Fome dos Mortos, Vários Autores

Fome dos mortos é uma boa coleção de historinhas cujo único ponto em comum é o apocalipse zumbi. Como ocorre em outras coletâneas da editora Draco, esta é bem diversificada em temáticas e ideologias, uma política deste selo em agradar gregos e troianos. O volume contém sete histórias, cada uma escrita e desenhada por artistas diferentes: Prisão Zumbi, Anhangá, Marcha Fúnebre, Boca de Lobo, O Presente de Camila, Revolução é Meu Nome! e Passarela da Fome.

Destas, eu destaco três. A primeira é Anhangá, que tem como cenário a floresta e como possível centro da contaminação uma tribo indígenas. Não sei por que, mas me remeteu ao filme Zombi, de Lucio Fulci. Acredito que por se passar num lugar inusitado: no filme de Fulci, a ação se passa numa ilha, até então uma novidade pra época, já que este filme foi um dos primeiros sobre zumbis após a clássica trilogia de Romero. Gostei da ideia de ver uma tribo indígena dizimar a humanidade, especialmente depois do que a humanidade (leia, “civilização”) fez com eles.

A segunda é Revolução é Meu Nome!, pois traz como protagonista um zumbi. O foco narrativo está nele e a ação se dá em torno de sua percepção identitária como zumbi e como parte de algo maior. É interessante porque traz a humanização do zumbi, algo que não é exatamente novo nesse tipo de história, mas que só me recordo de ter sido feito em Day of the Dead, do Romero, com o apaixonante zumbi domesticado Bub.

E a terceira é Passarela da Fome por trazer uma metáfora legal sobre a ditadura da magreza e a crueldade da indústria da moda em relação ao corpo feminino.

Um dos que achei mais fracos foi Prisão Zumbi que faz uma péssima analogia com os discursos sobre direitos humanos/direitos dos zumbis. Se Romero, o criador dessa figura fictícia, conseguiu ver humanidade no já referido Bub, me parece meio audacioso Airton Marinho, o roteirista, propor o contrário disso. Claro que o objetivo aqui é colocar os zumbis no lugar dos “bandidos”, afinal, é uma prisão zumbi, não um hospital ou escola. Não dá pra ver uma narrativa dessas de modo ingênuo.

Ler uma história dessas é, no mínimo, desapontador porque quando Romero, principal responsável pela popularização da figura do zumbi, fez A Noite dos Mortos-Vivos, sua metáfora era política: primeiro para desvelar a apatia da sociedade, algo que mais tarde, Shaun of the Dead repetiria com sucesso, ao unir humor e gore. Depois, para se posicionar de forma bem assertiva em relação à luta por direitos civis nos EUA: seus protagonistas são uma mulher grávida, um negro e um homossexual. E, ao contrário da maioria dos filmes de terror, em que estes personagens são os primeiros a morrer, estes aqui são lutadores e sobrevivem.

Outro que achei fraquinho foi O Presente de Camila. Claramente inspirado em narrativas mais atuais sobre zumbis, como The Walking Dead, o pecado da historinha reside exatamente aí: o clichê. Em meio ao apocalipse zumbi, um adolescente procura uma boneca para a irmã mais nova. É melodramático e o twist pretensamente surpreendente não surpreende em nada.

As outras historinhas são de medianas para boas, mas não me captaram. Em todo caso, recomendo fortemente o quadrinho para quem gosta do gênero.

Kiki de Montparnasse, Catel & Bocquet

Kiki de Montparnasse é um livro que você lê rapidinho, apesar das 400 e tantas páginas. É uma biografia em quadrinhos de Alice Ernestine Prin, mais conhecida como Kiki de Montparnasse. Devo externar a minha ignorância: até pegar neste livro nunca tinha ouvido falar desta pessoa. Kiki foi atriz, cantora, dançarina e pintora. E se relacionou com diversos artistas. Dentre eles, Tsuguharu Foujita, Man Ray, Jean Cocteau e Per Krohg. Nasceu no fim do século XX e teve uma vida curta, morrendo aos 52 anos de idade, devido aos excessos com drogas, principalmente o álcool.

É um livro muito gostoso de ler. E diria que o defeito dele reside nisso porque a vida de Kiki não deve ter sido tão leve como a leitura de sua vida. Tenho a impressão de que Alice Prin pode ter sido alegre, mas não foi feliz. Viveu longe dos pais e o único carinho que recebeu quando criança foi o da avó. Foi uma mulher a frente de seu tempo: artista, bissexual e que construiu suas principais relações no espaço público, entre artistas e intelectuais, não na esfera doméstica, espaço reservado às mulheres.

Ironicamente, ao mesmo tempo em que buscava a liberdade de se expressar e de comportamento, Kiki precisava da influência de seus amigos e amantes artistas quando se metia em confusões. Entretanto, Alice Prin é importante por ser figura-chave nesse percurso pela emancipação da mulher, por ter tentado ser livre, conseguindo modestos avanços, mas nem por isso menos relevantes. Ser uma mulher artista e não ser chamada de puta nas ruas se deve em grande parte a pessoas como Kiki.

Eu diria que o ponto negativo do livro é apresentar Kiki de uma forma muito romantizada. É certo que não há grandes omissões quanto aos detalhes penosos de sua vida, mas eles são mostrados de forma muito leve.

Quanto ao desenho de Catel, ele prezou por marcadores que referenciam a Kiki verdadeira. Os traços de Kiki são muito semelhantes ao original, sendo que o desenhista deu especial destaque às características marcantes de Alice: o nariz, o corpo cheio de curvas e o cabelo.

Recomendo a leitura, mesmo fazendo essas ressalvas, mas recomendo também procurar outras biografias de Kiki de Montparnasse.

Retorno a Brideshead, Evelyn Waugh

Publicado em 1945, Retorno a Brideshead, de Evelyn Waugh, é o tipo de romance em que “pessoas tomam chá e cometem adultério” e que duas décadas mais tarde Angela Carter viria a criticar. Dividido em três partes, o romance é narrado em primeira pessoa pelo capitão Charles Ryder que relata a fragmentação de uma família de aristocratas católicos a partir das relações que desenvolve com ela.

Não sei se concordo totalmente com o Luis Fernando Veríssimo, curador da Tag que indicou o livro, de que esta seria uma das melhores prosas do inglês. Não li o livro em inglês, mas não gostei da estruturação narrativa. Vou listar alguns aspectos que me pareceram problemáticos: a) o romance parece uma peça em que personagens importantes saem de cena e só voltam a aparecer como meros coadjuvantes, b) não existe uma coerência narrativa em relação aos conhecimentos de Ryder sobre o catolicismo, ora ele se mostra um completo ignorante, ora menciona aspectos muito particulares da religião como se fosse um perito, c) a forma esquemática como o catolicismo é apresentado: existe um descompasso entre a moral católica e o comportamento dos Flyte que parecem mais orientados por uma moral protestante. Um bom exemplo disso é a personagem Julia Flyte em dois momentos do livro: sua visão comercial e pragmática do casamento e sua reação cínica diante da descoberta que é adúltera.

Posso estar sendo maldosa, mas acredito que o fato de Evelyn Waugh ser um católico convertido o fez acreditar que era um grande entendedor do catolicismo. E ele quer provar que entende: o romance é cheio de pílulas sobre os rituais da religião católica, em alguns momentos de forma pretensamente didática. Faltou considerar dois aspectos da religião católica que praticamente não aparecem: o pecado e a culpa.

Isso é o que não gostei ou vi com estranhamento enquanto lia. Disse que não concordo plenamente com Veríssimo porque embora ache essas questões acima citadas problemáticas, não posso negar que a narrativa é envolvente: a bissexualidade do narrador Charles Ryder, dividido entre os irmãos Flyte, Sebastian e Julia, semelhantes fisicamente, mas diversos em personalidade; o papel da comida, em que é recorrente os personagens atacarem os pratos com voracidade rendeu alguns dos melhores trechos como, por exemplo, o momento em que Rex e Charles encontram-se para jantar em um restaurante chique em Paris, um reflexo inconsciente da escassez vivida pelo escritor durante a Segunda Guerra Mundial, época em que o livro foi escrito; e, claro, a delícia que é ver uma família de aristocratas dando seu último suspiro numa sociedade que não suportava mais aquele modo de vida.

O que é interessante no livro é que este processo vem associado ao de desagregação familiar: o patriarca abandona a família e vive em companhia da amante de forma ostensiva em outro país, o filho mais jovem se debate no alcoolismo, a filha mais velha casa-se com alguém “inapropriado”, causando grande desgosto à mãe e depois se divorcia, o filho mais velho casa-se com alguém igualmente “inapropriado”, a irmã mais jovem, solteira, vive a incerteza da nova configuração familiar, sem saber onde se firmar.

Fora isso, Retorno a Brideshead é uma narrativa com os mesmos elementos de outros romances, na linha de O Leopardo, de Giuseppe Tomasi di Lampedusa: conservador, com uma família aristocrática em franca decadência, representantes dos chamados “novos ricos”, o mesmo tom de “ah, os tempos já não são os mesmos” e o mesmo desdém por essa nova classe de poder aquisitivo ascendente.

As ondas, Virginia Woolf

Faz sete anos que li esse livro e pensei em fazer uma releitura e publicar uma nova resenha, mas ocorre de eu estar sem tempo para isso no momento. Portanto, vai esta mesma, revisada e, no futuro, quando puder reler esse que considero o melhor livro da Virginia Woolf, eu faça uma nova resenha.

A edição que li é da editora Nova Fronteira e com tradução de Lya Luft, que fez um trabalho corajoso em verter uma obra dessas para o português. Mesmo sabendo que Lya Luft ocupa um lugar de importância na literatura nacional, traduções sempre são complicadas, ainda mais quando é um texto que foge ao padrão das narrativas convencionais.

As Ondas não é um livro difícil de ler, embora, provavelmente, seja muito diferente da maioria dos livros que você já leu porque faz recurso de algo chamado fluxo de consciência em que, de modo intimista, o narrador expõe o caos mental dos personagens, onde consciente e inconsciente não têm uma fronteira definida.

Isso era algo que Virginia já fazia em livros como Mrs. Dalloway, mas de modo mais incipiente, presa que estava às convenções de uma narrativa precisa com início, meio e fim. Em As Ondas não há qualquer preocupação com uma trama: mergulhamos nos pensamentos e sentimentos dos personagens como pensamentos e sentimentos costumam ser: caóticos, confusos, sem muita coerência, sem qualquer cadeia lógica como ocorre no processo de fala, por exemplo.

No livro, há seis personagens – Susan, Rhoda, Jinny, Bernard, Neville e Louis. Em pouco mais de 200 páginas, acompanhamos esses personagens desde a infância até a idade adulta, sem ordem cronológica, tomando conhecimento das coisas somente a partir deles, por meio de monólogos intimistas.

Em um dos textos que encontrei sobre este livro, havia a menção ao fato de que Virginia Woolf eliminou a ação da narrativa. Depende muito do que você considera ação. A ação pode não estar lá da forma como aparece em romances convencionais, mas está lá sim, traduzida nos anseios e nas angústias dos personagens.

A relação de alteridade entre eles é bem marcada. Isso se explicita, principalmente, no modo como cada um estabelece vínculos com Percival, personagem que não tem voz direta como os outros, mas que funciona como elo entre eles. Em alguns momentos, é como se os seis personagens se fundissem em um só.

Talvez não seja o primeiro livro para começar a ler Virginia Woolf, mas eu não me arrependo (comecei por ele). E, depois, é sempre possível retornar e fazer uma releitura, como eu mesma pretendo fazer.

Os vivos e os mortos, Jason

“Um garoto conhece uma garota. Um meteoro cai. Os mortos voltam à vida. Os mortos comem os vivos. O garoto salva a garota. A garota vira zumbi. O garoto vira zumbi. Os dois começam a viver e comer juntos, felizes para sempre.” Não é um spoiler. Essa é a sinopse da HQ de Jason. Parece simples? Sim, é. Mas não é medíocre.

Os personagens têm características humanas em seu traço, mas com feições que lembram cachorros. Não há falas e são pouquíssimos os elementos textuais. Aliás, o uso de texto em Os Vivos e os Mortos é bem interessante, porque remete ao cinema mudo: as frases são bem explicativas e aparecem em quadros inteiramente negros. A própria sequência da história seria um filme mudo, não fosse o fato de estarmos lendo.

E este é um dos aspectos mais legais na historinha. O outro é mais óbvio que é a referência ao diretor de filmes de terror George Romero, recentemente falecido. Afinal, foi ele quem popularizou os roteiros de zumbis no cinema, sempre com uma visada mais política.

É uma leitura rápida, leve, divertida e, claro, provavelmente agradará aos fãs dos gêneros citados. Porém, não tão fácil de achar. A editora que o publicou parece que está morta. Tentei encontrar alguma imagem para postar aqui e não encontrei nada.

Quase memória, Carlos Heitor Cony

Quase Memória é um livro que explora os limites entre biografia e ficção. Não há garantia de que nada do que esteja escrito nele de fato tenha acontecido e talvez seja isso que torne o livro mais interessante, especialmente quando a gente considera a época que foi lançado, início dos anos 1990, quando este formato ainda não era tão popular. O narrador, o próprio Carlos Heitor Cony, recebe um embrulho endereçado a ele, mas sem remetente. Entretanto, as características do pacote o fazem ter certeza de que o emissor é o pai, Ernesto Cony, morto há dez anos.

A partir do momento em que recebe a encomenda, o autor mergulha em reminiscências de sua infância, adolescência e vida adulta. São memórias da relação que teve com o pai em cada uma das fases de sua vida. Mas nada garante que sejam reais. Cony divaga pelo passado como se estivesse à deriva. Algumas informações são, de fato, verdadeiras como, por exemplo, o tempo em que frequentou o seminário.

A imagem que constrói de seu pai é a de um grande contador de histórias, na linha do personagem de Peixe grande e suas histórias maravilhosas. Ao contrário do personagem de Ewan McGregor, Cony sente um grande fascínio pelo pai e suas histórias que a cada narração recebem mais detalhes, acréscimos ou mudam completamente.

É um livro que traz elementos de afetividade, uma relação entre pai e filho, mas não é algo romantizado ou uma idealização da relação paterna. O próprio Cony admite que seu irmão mais velho é o preferido do pai e informa o leitor que o comportamento de Ernesto andava longe de seu perfeito, especialmente como marido, tendo tido diversos casos extraconjugais. O autor não entra no mérito sobre como isso interferia na vida íntima dos pais, posto que o foco da narrativa é mesmo a relação entre pai e filho.

Embora eu tenha gostado das histórias porque a narrativa funciona como crônica familiar, algumas coisas me incomodaram: a indulgência do narrador em relação às traições do pai (me pergunto se ele adotaria o mesmo tom, caso sua mãe fosse a adúltera), uma constante necessidade de afirmação de sua masculinidade em irritantes afirmações como “quando eu estava casado com minha terceira mulher” que se repetem em curtos intervalos entre as páginas e, talvez o que me causou maior estranhamento, a impaciência e irritação em saber que o pai estava ajudando uma família perseguida pela ditadura militar.

Até onde sei, Cony apoiou a derrubada de Jango que culminou no golpe de 1964, mas depois se arrependeu e passou até mesmo a ser perseguido pelo regime militar. Compreendo ele temer pela vida do pai quando pessoas estavam sendo torturadas, mas se indignar com o que ele supunha serem pessoas se aproveitando de um idoso, sem nenhum exame de consciência de seu papel, enquanto comunicador, para que a situação política do país estivesse naquelas condições me pareceu bem estranho.

Ernesto Cony não informou ao filho sobre suas atividades e isso parece ter causado grande angústia no personagem-narrador-Carlos:

Eu servira na hora dos balões, das mangas roubadas, das encrencas na Sala de Imprensa. Num episódio em que ele lidara realmente com o perigo, que poderia colocá-lo numa situação sem retorno, sendo obrigado também a fugir, nesse episódio que por semanas consumiu-lhe energia, sonho e discurso, ele me quis longe, evitou-me.

Por que será?

De duas uma: ou queria poupar-me, receando que o perigo também me ameaçasse, ou me julgou de menor valia, plateia insuficiente para assistir à sua loucura e ao seu gesto.

¯\_(ツ)_/¯

O balcão, Jean Genet

A diferença mais marcante entre a linguagem do cinema e do teatro é a nossa percepção enquanto espectadores. Se no cinema somos transportados para dentro da realidade fílmica e ficamos imersos no enredo de uma película até o seu final, no teatro existe um acordo tácito entre público e atores de que aquilo é uma mentira, um faz-de-contas, em suma, não é real.

A cenografia, no teatro, por mais realística que seja, não esconde sua “falsidade” e estamos vendo os atores ali, em carne e osso, vemos as mudanças de atos, etc. Ou seja, assistimos a uma peça, mas nunca com a mesma imersão com a qual vemos um filme. Não é de se  estranhar, por exemplo, o desconforto que certos filmes causam quando adotam elementos anti-ilusionistas.

O Balcão, peça de Jean Genet, destrói qualquer ilusão de realidade que pode haver na linguagem teatral. Esta peça fala sobre um bordel, cujo nome é o do título, frequentado por homens que fingem ser aquilo que não são. Curiosamente, os personagens que estes escolhem para encarnar são justamente figuras de autoridade: o bispo, o juiz, o coronel.

A peça é uma série de representações dentro de representações. Ela provoca pelo teor de suas falas, pelo ambiente em que é encenada, mas principalmente pela falta de referencial que causa no espectador. Ao final, o que temos de mais verdadeiro é a fala de Madame Irma, dona do bordel, que se dirige à plateia com algo como: “Agora vocês podem voltar pra casa. Certamente, as coisas serão tão verdadeiras por lá quanto foram aqui.”

Muito ácida, a peça debocha das instituições representadas – Igreja, Justiça, Exército. Um dos aspectos centrais é o fato de elas precisarem ser constantemente legitimadas para não perder espaços de poder. Desse modo, esses lugares e essas posições devem ser reafirmados continuamente. Ao mesmo tempo, Genet aponta que a necessidade de constante afirmação é um sinal de que essas instituições estão enfraquecidas.

Esse foi o primeiro trabalho que li de Jean Genet. É uma leitura rápida, porque a peça é curtinha, e instigante, mas não é para todos. O teatro de Genet é provocante, com uma estética do choque. Também não é recomendado para mentes pudicas. 🙂

Uns e outros, contos espelhados

A intertextualidade e o dialogismo são dois conceitos-chave quando se pensa em discurso. O primeiro diz respeito às referências, implícitas ou explícitas, a outros textos/discursos em um dado texto. E o segundo indica que todo discurso ou texto dialoga com outros, seja para discordar ou concordar. Essa é a ideia central da edição de aniversário da Tag do ano passado, Uns e Outros – Contos Espelhados, conjunto de contos concebidos e organizados por Helena Terra e Luiz Ruffato.

Dez escritores foram convidados para, cada um, entregar um conto de sua autoria, mas não qualquer conto: seria um texto escrito a partir de outro. Eles escolheriam um conto de sua preferência de um escritor clássico ou cânone e redigiram uma resposta. Portanto, a edição contém vinte contos. Abaixo eu fiz uma lista com as correspondências entre escritores e contos clássicos escolhidos:

  1. A morte da mãe (Beatriz Bracher) > Eveline (James Joyce)

  2. Início de alguma coisa (imitando Hemingway) (Luiz Antonio de Assis Brasil) > O fim de algo (Ernest Hemingway)

  3. Simplício (Eliane Brum) > Os desastres de Sofia (Clarice Lispector)

  4. O futuro político (Primeiro ato) (Milton Hatoum) > Teoria do medalhão (Machado de Assis)

  5. Negrinha! Negrinha! Negrinha! (Ana Maria Gonçalves) > Negrinha (Monteiro Lobato)

  6. Pipa Sande (Paulo Lins) > Pai contra mãe (Machado de Assis)

  7. A rainha das fadas (Ivana Arruda Leite) > Marriage à la mode (Katherine Mansfield)

  8. Um homem célebre (José Luís Peixoto) > Um homem célebre (Machado de Assis)

  9. Um simples engano (Maria Valéria Rezende) > O colar (Guy de Maupassant)

  10. O herói da sombra (Cristóvão Tezza) > Depois do baile (Leon Tolstói)

Machado de Assis foi escolhido duas vezes: Teoria do Medalhão e Pai Contra Mãe. Particularmente, achei a resposta de Paulo Lins, cujo título é Pipa Sande, mais interessante porque busca resgatar a história de uma família africana antes do Brasil e as consequências da escravidão na formatação daquela família nas gerações posteriores. Não que o conto do Machado de Assis – sobre um homem que ganha a vida capturando escravos fugidos e depende da captura de uma escrava grávida para que seu próprio filho não passe fome – seja ruim, mas ele traz apenas a perspectiva de Cândido, o protagonista. Porém, não deixa de mostrar a crueldade da ação quando nos premia com um desfecho trágico.

Além deste, há Negrinha! Negrinha! Negrinha, de Ana Maria Gonçalves, que também traz como tema as questões raciais. O conto é uma resposta ao doentio Negrinha, de Monteiro Lobato. É um dos textos em que a metanarrativa fica mais explícita: nele, o conto original é citado diretamente como preponderante para que o evento principal da narrativa aconteça.

Destaco ainda Simplício, escrito por Eliane Brum e resposta a Os Desastres de Sofia, de Clarice Lispector. Se no original, temos o foco narrativo em Sofia, na resposta ele está no professor da menina. São ambas narrativas intimistas e psicológicas. São os contos para se ler mais lentamente desta coletânea; e A Rainha das Fadas, resposta de Ivana Arruda Leite, a Katherine Mansfield. O que achei interessante neste conto é que a autora extrai ideias sugeridas (conscientemente ou não) do original e as transforma em fato consolidado em seu texto.

Se mesmo assim, você não gostar dos textos inéditos, sempre há a possibilidade de ler os clássicos e até conhecer: eu, por exemplo, ainda não tinha lido nada do James Joyce, Hemingway, Katherine Mansfield e Guy de Maupassant. Às vezes é interessante começar a ler um autor por seus contos e, só então, passar aos romances.

Meu amigo Dahmer, Derf Backderf

De modo geral, eu gostei de Meu Amigo Dahmer e entendo o quadrinho ter sido premiado no Festival de Angoulême, um dos mais importantes do gênero. Porém, me senti meio enganada porque a intimidade que o título evoca inexistiu na prática. Derf Backderf não foi amigo de Dahmer. Ele foi, no máximo, um colega que permitia, junto ao seu grupo de amigos, que Dahmer andasse de vez em quando em sua companhia.

Como eu imaginava que o roteiro da HQ era baseado nas vivências de Backderf com Dahmer, tive de praticamente zerar as expectativas que tinha porque o trabalho é construído com base em entrevistas que Dahmer e seus pais concederam à mídia, relatórios policiais, além, é claro, das experiências de Backderf, seus amigos e parte da administração da escola. De modo muito correto, ele deu nomes fictícios a todas essas pessoas, assim como procurou retratá-las, no desenho, de modo distanciado de sua aparência (à exceção de Dahmer e dele próprio) na realidade.

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Dahmer aparece junto ao Clube de Jornalismo da escola. Seus colegas nerds costumavam tirar fotos dele em grupos dos quais ele não fazia parte. Este foi um desses momentos

Então, fora algumas situações mostradas no quadrinho, muito do retratado vem de informações fornecidas pelo próprio Dahmer em depoimentos à polícia ou em entrevistas à TV.

No quadrinho, o notório serial killer é apresentado como um adolescente que estava no último degrau da escala social da escola. Até mesmo no grupo dos nerds (grupo do qual Backderf fazia parte), ele só era admitido ocasionalmente e porque esses jovens achavam muito engraçado as imitações crueis que Dahmer fazia do decorador de sua mãe, um homem com paralisia cerebral. Em algum momento, é levantada a hipótese de que poderia ser uma imitação também de sua própria mãe, uma mulher que teria problemas mentais, tendo inclusive sido internada algumas vezes.

O relato de Backderf mostra Dahmer como um adolescente isolado e com tendência ao alcoolismo, além da informação amplamente divulgada pela mídia de que sentia prazer em dissecar animais. Homossexual, o próprio Dahmer disse em entrevista que sua fantasia envolvia homens inconscientes (ou mortos). O quadrinho de Backderf traz uma menção em relação a isso.

Porém, o relato mais estarrecedor é o de que um dos jovens que fazia parte do grupinho de Backderf e que conviveu com Dahmer deu uma carona a ele certa noite em 1978. E, de acordo com a linha do tempo construída por Backderf, o corpo da primeira vítima de Dahmer estaria ainda na casa do jovem enquanto os dois conversavam dentro do carro, a poucos metros da residência.

O desenho de Backderf é algo a se destacar. Desde o uso de sombras e até mesmo a concepção das paisagens e demais ambientes onde se passa a narrativa, tudo remete à mente doentia de Dahmer e seu isolamento gradativo conforme os anos do Ensino Médio correm.

No mais, eu acrescentaria que a edição da Darkside está muito bonita. Repleta de textos adicionais do autor e de fotos daquela época, o livro traz algumas curiosidades que talvez a maioria das pessoas não conheça. Um exemplo é que a placa de formandos de 1978, ano em que Dahmer se formou, foi removida da escola, uma tentativa débil da instituição em desvincular sua imagem do serial killer. 

Limonov, Emmanuel Carrère

Quanto mais eu me adiantava na leitura de Limonov, mais me convencia do fracasso particular do personagem. Afinal, desde a adolescência, a maior ambição de Eduard Limonov era ser famoso no mundo inteiro. E, até a edição de junho de 2017 da Tag, eu nunca soube da existência dessa controversa figura. Mas até aí tudo bem, não tenho a pretensão de conhecer tudo. O caso é que comecei a indagar meus amigos e conhecidos sobre ele e descobri que ninguém o conhecia.

Pesquisei na internet e mesmo lá achei pouca informação sobre Limonov. Pois bem, Eduard Limonov, nascido Savenko, é um escritor e político russo. Filho de um oficial de baixa patente da antiga União Soviética, ele deixou o país na mesma época que o escritor Alexander Soljenítsin, nos idos dos anos 1970. Soljenítsin foi praticamente expulso após a repercussão internacional do livro Arquipélago Gulag, livro que trazia relatos de vários presos políticos.

Morando nos Estados Unidos, Limonov viveu de Assistência Social depois de ir ao fundo do poço. Isso por causa do abandono da esposa e também pelo ressentimento que sentia devido ao sucesso de outros que julgava menos talentosos que ele.

E a narrativa podia parar por aí porque tudo na vida de Limonov é uma sequência de fracassos. Um dos episódios mais hilários narrados no livro, por exemplo, é o engano dele ao pensar que uma das serviçais de uma festa a que vai é a filha do dono da casa.

Todos os livros de Limonov que foram sucesso de público e crítica são relatos de sua própria vivência. Um dia, não tinha mais história para contar. E ele percebeu que era, sim, famoso, mas no underground e entre a crítica. Não era mundialmente famoso. Daí, foi fazer outras coisas. Uma delas, a que causou grande polêmica, encontra-se neste trecho do documentário Serbian Epics.

Depois da separação da União Soviética, Limonov retornou à Rússia e fundou o Partido Nacional Bolchevique, agremiação com tendências fascistas que fazia oposição Gorbachev, Iéltsin e, depois, Putin. Para o escritor e agora político, o fim da União Soviética era um grande erro.

O jornalista francês Emmanuel Carrère faz uma análise dos nasbols como mais do que um grupo de fascistas, mas como o que a Rússia teve de contracultura nos anos 1990. De acordo com o escritor francês, muitos dos adolescentes e jovens que faziam parte do Partido Nacional Bolchevique, em outras circunstâncias, poderiam ter ido por caminhos mais tortuosos. Ao redor de Limonov e de seu partido, eles que viveram suas infâncias na União Soviética, queriam acreditar que o que lhes foi ensinado não era uma mentira.

O partido existiu entre 1994 e 2007 quando foi banido. Limonov fundou outro, The Other Russia. Passou de opositor a aliado de Putin.

Achei a história de Limonov interessante, mas não sei se adotaria o tom indulgente que Carrère adota em relação ao escritor. A impressão que fica é que Limonov é um tanto quanto picareta, mais preocupado com a promoção pessoal e, aparentemente, sem talento para produzir uma obra de ficção que não fosse centrada em aspectos puramente autobiográficos.

O que torna sua história mais interessante é que ele viveu e fez parte politicamente de alguns dos eventos mais importantes do século XX e, como o próprio Carrère diz, talvez a história dele conte um pouco da história sobre eles mesmos, os europeus. E, sobretudo, do próprio autor que também tem ascendência russa. Inclusive, ele usa a origem compartilhada como estratégia narrativa, comparando sua própria trajetória à de Limonov. Então, é uma leitura que vale a pena para quem gosta de história, de literatura e de personagens controversos.