Trechos engraçados #5: Agatha Christie

O inimigo secreto é um dos livros mais divertidos da Agatha Christie. É a primeira aventura dos (ainda) jovens Tommy e Tuppence e acontece poucos anos após a Primeira Guerra Mundial. A Inglaterra ainda está se recuperando dos efeitos da guerra e eles, como deveria ser a situação de vários jovens na época, estão desempregados e duros.

Esse trecho que selecionei é cômico porque reflete o desespero de Tuppence frente aos problemas financeiros e a que ponto ela chegou. Como o Brasil vive um momento de crise financeira, com altos índices de desemprego, achei que o trecho tem um pouco a ver também com a gente, enquanto juventude, que passa pelos maiores perrengues, ou porque estamos desempregados ou porque estamos em empregos precários:

Também já pensei em todas as maneiras imagináveis de obter dinheiro. […] Só existem três: herdar uma bela fortuna, casar com alguém podre de rico ou ganhar dinheiro. A primeira está fora de cogitação. Não tenho parentes velhos e ricos. Todos os parentes que tenho são velhotas recolhidas em asilos para senhoras distintas e decadentes. Pelo sim pelo não, costumo sempre ajudar as idosas a atravessar a rua e os cavalheiros anciãos a carregar suas compras, na esperança de descobrir que um deles é um milionário excêntrico. Mas até hoje nenhum deles perguntou meu nome – e muitos sequer disseram “Obrigado”.

É, Tuppence, a pessoa em questão tem de ser muito excêntrica para ela própria, sendo idosa, carregar pacotes pesados quando poderia ter alguém encarregado para fazer isso. De qualquer forma, é uma ideia.

Trechos engraçados #4: João Ubaldo Ribeiro

Desta vez são dois. E são do livro Um brasileiro em Berlim, conjunto de crônicas sobre o ano em que João Ubaldo Ribeiro morou na cidade alemã. É um dos meus livros favoritos, assim como João Ubaldo Ribeiro é um dos meus escritores favoritos, especialmente neste gênero, a crônica.

Estes trechos são extraídos do capítulo Memória de livros, que traz relatos do autor sobre sua infância, seu letramento e os primeiros contatos com livros e a leitura em si. Acho bonito, fofo e engraçado. O pai de João Ubaldo Ribeiro deve ter sido uma figura e tanto e eu me imagino um pouco como ele quando um dia tiver filhos:

Não sei bem como aprendi a ler. A circulação entre os livros era livre (tinha que ser, pensando bem, porque eles estavam pela casa toda, inclusive na cozinha e no banheiro), de maneira que eu convivia com eles todas as horas do dia, a ponto de passar tempos enormes com um deles aberto no colo, fingindo que estava lendo e, na verdade, se não me trai a vã memória, de certa forma, lendo, porque quando havia figuras, eu inventava as histórias que elas ilustravam e, ao olhar para as letras, tinha a sensação de que entendia nelas o que inventara. Segundo a crônica familiar, meu pai interpretava aquilo como uma grande sede de saber cruelmente insatisfeita e queria que eu aprendesse a ler já aos quatro anos, sendo demovido a muito custo, por uma pedagoga amiga nossa. Mas, depois que completei seis anos, ele não aguentou, fez um discurso dizendo que eu já conhecia todas as letras e agora era só uma questão de juntá-las e, além disso, ele não suportava mais ter um filho analfabeto. Em seguida, mandou que eu vestisse uma roupa de sair, foi comigo a uma livraria, comprou uma cartilha, uma tabuada e um caderno e me levou à casa de D. Gilete.

– D. Gilete – disse ele, apresentando-me a uma senhora de cabelos presos na nuca, óculos redondos e ar severo -, este rapaz já está um homem e ainda não sabe ler. Aplique as regras.

“Aplicar as regras”, soube eu muito depois, com um susto retardado, significava, entre outras coisas, usar a palmatória para vencer qualquer manifestação de falta de empenho ou a burrice por parte do aluno. Felizmente, D. Gilete nunca precisou me aplicar as regras, mesmo porque eu de fato já conhecia a maior parte das letras e juntá-las me pareceu facílimo, de maneira que, quando voltei para casa nesse mesmo dia, já estava começando a poder ler. Fui a uma das estantes do corredor para selecionar um daqueles livrões com retratos de homens carrancudos e cenas de batalhas, mas meu pai apareceu subitamente à porta do gabinete, carregando uma pilha de mais de vinte livros infantis.

– Esses daí agora não – disse ele. – Primeiro estes, para treinar. Estas livrarias daqui são umas porcarias, só achei estes. Mas já encomendei mais, esses daí devem durar uns dias.

Parece que ele está treinando o filho para a guerra. Só que com livros. Uma graça.

O segundo trecho é sobre psicologia reversa:

[…]Meu pai usava uma técnica maquiavélica para me convencer a me interessar por certas leituras. A circulação entre os livros permanecia absolutamente livre, mas, de vez em quando, ele brandia um volume no ar e anunciava com veemência:

– Este não pode! Este está proibido! Arranco as orelhas do primeiro que chegar perto deste aqui!”

O problema era que não só ele deixava o livro proibido bem à vista, no mesmo lugar de onde o tirara subitamente, como às vezes, a proibição era para valer. A incerteza era inevitável e então tínhamos momentos de suspense arrasador (meu pai nunca arrancou as orelhas de ninguém, mas todo mundo achava que, se fosse por uma questão de princípios, ele arrancaria), nos quais lemos Nossa vida sexual do Dr. Fritz Kahn, Romeu e Julieta, O livro de San Michele, Crônica escandalosa dos Doze Césares, Salambô, O crime do Padre Amaro – enfim, dezenas de títulos de uma coleção estapafúrdia, cujo único ponto em comum era o medo de passarmos o resto da vida sem orelhas – e hoje penso que li tudo o que ele queria disfarçadamente que eu lesse, embora à custa de sobressaltos e suores frios.

Uma técnica eficaz (não sei se saudável) a ser aplicada aos filhos e sobrinhos de todos aqueles viciados em livros.

Como você organiza suas leituras?

Ultimamente, tenho refletido sobre meu método caótico de leitura. Até o final do ano passado, estava difícil me organizar porque eu tinha leituras do curso de especialização (na realidade, ainda tenho), das coisas que precisava estudar para dar aula e o que chamo de leituras recreativas. Creio que toda pessoa que cultive o hábito da leitura tenha compromissos similares: seja como professor, como estudante ou os dois, no meu caso, além das leituras de lazer.

Como fazer para organizar isso? Confesso que não tenho nenhum método de organização. Atualmente, há uns 9 livros que constam no meu perfil do skoob na aba “lendo”. Na prática, somente dois estão sendo lidos, um sobre teoria da comunicação e Retorno a Brideshead, assim como há textos e livros que estou lendo que não estão lá. Como é o caso da graphic novel, Persépolis, que comecei a ler agorinha e tive de parar porque minha gata não deixou.

Como você organiza suas leituras? Eu gostaria de saber porque esse caos às vezes me deprime. É bom manter várias leituras paralelas porque é quase um exercício mental, mas ao mesmo tempo eu tenho toque de ficar com várias atividades que parecem não acabar nunca. <o>

Trechos engraçados #3: Carlos Heitor Cony

Quando comecei Quase Memória, do Carlos Heitor Cony, escritor e jornalista falecido no início do ano, achei o livro pedante. Demorou um pouco para a leitura “pegar”. Ainda não concluí, mas agora passei a me divertir com as histórias, verdadeiras ou não, que o autor conta de seu pai.

Uma delas me captou porque me remeteu ao tempo em que era repórter de redação, há três anos. Eu tinha um colega que, de tanto entrevistar pessoas na cidade, sabia imitar algumas delas com perfeição: as frases que diriam, o modo como se expressavam e assim por diante.

Para quem está há muito tempo em uma editoria ou entrevistando sempre as mesmas fontes oficiais é possível “prever” o que essas pessoas diriam em determinadas situações porque elas sempre usam o mesmo discurso.

Foi confiando nessas habilidades que Ernesto Cony, pai do autor e também jornalista, escreveu uma matéria sobre o sermão de um padre que estava acostumado a ouvir desde sempre. O sermão do padre seria no sábado à tarde e a matéria sairia na edição de domingo. Mas seu Ernesto preferiu namorar em vez de ir assistir ao sermão do padre. Vai vendo:

Naquela tarde, já tendo ouvido vários e edificantes sermões anteriores do Júlio Maria, o pai combinou com o chefe da oficina do jornal em deixar o texto já pronto.

Embarcou para Três Rios, o chefe da oficina era uma toupeira, publicou no domingo a palestra do Júlio Maria na página 8, que era dedicada à cidade. Na primeira página da mesma edição do mesmo jornal, com destaque, tarja preta assinalando a matéria, vinha a notícia de que “o festejado orador sacro, padre Júlio Maria”, falecera minutos antes de assumir o púlpito da catedral metropolitana para a habitual palestra da quaresma.

Seu Ernesto só não foi demitido porque o chefe gostou muito de seu estilo de escrita e o promoveu a redator.

Trechos engraçados #2: Yuri Lotman

Esse trechinho é de um livro que li quando fazia minha monografia, Estética e Semiótica do Cinema, do semioticista russo Yuri Lotman (a edição que li é portuguesa). Acho engraçado e, ao mesmo tempo, elucidativo porque desconstrói essa ideia de que a linguagem é natural, algo óbvio, mas que no dia a dia a gente esquece.

No relato, o autor conta a história de um amigo cuja empregada doméstica que jamais foi ao cinema fica horrorizada com a edição das imagens que não mostra o corpo inteiro das pessoas, levando-a a crer que está vendo pedaços de corpos.

Pode parecer bobo, mas pense no estranhamento que é quando você vê um filme que apresenta uma linguagem diferente dos filmes que você costuma ver. O efeito é similar:

Um dos meus velhos amigos moscovitas falou-me um dia da sua empregada doméstica, que deixara há pouco um kolkhoze siberiano para vir para a cidade. Era uma rapariga jovem, inteligente, que frequentava a escola, mas que, não sei por que razão, nunca vira um filme. (Isto passava-se há muito tempo) Os patrões mandaram-na a um cinema onde era exibida uma comédia. Voltou pálida e de rosto sombrio.

__ Então, gostaste? __ perguntaram-lhe.

Estava ainda sob o efeito do que tinha visto e continuou calada por uns momentos.

__ É horrível __ disse ela, por fim, indignada. __ Não compreendo como aqui, em Moscovo, se deixa mostrar tamanhos horrores.

__ E que viste tu?

__ Vi pessoas cortadas aos bocados. A cabeça aqui, os pés ali, as mãos acolá.

Trechos engraçados #1: Machado de Assis

Outro dia, eu estava pensando em compartilhar por aqui esses trechos muito engraçados que, volta e meia, lembro aleatoriamente e começo a rir sozinha, na rua, no trabalho, em casa, no ônibus. “Tá doida?”, geralmente me perguntam, silenciosamente ou não.

Vai ver alguém é doido, acha engraçado também e se diverte. Acho que o mundo precisa de um pouco mais de riso. 😦

Então, aqui vai: pensei num trecho de Um homem célebre, do Machado de Assis. Esse conto trata da angústia criativa do compositor Pestana que, desejando ardentemente compor algo grandioso como seus ídolos – Cimarosa, Mozart, Beethoven, Gluck, Bach, Schumann – só consegue compor polcas. E, para seu grande desespero, as polcas fazem muito sucesso.

Reli esse conto recentemente porque veio numa das edições da Tag. Sorri que lacrimejei:

Veio a questão do título. Pestana, quando compôs a primeira polca, em 1871, quis dar-lhe um título poético, escolheu este: Pingos de Sol. O editor abanou a cabeça, e disse-lhe que os títulos deviam ser, já de si, destinados à popularidade – ou por alusão a algum sucesso do dia, ou pela graça das palavras; indicou-lhe dois: A lei de 28 de setembro, ou Candongas não fazem festa.

– Mas que quer dizer Candongas não fazem festa? – perguntou o autor.

– Não quer dizer nada, mas populariza-se logo.

Machado de Assis se adianta em uma discussão que só se intensificaria com os estudos sociológicos da Escola de Frankfurt sobre a mercantilização da arte. E desde o final do século XIX sinaliza a tendência que é a “composição” de músicas cujos títulos (ou letras) não fazem sentido algum mas, como diz o editor, “populariza-se logo”.

Melhor e pior leitura do ano

O final do ano chegou e, juro, gostaria de fazer uma postagem com os 10 melhores livros que li. Porém, não li tantos livros assim em 2017 e menos ainda (dez!) que possam figurar numa lista dessas sem causar algum constrangimento. Mas estou entregando este textinho com o melhor e o pior livro que li este ano.

São impressões bem pessoais mesmo. Portanto, não há necessidade de rancor. Vamos lá então:

O melhor

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O xará, Jhumpa Lahiri

De uns tempos para cá, eu tomei a decisão de ler mais mulheres ou, pelo menos, balancear mais minhas leituras em relação ao gênero dos autores. A Tag me ajudou bastante neste ano — sou assinante desde o ano passado — com dois lançamentos muito bons. Um foi A Câmara Sangrenta e Outros Contos, de Angela Carter, que além de trazer uma narrativa com foco na subjetividade feminina, também apresenta uma outra literatura possível, se esquivando da tradição de britânica das narrativas com crítica social e de costumes que tematizam, dentre outras coisas, a hipocrisia, o adultério, a vida de aparências, etc.

E o outro foi este O Xará, de Jhumpa Lahiri, que considero o melhor livro que li em 2017. Assim como A Câmara Sangrenta, a obra apresenta grande interesse na questão da subjetividade.  Porém, desta vez, de um jovem americano, de origem indiana, Gógol Ganguli. O título do livro faz referência ao escritor russo Nicolai Gógol. Grande admirador de Gógol, o pai do protagonista dá ao filho o apelido homônimo e, por uma série de enganos causados pelas diferenças culturais, a criança acaba sendo registrada assim nos Estados Unidos.

O mais interessante em O Xará é a ideia da impermanência: com bastante habilidade, a escritora passeia pelas vivências de Gógol, apresentando sem julgamento de valor o jogo dialógico no processo sempre ininterrupto da construção da identidade do personagem. Em relação à família, à Índia, à cultura norte-americana e, claro, ao próprio nome. É um livro belíssimo.

O pior

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Vida e proezas de Aléxis Zorbás

O pior também veio via Tag. Meu, o que é esse livro?

Assim, primeiro os aspectos positivos: Vida e Proezas de Aléxis Zorbás é um livro muito bem escrito. E não é algo para se estranhar, visto que o autor era um intelectual, estudou Filosofia e quase ganhou um Nobel (perdeu para Albert Camus). O ritmo e o tom reflexivo diante da vida e das escolhas que se faz me lembrou muito Vitória, de Joseph Conrad.

Mas por que mesmo que é ruim? Porque é um dos livros mais misóginos que já li na minha vida. Peguem o título: vida e proezas. A maioria dessas proezas dizem respeito a relacionamentos amorosos de Zorbás com as mulheres. Só que essas mulheres muito raramente ganham sequer um nome na narrativa. Quando têm algum destaque, são apresentadas como desesperadas, caso da Bubulina. E ela é a única que é nomeada e tem alguma voz (ela é a única que tem a honra de vermos dialogando) no romance. Fim.

Uma outra personagem, viúva (só viúva, sem nome, sem história), é brutalmente assassinada diante de toda uma vila. E tirando um leve pesar, o narrador da história que teve uma breve relação com ela, não perde muito tempo pensando no crime.

Em resumo, a misoginia se mostra pelo silenciamento, pela naturalização da violência de um homem (que foi rejeitado) em relação à mulher e, especialmente, pela própria visão que os dois protagonistas têm das mulheres.

Arquivos Adorno Rules

Esta postagem é para comunicar, caro leitor, que estou fazendo uma revisão dos textos do meu antigo blog, o Adorno Rules, para publicá-los, aqui, aos pouquinhos. Não que você tenha a obrigação de conhecer o Adorno Rules, mas foi um blog que escrevi durante bastante tempo e pelo qual eu tinha enorme carinho. Mas, por uma questão de desleixo, perdi o domínio dele.

Portanto, não seria bonito se aparecesse alguém me acusando de plágio ou coisa do tipo. Criarei uma categoria Arquivos Adorno Rules e ligarei todos os textos a ela. Passar bem. 🙂

Movimentos sociais, pós-modernidade, etc.

Eu nunca me propus a escrever sobre feminismo porque não tenho leitura suficiente. Nunca estudei o feminismo em particular, embora tenha lido alguma coisa sobre gênero que pudesse me ajudar em meus estudos de discurso. O caso é que muito do que tenho visto em redes sociais, blogs e até mesmo em algumas altercações que tive com amigas e desconhecidas me fizeram ver a necessidade de me posicionar em relação a algumas categorias teóricas que acho um tanto problemáticas. Antes de mais nada, esse texto não se propõe a determinar uma verdade. Então, primeiro ponto: isso é um posicionamento. Segundo ponto: embora seja um posicionamento, o que digo aqui não são ideias aleatórias que surgiram por geração espontânea na minha cabecinha. Esse texto é para dizer por que não sou uma feminista radical.

Existem dois problemas que noto no discurso de feministas radicais e que, para mim, são irreconciliáveis. O primeiro é de ordem conceitual interna. E o segundo é de ordem conceitual externa. Ou seja, o primeiro tem a ver com o próprio feminismo radical. E o segundo tem a ver com as interpretações que o feminismo radical faz de outras correntes teóricas.

Vou explicar melhor: a base epistemológica do feminismo radical parece ser o estruturalismo sociológico. Digo parece ser porque é o que vejo replicado nos discursos das feministas radicais em seus blogs e em seus perfis em redes sociais. Isso explicaria porque algumas feministas radicais costumam lançar insultos do tipo “pós-estruturalista” quando querem desancar alguém e quando querem desqualificar o que esse alguém diz (sim, eu já fui xingada de pós-estruturalista, obrigada). Isso me fez refletir se estas feministas radicais sabem as implicações de trabalharem sobre uma base conceitual estruturalista e desqualificarem aquilo que entendem como pós-estruturalista.

Grosso modo, e eu digo bem grosso mesmo, o estruturalismo compreende o todo social como composto por partes em que cada uma dessas partes desempenha uma função. Se uma dessas partes tem um problema, isso comprometerá toda a estrutura. O problema é de entendimento: o que é uma estrutura? É uma coisa estanque, com pouca ou nenhuma possibilidade de mudança. Eu creio que o estruturalismo sociológico só foi possível por causa do estruturalismo linguístico, de Saussure. Esse linguista considerou a dualidade língua/fala e se propôs ao estudo da língua por considerar a fala individual e, por isso mesmo, inacessível. Para ele, a fala está no âmbito da mente. Já a língua, o código, um sistema de signos usado por todos, é social e imutável. Mas o código não é imutável, não é mesmo? O uso o modifica: cousa passou a ser coisa. Vossemecê passou a ser você. Não estou falando mal do Saussure. Eu acho que toda pessoa, independentemente de ser da área de estudos linguísticos, deveria ler o seu Curso de Linguística Geral.

Mesmo centrando seus estudos na língua, Saussure previu que um dia alguém estudaria a língua em uso. E acertou.

Isso foi apenas um exemplo do porquê de eu achar um esquema estrutural inadequado para a abordagem feminista. É uma questão de base e eu penso que se você não faz uma boa base, você não faz um bom trabalho. É preciso trabalhar dentro de um paradigma que não só permita, mas que tenha em seu pressuposto básico a mudança social. E é por isso que neste momento eu evoco um autor que talvez nem seja tão conhecido das feministas que é o Norman Fairclough.

Fairclough não diz que não há uma estrutura (s), mas ele a (s) compreende como ordens de discurso. Que fique claro que isso se dá no âmbito discursivo e, dentre outros elementos, integra as formações discursivas que têm uma série de regularidades. Para Fairclough as ideologias estão tanto nas ordens de discurso como nas condições dos eventos atuais. Com isso, ele admite que uma ideologia não-hegemônica pode vir a se tornar hegemônica. Claro que isso não acontece da noite pro dia, é um processo que demanda tempo e muito diálogo.

O meu ponto é que lutar por mudança social e trabalhar dentro de uma perspectiva 100% estrutural me parece um tiro no pé. É contraditório e sem pé nem cabeça. Como vou querer mudar dentro de um sistema que pouco admite mudança? Pode parecer exagero, mas o que tenho percebido no discurso feminista radical é um total ceticismo em relação à própria mudança em si. Em geral é assim: ele clama pela mudança e depois joga no lixo todas as instituições sociais porque elas não vão mudar mesmo, é isso, foda-se. É um discurso combativo (e disso eu gosto), mas derrotista e pessimista que sempre coloca o patriarcado como algo muito difícil de ser desconstruído. Não estou dizendo que seja fácil, só quero chamar a atenção para o fato de que “a dificuldade de se desconstruir o patriarcado” é uma ideia que beneficia quem se beneficia do patriarcado. E, por isso mesmo, muito útil para estas pessoas.

Dando continuidade, é por causa dessa concepção estrutural que o feminismo radical também não admite aquilo que ele considera intrusões. Outro dia fiz um comentário sobre racismo e uma garota (a mesma que me xingou de pós-estruturalista) perguntou quem eu era para falar sobre racismo. Certamente, ela tem uma concepção de protagonismo levada às últimas consequências. Ela pensa que só pode falar sobre racismo quem é uma vítima direta do racismo. Quem vivencia o racismo diariamente e quem o estuda não pode.

Há algum tempo entrevistei a vice-presidente da Comissão da Verdade sobre a Escravidão Negra no Brasil da OAB/PI e ela me falou algo muito óbvio: que no Brasil se criou um conceito de branquitude equivocado, baseado na tonalidade da pele. É este conceito que dá origem a inúmeras facetas do racismo no país. Falta a alguns setores dos movimentos sociais ligados às questões raciais ver o protagonismo com essa perspectiva. Porque quando o foco está apenas no protagonismo, há o risco de se legitimar outros discursos potencialmente danosos para o movimento como o da miscigenação “boa” que é aquela que embranquece.

Se determinados segmentos do movimento negro entendem que não posso falar sobre racismo “porque não sou negra”, dane-se, vou continuar falando do mesmo jeito. Conheço minimamente a história do meu país e acredito que problematizar o racismo é ter um mínimo responsabilidade social. Mas, principalmente, acredito no diálogo. Como resolver problemas sociais sem dialogar? Só para ficar neste tema, vou dar um exemplo: é por meio do diálogo que você percebe o nível de comprometimento das pessoas. Esta semana eu entrevistei uma autoridade local diretamente ligada a políticas públicas e citei uma medida bem simples e barata (custo zero, na realidade) já implementada em outro estado que poderia ser adotada no Piauí e em Teresina para a popularização do Estatuto da Igualdade Racial. E ela respondeu que era uma proposta interessante, mas que ninguém tinha pensado naquilo e que também não sabia que outro estado já fazia aquilo. Então, meus amores, reflitam sobre as palavras-chave vontade e interesse. Eu apoio, mas não tenho vontade e nem interesse. Um discurso maravilhoso, mas que não me serve de nada porque não faço o mínimo.

Falei tanto e agora retorno ao feminismo, o segundo ponto: o problema conceitual de ordem externa. Isso não é algo exclusivo do feminismo radical. No decorrer dessa vida, eu tenho visto diversas pessoas, muitas delas pessoas inteligentes, propagarem memes e textos com interpretações absurdas da pós-modernidade e do pós-modernismo. Para começar, somente o uso dos termos já é um atestado de falta de leitura sobre o assunto.

Em 2011, quando tive contato com esses conceitos pela primeira vez, ou seja, há quatro anos, os conceitos de pós-modernidade e pós-modernismo já eram anacrônicos no meio acadêmico há um bom tempo. Fora de moda, brega, desatualizado, cafona, questionável, flopado. No final dos anos 1980, Sergio Paulo Rouanet ❤ escrevia ensaios que questionavam estes conceitos por razões muito boas. E acredito que fora do Brasil não era diferente. Ou seja, em 2015, as pessoas continuam replicando categorias teóricas mortas, xingando outras pessoas de “pós-modernistas”. Elas estão chutando cachorro morto. A única coisa que posso indicar para elas é: vão estudar. Leiam Lyotard, Rouanet, David Harvey e, mais recentemente, Bauman e Giddens, que fizeram ajustes aos conceitos da melhor forma que puderam.

Dentre algumas das críticas sérias mais comuns feitas à pós-modernidade está o próprio conceito que indicaria uma superação da Modernidade. Alguns autores, como o próprio Rouanet, questiona se viveríamos um estágio posterior à Modernidade. Para ele, o diagnóstico social não é inválido, o que complica é a terminologia. É por isso que outros autores passaram a utilizar termos como Modernidade Tardia, Modernidade Líquida, etc., que expressam um sentido de continuidade, mas com mudanças marcadas em relação a um estágio anterior da Modernidade e elas seriam fruto de um novo estágio do capitalismo. As demandas de hoje não são as mesmas do início do século XX, por exemplo.

Uma analogia comum é que existiu uma fase do capitalismo em que os bens de consumo eram feitos para durar. Hoje estes mesmos bens se tornam obsoletos rapidamente. O mesmo aconteceria nas relações: interpessoais, de trabalho, familiares, etc. O desenvolvimento e o impulso dos movimentos sociais seriam um produto desse novo estágio da Modernidade, mas não qualquer tipo de movimento social e sim de sujeitos sociais até então “sem uma história”, como os negros e as mulheres. As conquistas destes movimentos mudariam a configuração social e produziriam novas tensões sociais. Isso também contribuiria para uma mudança de valores na sociedade. Curiosamente, eu não vejo as pessoas desconstruírem esses aspectos quando criticam a pós-modernidade. As mesmas pessoas que criticam a pós-modernidade são as mesmas que criticam o consumismo desenfreado, por exemplo, que é um dos diagnósticos da pós-modernidade. O que elas questionam é algo como o exposto na tirinha:

pós-modernismo

A Wikipedia diz que Michel Foucault foi pós-modernista. Eu não li a obra completa de Foucault, mas quem fez essa tirinha certamente não leu ou se leu o interpretou equivocadamente. Tenho sérias dúvidas se algum dia Foucault trabalhou com esta categoria teórica para ser chamado de pós-modernista. O que Foucault disse em sua A arqueologia do saber foi que era preciso sacudir, tirar a teia de aranha das nossas narrativas. Esse pensamento de Foucault foi o que possibilitou, por exemplo, historiadores olharem para trás e reverem nossa história. Mas será que foi assim mesmo que nos contaram? Quem contou?

Hoje existe cada vez mais uma tendência nos estudos históricos em trazer a narrativa sob o ponto de vista dos negros, das mulheres, dos imigrantes, dos doentes mentais, em suma, daquelas pessoas que até então eram desconsideradas pela historiografia. Eu, Pierre Rivière, que degolei minha mãe, minha irmã e meu irmão é um estudo do próprio Foucault em que ele se debruça sobre o caso Pierre Rivière e como o rapaz se constrói em seu testemunho, como a Justiça o constrói, como as pessoas do vilarejo em que viveu o constroem, como a Polícia o constrói. Esse é o punhado de histórias igualmente válidas que a tirinha critica. É uma interpretação da profundidade de um pires. Quando se diz válidas, não se quer dizer corretas, valorando a coisa. Se quer dizer que é preciso examinar as várias partes de uma narrativa porque elas são igualmente importantes para a compreensão do fato discursivo. Nem sei se me expressei bem, mas vá lá, qualquer coisa, pergunte nos comentários.

O caso é que durante muito tempo tivemos apenas uma versão dos acontecimentos e ela não era tida como versão, era tida como verdade objetiva, essa verdade que é criticada na tirinha por ter sido questionada “pelo pós-modernismo”. Buscar a gênese dos discursos foi uma lição importante que Foucault deixou. E eu entendo por que muita gente odeia Foucault e o chama de picareta: porque essa é uma visão muito perigosa e ameaçadora para quem quer continuar em seu lugar de poder.

Continuando: qualquer pessoa que tenha estudado um pouquinho de sociologia e tenha mais do que dois neurônios, entende que a realidade é inapreensível. Não há como apreender o real em sua totalidade, mas apenas partes dela. E essas partes são interpretações. Tomando ainda como exemplo a História, antes só se tinha uma interpretação possível e válida: a chamada verdade objetiva. A tirinha acima coloca como algo necessariamente ruim criar sua própria verdade, mas se eu entendo “criar” minha própria verdade como contar a narrativa sob meu ponto de vista, isto é na realidade uma forma de poder. Antes eu não tinha voz. Agora eu tenho. Se isto abre um campo infinito de possibilidades? Sim, abre. Se vai haver quem use isso pra sacanear? Com certeza. Existe algo nessa vida pro qual não se encontre mal uso? Mas por causa disso eu vou invalidar?

Aí, por fim, o trecho “não há mais certo ou errado, apenas um infinito número de “histórias igualmente válidas”” que fora do contexto da tirinha tem um sentido e me choca a má-fé de quem a elaborou porque, só para dar um exemplo: se eu pego a história brasileira sob a perspectiva dos negros, das mulheres, dos homossexuais, dos presos políticos, etc., eu terei um número infinito (se a gente continua citando atores sociais indefinidamente) de histórias igualmente válidas. Quando se fala sobre não haver certo e errado, não existe uma valoração no sentido de estabelecer que vivemos e devemos viver num caos social sem conceitos morais como insinuado pelo autor da tirinha, mas que vivemos um período de transição, em que tudo é muito questionado e, sim, existe uma incerteza moral. É um diagnóstico social, não é um dogma. E isso está relacionado justamente ao número de narrativas que temos. Pode parecer óbvio para uma feminista que luta pela despenalização e legalização do aborto que isso é o certo porque ela tem dados da saúde, de segurança pública, do IBGE sobre exploração infantil, etc. e, sobretudo, porque ela tem uma concepção de corpo e de direitos sobre ele que talvez a maioria das pessoas não tenha. Mas para uma pessoa que não tem acesso a tais dados, que cresceu dentro de uma cultura cristã, isso é moralmente errado.

Olar

Esta é mais uma tentativa que faço de escrever. Por que um novo blog? Porque o domínio do meu antigo expirou e, por algum motivo, não consigo renovar. Minha ignorância sem limites. Já minha paciência, esta é bem limitada. Então, um novo blog. Buritizinho, docinho de buriti. Um doce muito comum no Piauí e que é uma delícia, mas meio azedo. Não é demérito. Apenas explicação.