar com o que ele supunha serem pessoas se aproveitando de um idoso, sem nenhum exame de consciência de seu papel, enquanto comunicador, para que a situação política do país estivesse naquelas condições me pareceu bem estranho.

Ernesto Cony não informou ao filho sobre suas atividades e isso parece ter causado grande angústia no personagem-narrador-Carlos:

Eu servira na hora dos balões, das mangas roubadas, das encrencas na Sala de Imprensa. Num episódio em que ele lidara realmente com o perigo, que poderia colocá-lo numa situação sem retorno, sendo obrigado também a fugir, nesse episódio que por semanas consumiu-lhe energia, sonho e discurso, ele me quis longe, evitou-me.

Por que será?

De duas uma: ou queria poupar-me, receando que o perigo também me ameaçasse, ou me julgou de menor valia, plateia insuficiente para assistir à sua loucura e ao seu gesto.

¯\_(ツ)_/¯

Como você organiza suas leituras?

Ultimamente, tenho refletido sobre meu método caótico de leitura. Até o final do ano passado, estava difícil me organizar porque eu tinha leituras do curso de especialização (na realidade, ainda tenho), das coisas que precisava estudar para dar aula e o que chamo de leituras recreativas. Creio que toda pessoa que cultive o hábito da leitura tenha compromissos similares: seja como professor, como estudante ou os dois, no meu caso, além das leituras de lazer.

Como fazer para organizar isso? Confesso que não tenho nenhum método de organização. Atualmente, há uns 9 livros que constam no meu perfil do skoob na aba “lendo”. Na prática, somente dois estão sendo lidos, um sobre teoria da comunicação e Retorno a Brideshead, assim como há textos e livros que estou lendo que não estão lá. Como é o caso da graphic novel, Persépolis, que comecei a ler agorinha e tive de parar porque minha gata não deixou.

Como você organiza suas leituras? Eu gostaria de saber porque esse caos às vezes me deprime. É bom manter várias leituras paralelas porque é quase um exercício mental, mas ao mesmo tempo eu tenho toque de ficar com várias atividades que parecem não acabar nunca. <o>

O balcão, Jean Genet

A diferença mais marcante entre a linguagem do cinema e do teatro é a nossa percepção enquanto espectadores. Se no cinema somos transportados para dentro da realidade fílmica e ficamos imersos no enredo de uma película até o seu final, no teatro existe um acordo tácito entre público e atores de que aquilo é uma mentira, um faz-de-contas, em suma, não é real.

A cenografia, no teatro, por mais realística que seja, não esconde sua “falsidade” e estamos vendo os atores ali, em carne e osso, vemos as mudanças de atos, etc. Ou seja, assistimos a uma peça, mas nunca com a mesma imersão com a qual vemos um filme. Não é de se  estranhar, por exemplo, o desconforto que certos filmes causam quando adotam elementos anti-ilusionistas.

O Balcão, peça de Jean Genet, destrói qualquer ilusão de realidade que pode haver na linguagem teatral. Esta peça fala sobre um bordel, cujo nome é o do título, frequentado por homens que fingem ser aquilo que não são. Curiosamente, os personagens que estes escolhem para encarnar são justamente figuras de autoridade: o bispo, o juiz, o coronel.

A peça é uma série de representações dentro de representações. Ela provoca pelo teor de suas falas, pelo ambiente em que é encenada, mas principalmente pela falta de referencial que causa no espectador. Ao final, o que temos de mais verdadeiro é a fala de Madame Irma, dona do bordel, que se dirige à plateia com algo como: “Agora vocês podem voltar pra casa. Certamente, as coisas serão tão verdadeiras por lá quanto foram aqui.”

Muito ácida, a peça debocha das instituições representadas – Igreja, Justiça, Exército. Um dos aspectos centrais é o fato de elas precisarem ser constantemente legitimadas para não perder espaços de poder. Desse modo, esses lugares e essas posições devem ser reafirmados continuamente. Ao mesmo tempo, Genet aponta que a necessidade de constante afirmação é um sinal de que essas instituições estão enfraquecidas.

Esse foi o primeiro trabalho que li de Jean Genet. É uma leitura rápida, porque a peça é curtinha, e instigante, mas não é para todos. O teatro de Genet é provocante, com uma estética do choque. Também não é recomendado para mentes pudicas. 🙂