Elas gostam de apanhar, Nelson Rodrigues

Elas Gostam de Apanhar consiste em uma seleção de 26 crônicas de A Vida Como Ela é…, coluna de Nelson Rodrigues que foi publicada pelo jornal Última Hora entre 1951 e 1961.

O Última Hora foi o jornal fundado por Samuel Wainer em 1951. Contou com o apoio do governo Vargas e a este também apoiou num momento em que a imprensa, majoritariamente, era antivarguista. Wainer foi um sujeito profundamente apaixonado pelo jornalismo e também um mentiroso, tendo ocultado sua nacionalidade durante a vida inteira de modo a se esquivar da legislação da época que proibia a criação de veículos de mídia, no Brasil, por estrangeiros. Em 1971, o Última Hora foi vendido ao grupo Folha.

A coletânea de crônicas Elas Gostam de Apanhar, foi publicada pela editora Bloch pela primeira vez em 1974. E a Agir a reeditou depois de 23 anos fora das livrarias, um grande serviço prestado aos fãs, e até a quem não é, de Nelson Rodrigues. Digo que é um dos livros mais pessimistas que já tive a oportunidade de ler porque se trata de um retrato trágico dos mais íntimos e profundos desejos humanos. Acho que este texto introdutório de Nelson resume bem o que vem pela frente:

Alguém dirá que A Vida Como Ela é… insiste na tristeza e na abjeção. Talvez, e daí? O homem é triste e repito: – triste do berço ao túmulo, triste da primeira à última lágrima. Nada soa mais falso do que a alegria. Rir num mundo miserável como o nosso é o mesmo que, em pleno velório, acender um cigarro na chama de um círio. Pode-se dizer ainda que é triste A Vida Como Ela é… – porque o homem morre. Que importa tudo o mais, se a morte nos espera em qualquer esquina? Convém não esquecer que o homem é, ao mesmo tempo, o seu próprio cadáver. Hora após hora, dia após dia, ele amadurece para morrer. Há gêneros alegres, eu sei. Fala-se em “teatro para fazer rir”. Mas uma peça que tenha essa destinação específica é tão absurda, obscena, como o seria uma missa cômica. Agora o aspecto da sordidez. Nas abjeções humanas, há ainda a marca da morte. Sim, o homem é sórdido porque morre. No seu ressentimento contra a morte, faz a própria vida com excremento e sangue. [Nelson Rodrigues]

São crônicas muito bem escritas, curtas e sempre com um final trágico. É o tipo de livro que você não esquece. Seja pela semelhança a um caso próximo a você ou que você ouviu falar, seja pela banalidade com que Nelson narra suas estórias, mostrando a tragédia como algo cotidiano, quase vulgar. É um ótimo livro também para quem quer se iniciar no universo rodrigueano. E deixar de lado o preconceito com a obra deste escritor, baseado apenas em citações de efeito.

Contos de fadas, Irmãos Grimm

Peguei essa edição numa biblioteca pública de Teresina quando fiz meu cadastro lá. O acervo não era informatizado e bem pobre. Então, eu tinha de fuçar as prateleiras e escolher algo que me agradasse. Já adulta, achei que seria interessante ler esses contos que acompanharam minha infância.

Minhas primeiras leituras consistiam em adaptações da mitologia grega e, claro, dos contos de fadas dos irmãos Grimm. Acho que praticamente toda criança deve conhecer, no mínimo, um ou dois, já que vários deles também foram adaptados para o cinema. Em alguns casos, em uma linguagem mais infantil. Em outros, de terror mesmo.

Esse Contos de Fadas, da Iluminuras, é muito útil porque reúne 58 contos dos irmãos Grimm. Isso mesmo: 58. Devo dizer que desta seleção, conhecia pouquíssimos. Apenas os mais populares como A Bela Adormecida, Pequeno Polegar, o já citado Branca de Neve, O Príncipe Sapo, Rumpel-Stiltis-Kin, Cinderela, etc.

É um ótimo livro para quem quer dar uma relembrada e também para quem deseja conhecer outros contos dos irmãos que não são tão conhecidos, como Frederico e Catarina ou O Gamo Encantado.

O livro, contudo, tem alguns problemas. Enquanto lia, fiquei me perguntando a quem se destinava essa edição. Eu, por exemplo, esperava algum atrativo a mais nas narrativas. Até brinquei com alguns amigos que queria uma coisa como MORAL DA HISTÓRIA no final de cada conto. Brincadeiras à parte, acho que alguma análise dos contos não seria mal.

Daí, pensei também que se não foi muito interessante para mim, para crianças é que não seria. Não há nenhum atrativo como ilustrações, por exemplo. As falas são marcadas por aspas, deixando os parágrafos monstruosos no tamanho. Eu jamais daria um livro desses para uma criança ler.

O resumo da ópera é que acho essa edição da Iluminuras pobre tanto para adultos como para crianças. E cheia de erros grotescos de revisão.

Ainda com todas essas falhas, recomendo a leitura porque esses contos fazem parte da cultura popular germânica, uma cultura que se espalhou pelo resto do mundo e ainda hoje influencia as pessoas. É bom reler as historinhas que nos contavam quando crianças. Na realidade, é sempre bom reler um livro. Você não tem mais os mesmos olhos que tinha quando era uma criança. Então, faça isso. Talvez você encontre respostas para o comportamento do homem e da mulher socialmente, pelos contos de fadas.

O alienista, Machado de Assis

O alienista é uma das grandes obras de Machado de Assis. O autor adianta em algumas décadas a discussão sobre o tratamento dado a doentes mentais e isso não é pouco.

O livro relata a história de Simão Bacamarte, médico influente que decide estudar a loucura. Para isso, cria uma espécie de asilo que recebe o nome de Casa Verde. Lá, interna metade da vila de Itajaí. Não quero me estender em detalhes, afinal é uma obra curta e eu jamais conseguiria escrever uma sinopse à altura do texto.

O Alienista é uma obra criativa. Não tenho muito conhecimento da produção literária da época, mas não creio que fosse muito comum trazer como temática o padrão de “normalidade” nas pessoas, especialmente aqui no Brasil.

O texto é construído com fina ironia. E somente Machado consegue troçar de várias coisas ao mesmo tempo sem tropeçar nas ideias, sem fazer do texto uma confusão danada, como eu vejo acontecer muito hoje na literatura e no cinema também. Ele faz críticas bem pontuais aos políticos brasileiros que, infelizmente não mudaram muito de lá para cá, e ao poder que se tem quando se conhece as pessoas certas. Será que Simão Bacamarte teria “permissão” para fazer tudo o que fez se não fosse “bem relacionado”?

Onde tudo isso culmina é na crítica à ciência, à busca desenfreada, obstinada, obsessiva, pelo saber. E o conhecimento que não se segura porque tem de estar continuamente atualizado, aprimorado. Ora, isso também é uma crítica à Modernidade. E tudo isso sendo mostrado através de uma narrativa cômica… O Brasil bem que podia parir 200 escritores como Machado de Assis.

Não contem com o fim do livro, Jean-Claude Carrière e Umberto Eco

O surgimento de uma nova tecnologia traz com ela aqueles que sentenciam o fim da antiga. O rádio acabaria com jornal impresso, o cinema com o rádio, a televisão com o cinema, a internet com a televisão… Ao longo da história não faltam exemplos. Neste livro, Umberto Eco e Jean-Claude Carrière discutem a história do livro, bem como o seu destino, já que o e-book tem ganho popularidade nos últimos anos, além das inúmeras plataformas de leitura que têm surgido. Além do computador de mesa [mais torturante], o iPad, da Apple e o Kindle da Amazon têm ganhado cada vez mais adeptos, para citar alguns dos dispositivos mais conhecidos.

Não contem com o fim do livro é estruturado como uma série de entrevistas realizadas por Jean-Philippe de Tonnac, que faz pouquíssimas intervenções, é verdade. Maior parte do livro funciona como um diálogo entre Eco e Carrière, no qual os dois escritores fazem um percurso pela história do livro, falam de suas experiências profissionais e enquanto bibliófilos. Tanto Eco como Carrière têm bibliotecas invejáveis. Seja pela quantidade de livros – Eco tem cerca de 40 mil títulos, por exemplo – seja pela raridade de alguns, adquiridos em sebos e com alguma dificuldade, como relatam eles.

Enquanto lia, fiquei com a impressão de que Carrière está meio senil. Ele conta a mesma história de uma caixa [não vou entrar em detalhes porque a história é muito interessante] que relatou em seu A linguagem secreta do cinema. Tenho a impressão de que ele costuma relatar isso com frequência. Ok, esse parágrafo foi uma brincadeira.

Jean-Claude Carrière é ator e roteirista de cinema. Também um excelente teórico de linguagem cinematográfica. Talvez ele seja mais conhecido pelos longos anos de trabalho desenvolvido ao lado de Luis Buñuel. É também dele o roteiro da adaptação para o cinema de A insustentável leveza do ser, obra do escritor tcheco Milan Kundera.

Umberto Eco talvez seja mais conhecido por quem é viciado em livros. O Nome da Rosa e O Pêndulo de Foucault são livros bem conhecidos aqui no Brasil, até mesmo porque o primeiro foi adaptado para o cinema. E poucas pessoas que conheci na faculdade não tinham visto esse filme. Entretanto, Umberto Eco também tem uma vasta produção como linguista e semiólogo.

Esse detalhe foi o que me chamou a atenção primeiramente para o Não contem com o fim do livro. Um diálogo entre um semiólogo e um especialista em linguagem cinematográfica. Daí só poderia sair uma experiência, no mínimo, interessante. De fato, é. Peço que quem tiver a intenção de lê-lo, que preste atenção à história da caixa de Carrière e que também atente para a opinião dos dois autores sobre a obra de Shakespeare. São dois aspectos que denunciam a forma de pensar desses dois caras que, para mim, são geniais.

O jardim secreto, Frances Hogson Burnett

Somente quando entrei em contato com este livro, descobri que A princesinha é outro título desta mesma autora, Frances Hodgson Burnett. Não que eu tenha lido o livro, mas assisti ao filme e achava semelhante à adaptação para o cinema de O Jardim Secreto.

O Jardim Secreto narra a história de Mary Lennox, uma garotinha indiana que fica órfã e é obrigada a ir morar na Inglaterra com seu único parente vivo, o tio Archibald Craven, um homem misterioso que passa a maior parte do tempo viajando. Praticamente sozinha, numa mansão de 100 quartos, Mary põe-se a explorar o ambiente como criança curiosa que é. E acaba descobrindo uma série de segredos sobre a família e a casa.

A tradução da edição que li é da Ana Maria Machado, escritora reconhecida por seus livros infantis e que tentou trazer para o português certas particularidades do original, como o sotaque carregado de Yorkshire de Marta e Dickon, deixando a edição brasileira divertida de ler.

O Jardim Secreto é um livro sobretudo romântico pela sua exaltação da natureza. Talvez essa seja a grande lição de moral da história. Muito antes de se discutir questões ecológicas, Burnett já apresentava uma obra em que a natureza era importante e que devia ser tratada com carinho e respeito. Dickon é o maior símbolo dessa preocupação e é também meu personagem preferido pela sua meiguice, bondade e pureza. Contrastando com Mary e Colin Craven, as outras duas crianças da história, que são mimadas e egoístas, Dickon é o extremo oposto: teve o carinho e a atenção da mãe e, desde pequeno, mesmo tendo pouco, habituou-se a dividir tudo com seus outros inúmeros irmãos, o que o torna generoso e complacente em relação aos dois amigos.

Mas nem tudo são flores: a narrativa é manipuladora ao sugerir ao colocar que é na Inglaterra que Mary torna-se uma criança saudável e “mais simpática”, pois o clima indiano não permitia. É uma perspectiva preconceituosa em relação às colônias inglesas.

Achei o desfecho também estranho pela mudança de foco narrativo: início e decorrer da narrativa são desenvolvidos sob o ponto de vista de Mary Lennox, mas o final parece ignorar a menina, considerando apenas o que se sucede entre Archibald e Colin. Nesse ponto, acho que o filme de Agnieszka Holland deu um passo adiante em relação a livro, pois a diretora insere Mary Lennox no desfecho e sem sair daquilo que caracteriza a personagem.

Enfim, mas não me arrependo de ter lido. É um clássico da literatura infantil. E clássico é clássico.

O melhor de O Jardim Secreto é a delícia da leitura e o desejo que desperta de se ir em busca do contato com a natureza.

Diário de um ladrão, Jean Genet

Diário de um ladrão é uma espécie de autobiografia fictícia de Jean Genet, polêmico escritor e dramaturgo francês que tem, dentre algumas de suas principais obras, O balcão e As criadas.

As criadas é uma peça inspirada no caso das irmãs Papin, ocorrido no início do século passado na França, quando duas serviçais assassinaram as patroas. Desde que li um artigo que analisava a obra de Genet, procuro esse livro feito uma louca nas bibliotecas de Teresina. Mas até agora, só encontrei O balcão e Diário de um ladrão.

Assim como em O balcão, e talvez aqui de maneira mais até maia acentuada, Genet apresenta uma linguagem muito poética enquanto narra sua vida. De forma não muito linear e não muito confiável.

Ressalto que pra muitas pessoas poético é sinônimo de belo, o ideal de beleza apolínico. Genet é poético e escatológico, ao mesmo tempo. O belo dele assemelha-se mais a um belo dionisíaco do que apolínico. Digamos que ele canta as feiuras da vida, que para ele são belas e para o resto da sociedade não passam de depravações e atos ignóbeis. As principais temáticas do livro são o roubo, a traição e a homossexualidade. Deixando claro que o próprio Genet as especifica.

O que acho chato no livro são as incursões do autor sobre o que ele supõe que o leitor está pensando ao ler seu texto e o modo irritante como confronta o interlocutor, diversas vezes, a respeito de questões morais. Ele abre parênteses na narrativa para fazer essas considerações. Até compreendo que existe uma preocupação em causar certo efeito, mas às vezes suas palavras soam vazias e forçadas. Também tenho a impressão de que essa insistência revela complexos do autor quanto à sua condição de delinquente e homossexual.

Em certo sentido, Genet busca, com a exaltação dessas deformidades morais (e note que estou falando em relação ao contexto histórico do escritor), combater a hipocrisia e os valores estabelecidos.

É uma obra interessante porque permite compreender mais sobre a vida de Genet ou pelo menos o que ele quer expor. Você não vai encontrar detalhes, por exemplo, sobre os intelectuais que intercederam para que saísse da prisão, dentre eles, Jean-Paul Sartre, Jean Cocteau e Albert Camus.

A leitura é instigante, mas ainda prefiro O balcão.

Kiki de Montparnasse, Catel & Bocquet

Kiki de Montparnasse é um livro que você lê rapidinho, apesar das 400 e tantas páginas. É uma biografia em quadrinhos de Alice Ernestine Prin, mais conhecida como Kiki de Montparnasse. Devo externar a minha ignorância: até pegar neste livro nunca tinha ouvido falar desta pessoa. Kiki foi atriz, cantora, dançarina e pintora. E se relacionou com diversos artistas. Dentre eles, Tsuguharu Foujita, Man Ray, Jean Cocteau e Per Krohg. Nasceu no fim do século XX e teve uma vida curta, morrendo aos 52 anos de idade, devido aos excessos com drogas, principalmente o álcool.

É um livro muito gostoso de ler. E diria que o defeito dele reside nisso porque a vida de Kiki não deve ter sido tão leve como a leitura de sua vida. Tenho a impressão de que Alice Prin pode ter sido alegre, mas não foi feliz. Viveu longe dos pais e o único carinho que recebeu quando criança foi o da avó. Foi uma mulher a frente de seu tempo: artista, bissexual e que construiu suas principais relações no espaço público, entre artistas e intelectuais, não na esfera doméstica, espaço reservado às mulheres.

Ironicamente, ao mesmo tempo em que buscava a liberdade de se expressar e de comportamento, Kiki precisava da influência de seus amigos e amantes artistas quando se metia em confusões. Entretanto, Alice Prin é importante por ser figura-chave nesse percurso pela emancipação da mulher, por ter tentado ser livre, conseguindo modestos avanços, mas nem por isso menos relevantes. Ser uma mulher artista e não ser chamada de puta nas ruas se deve em grande parte a pessoas como Kiki.

Eu diria que o ponto negativo do livro é apresentar Kiki de uma forma muito romantizada. É certo que não há grandes omissões quanto aos detalhes penosos de sua vida, mas eles são mostrados de forma muito leve.

Quanto ao desenho de Catel, ele prezou por marcadores que referenciam a Kiki verdadeira. Os traços de Kiki são muito semelhantes ao original, sendo que o desenhista deu especial destaque às características marcantes de Alice: o nariz, o corpo cheio de curvas e o cabelo.

Recomendo a leitura, mesmo fazendo essas ressalvas, mas recomendo também procurar outras biografias de Kiki de Montparnasse.

As ondas, Virginia Woolf

Faz sete anos que li esse livro e pensei em fazer uma releitura e publicar uma nova resenha, mas ocorre de eu estar sem tempo para isso no momento. Portanto, vai esta mesma, revisada e, no futuro, quando puder reler esse que considero o melhor livro da Virginia Woolf, eu faça uma nova resenha.

A edição que li é da editora Nova Fronteira e com tradução de Lya Luft, que fez um trabalho corajoso em verter uma obra dessas para o português. Mesmo sabendo que Lya Luft ocupa um lugar de importância na literatura nacional, traduções sempre são complicadas, ainda mais quando é um texto que foge ao padrão das narrativas convencionais.

As Ondas não é um livro difícil de ler, embora, provavelmente, seja muito diferente da maioria dos livros que você já leu porque faz recurso de algo chamado fluxo de consciência em que, de modo intimista, o narrador expõe o caos mental dos personagens, onde consciente e inconsciente não têm uma fronteira definida.

Isso era algo que Virginia já fazia em livros como Mrs. Dalloway, mas de modo mais incipiente, presa que estava às convenções de uma narrativa precisa com início, meio e fim. Em As Ondas não há qualquer preocupação com uma trama: mergulhamos nos pensamentos e sentimentos dos personagens como pensamentos e sentimentos costumam ser: caóticos, confusos, sem muita coerência, sem qualquer cadeia lógica como ocorre no processo de fala, por exemplo.

No livro, há seis personagens – Susan, Rhoda, Jinny, Bernard, Neville e Louis. Em pouco mais de 200 páginas, acompanhamos esses personagens desde a infância até a idade adulta, sem ordem cronológica, tomando conhecimento das coisas somente a partir deles, por meio de monólogos intimistas.

Em um dos textos que encontrei sobre este livro, havia a menção ao fato de que Virginia Woolf eliminou a ação da narrativa. Depende muito do que você considera ação. A ação pode não estar lá da forma como aparece em romances convencionais, mas está lá sim, traduzida nos anseios e nas angústias dos personagens.

A relação de alteridade entre eles é bem marcada. Isso se explicita, principalmente, no modo como cada um estabelece vínculos com Percival, personagem que não tem voz direta como os outros, mas que funciona como elo entre eles. Em alguns momentos, é como se os seis personagens se fundissem em um só.

Talvez não seja o primeiro livro para começar a ler Virginia Woolf, mas eu não me arrependo (comecei por ele). E, depois, é sempre possível retornar e fazer uma releitura, como eu mesma pretendo fazer.

Os vivos e os mortos, Jason

“Um garoto conhece uma garota. Um meteoro cai. Os mortos voltam à vida. Os mortos comem os vivos. O garoto salva a garota. A garota vira zumbi. O garoto vira zumbi. Os dois começam a viver e comer juntos, felizes para sempre.” Não é um spoiler. Essa é a sinopse da HQ de Jason. Parece simples? Sim, é. Mas não é medíocre.

Os personagens têm características humanas em seu traço, mas com feições que lembram cachorros. Não há falas e são pouquíssimos os elementos textuais. Aliás, o uso de texto em Os Vivos e os Mortos é bem interessante, porque remete ao cinema mudo: as frases são bem explicativas e aparecem em quadros inteiramente negros. A própria sequência da história seria um filme mudo, não fosse o fato de estarmos lendo.

E este é um dos aspectos mais legais na historinha. O outro é mais óbvio que é a referência ao diretor de filmes de terror George Romero, recentemente falecido. Afinal, foi ele quem popularizou os roteiros de zumbis no cinema, sempre com uma visada mais política.

É uma leitura rápida, leve, divertida e, claro, provavelmente agradará aos fãs dos gêneros citados. Porém, não tão fácil de achar. A editora que o publicou parece que está morta. Tentei encontrar alguma imagem para postar aqui e não encontrei nada.

O balcão, Jean Genet

A diferença mais marcante entre a linguagem do cinema e do teatro é a nossa percepção enquanto espectadores. Se no cinema somos transportados para dentro da realidade fílmica e ficamos imersos no enredo de uma película até o seu final, no teatro existe um acordo tácito entre público e atores de que aquilo é uma mentira, um faz-de-contas, em suma, não é real.

A cenografia, no teatro, por mais realística que seja, não esconde sua “falsidade” e estamos vendo os atores ali, em carne e osso, vemos as mudanças de atos, etc. Ou seja, assistimos a uma peça, mas nunca com a mesma imersão com a qual vemos um filme. Não é de se  estranhar, por exemplo, o desconforto que certos filmes causam quando adotam elementos anti-ilusionistas.

O Balcão, peça de Jean Genet, destrói qualquer ilusão de realidade que pode haver na linguagem teatral. Esta peça fala sobre um bordel, cujo nome é o do título, frequentado por homens que fingem ser aquilo que não são. Curiosamente, os personagens que estes escolhem para encarnar são justamente figuras de autoridade: o bispo, o juiz, o coronel.

A peça é uma série de representações dentro de representações. Ela provoca pelo teor de suas falas, pelo ambiente em que é encenada, mas principalmente pela falta de referencial que causa no espectador. Ao final, o que temos de mais verdadeiro é a fala de Madame Irma, dona do bordel, que se dirige à plateia com algo como: “Agora vocês podem voltar pra casa. Certamente, as coisas serão tão verdadeiras por lá quanto foram aqui.”

Muito ácida, a peça debocha das instituições representadas – Igreja, Justiça, Exército. Um dos aspectos centrais é o fato de elas precisarem ser constantemente legitimadas para não perder espaços de poder. Desse modo, esses lugares e essas posições devem ser reafirmados continuamente. Ao mesmo tempo, Genet aponta que a necessidade de constante afirmação é um sinal de que essas instituições estão enfraquecidas.

Esse foi o primeiro trabalho que li de Jean Genet. É uma leitura rápida, porque a peça é curtinha, e instigante, mas não é para todos. O teatro de Genet é provocante, com uma estética do choque. Também não é recomendado para mentes pudicas. 🙂