Trechos engraçados #3: Carlos Heitor Cony

Quando comecei Quase Memória, do Carlos Heitor Cony, escritor e jornalista falecido no início do ano, achei o livro pedante. Demorou um pouco para a leitura “pegar”. Ainda não concluí, mas agora passei a me divertir com as histórias, verdadeiras ou não, que o autor conta de seu pai.

Uma delas me captou porque me remeteu ao tempo em que era repórter de redação, há três anos. Eu tinha um colega que, de tanto entrevistar pessoas na cidade, sabia imitar algumas delas com perfeição: as frases que diriam, o modo como se expressavam e assim por diante.

Para quem está há muito tempo em uma editoria ou entrevistando sempre as mesmas fontes oficiais é possível “prever” o que essas pessoas diriam em determinadas situações porque elas sempre usam o mesmo discurso.

Foi confiando nessas habilidades que Ernesto Cony, pai do autor e também jornalista, escreveu uma matéria sobre o sermão de um padre que estava acostumado a ouvir desde sempre. O sermão do padre seria no sábado à tarde e a matéria sairia na edição de domingo. Mas seu Ernesto preferiu namorar em vez de ir assistir ao sermão do padre. Vai vendo:

Naquela tarde, já tendo ouvido vários e edificantes sermões anteriores do Júlio Maria, o pai combinou com o chefe da oficina do jornal em deixar o texto já pronto.

Embarcou para Três Rios, o chefe da oficina era uma toupeira, publicou no domingo a palestra do Júlio Maria na página 8, que era dedicada à cidade. Na primeira página da mesma edição do mesmo jornal, com destaque, tarja preta assinalando a matéria, vinha a notícia de que “o festejado orador sacro, padre Júlio Maria”, falecera minutos antes de assumir o púlpito da catedral metropolitana para a habitual palestra da quaresma.

Seu Ernesto só não foi demitido porque o chefe gostou muito de seu estilo de escrita e o promoveu a redator.

Uns e outros, contos espelhados

A intertextualidade e o dialogismo são dois conceitos-chave quando se pensa em discurso. O primeiro diz respeito às referências, implícitas ou explícitas, a outros textos/discursos em um dado texto. E o segundo indica que todo discurso ou texto dialoga com outros, seja para discordar ou concordar. Essa é a ideia central da edição de aniversário da Tag do ano passado, Uns e Outros – Contos Espelhados, conjunto de contos concebidos e organizados por Helena Terra e Luiz Ruffato.

Dez escritores foram convidados para, cada um, entregar um conto de sua autoria, mas não qualquer conto: seria um texto escrito a partir de outro. Eles escolheriam um conto de sua preferência de um escritor clássico ou cânone e redigiram uma resposta. Portanto, a edição contém vinte contos. Abaixo eu fiz uma lista com as correspondências entre escritores e contos clássicos escolhidos:

  1. A morte da mãe (Beatriz Bracher) > Eveline (James Joyce)

  2. Início de alguma coisa (imitando Hemingway) (Luiz Antonio de Assis Brasil) > O fim de algo (Ernest Hemingway)

  3. Simplício (Eliane Brum) > Os desastres de Sofia (Clarice Lispector)

  4. O futuro político (Primeiro ato) (Milton Hatoum) > Teoria do medalhão (Machado de Assis)

  5. Negrinha! Negrinha! Negrinha! (Ana Maria Gonçalves) > Negrinha (Monteiro Lobato)

  6. Pipa Sande (Paulo Lins) > Pai contra mãe (Machado de Assis)

  7. A rainha das fadas (Ivana Arruda Leite) > Marriage à la mode (Katherine Mansfield)

  8. Um homem célebre (José Luís Peixoto) > Um homem célebre (Machado de Assis)

  9. Um simples engano (Maria Valéria Rezende) > O colar (Guy de Maupassant)

  10. O herói da sombra (Cristóvão Tezza) > Depois do baile (Leon Tolstói)

Machado de Assis foi escolhido duas vezes: Teoria do Medalhão e Pai Contra Mãe. Particularmente, achei a resposta de Paulo Lins, cujo título é Pipa Sande, mais interessante porque busca resgatar a história de uma família africana antes do Brasil e as consequências da escravidão na formatação daquela família nas gerações posteriores. Não que o conto do Machado de Assis – sobre um homem que ganha a vida capturando escravos fugidos e depende da captura de uma escrava grávida para que seu próprio filho não passe fome – seja ruim, mas ele traz apenas a perspectiva de Cândido, o protagonista. Porém, não deixa de mostrar a crueldade da ação quando nos premia com um desfecho trágico.

Além deste, há Negrinha! Negrinha! Negrinha, de Ana Maria Gonçalves, que também traz como tema as questões raciais. O conto é uma resposta ao doentio Negrinha, de Monteiro Lobato. É um dos textos em que a metanarrativa fica mais explícita: nele, o conto original é citado diretamente como preponderante para que o evento principal da narrativa aconteça.

Destaco ainda Simplício, escrito por Eliane Brum e resposta a Os Desastres de Sofia, de Clarice Lispector. Se no original, temos o foco narrativo em Sofia, na resposta ele está no professor da menina. São ambas narrativas intimistas e psicológicas. São os contos para se ler mais lentamente desta coletânea; e A Rainha das Fadas, resposta de Ivana Arruda Leite, a Katherine Mansfield. O que achei interessante neste conto é que a autora extrai ideias sugeridas (conscientemente ou não) do original e as transforma em fato consolidado em seu texto.

Se mesmo assim, você não gostar dos textos inéditos, sempre há a possibilidade de ler os clássicos e até conhecer: eu, por exemplo, ainda não tinha lido nada do James Joyce, Hemingway, Katherine Mansfield e Guy de Maupassant. Às vezes é interessante começar a ler um autor por seus contos e, só então, passar aos romances.

Trechos engraçados #2: Yuri Lotman

Esse trechinho é de um livro que li quando fazia minha monografia, Estética e Semiótica do Cinema, do semioticista russo Yuri Lotman (a edição que li é portuguesa). Acho engraçado e, ao mesmo tempo, elucidativo porque desconstrói essa ideia de que a linguagem é natural, algo óbvio, mas que no dia a dia a gente esquece.

No relato, o autor conta a história de um amigo cuja empregada doméstica que jamais foi ao cinema fica horrorizada com a edição das imagens que não mostra o corpo inteiro das pessoas, levando-a a crer que está vendo pedaços de corpos.

Pode parecer bobo, mas pense no estranhamento que é quando você vê um filme que apresenta uma linguagem diferente dos filmes que você costuma ver. O efeito é similar:

Um dos meus velhos amigos moscovitas falou-me um dia da sua empregada doméstica, que deixara há pouco um kolkhoze siberiano para vir para a cidade. Era uma rapariga jovem, inteligente, que frequentava a escola, mas que, não sei por que razão, nunca vira um filme. (Isto passava-se há muito tempo) Os patrões mandaram-na a um cinema onde era exibida uma comédia. Voltou pálida e de rosto sombrio.

__ Então, gostaste? __ perguntaram-lhe.

Estava ainda sob o efeito do que tinha visto e continuou calada por uns momentos.

__ É horrível __ disse ela, por fim, indignada. __ Não compreendo como aqui, em Moscovo, se deixa mostrar tamanhos horrores.

__ E que viste tu?

__ Vi pessoas cortadas aos bocados. A cabeça aqui, os pés ali, as mãos acolá.

Meu amigo Dahmer, Derf Backderf

De modo geral, eu gostei de Meu Amigo Dahmer e entendo o quadrinho ter sido premiado no Festival de Angoulême, um dos mais importantes do gênero. Porém, me senti meio enganada porque a intimidade que o título evoca inexistiu na prática. Derf Backderf não foi amigo de Dahmer. Ele foi, no máximo, um colega que permitia, junto ao seu grupo de amigos, que Dahmer andasse de vez em quando em sua companhia.

Como eu imaginava que o roteiro da HQ era baseado nas vivências de Backderf com Dahmer, tive de praticamente zerar as expectativas que tinha porque o trabalho é construído com base em entrevistas que Dahmer e seus pais concederam à mídia, relatórios policiais, além, é claro, das experiências de Backderf, seus amigos e parte da administração da escola. De modo muito correto, ele deu nomes fictícios a todas essas pessoas, assim como procurou retratá-las, no desenho, de modo distanciado de sua aparência (à exceção de Dahmer e dele próprio) na realidade.

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Dahmer aparece junto ao Clube de Jornalismo da escola. Seus colegas nerds costumavam tirar fotos dele em grupos dos quais ele não fazia parte. Este foi um desses momentos

Então, fora algumas situações mostradas no quadrinho, muito do retratado vem de informações fornecidas pelo próprio Dahmer em depoimentos à polícia ou em entrevistas à TV.

No quadrinho, o notório serial killer é apresentado como um adolescente que estava no último degrau da escala social da escola. Até mesmo no grupo dos nerds (grupo do qual Backderf fazia parte), ele só era admitido ocasionalmente e porque esses jovens achavam muito engraçado as imitações crueis que Dahmer fazia do decorador de sua mãe, um homem com paralisia cerebral. Em algum momento, é levantada a hipótese de que poderia ser uma imitação também de sua própria mãe, uma mulher que teria problemas mentais, tendo inclusive sido internada algumas vezes.

O relato de Backderf mostra Dahmer como um adolescente isolado e com tendência ao alcoolismo, além da informação amplamente divulgada pela mídia de que sentia prazer em dissecar animais. Homossexual, o próprio Dahmer disse em entrevista que sua fantasia envolvia homens inconscientes (ou mortos). O quadrinho de Backderf traz uma menção em relação a isso.

Porém, o relato mais estarrecedor é o de que um dos jovens que fazia parte do grupinho de Backderf e que conviveu com Dahmer deu uma carona a ele certa noite em 1978. E, de acordo com a linha do tempo construída por Backderf, o corpo da primeira vítima de Dahmer estaria ainda na casa do jovem enquanto os dois conversavam dentro do carro, a poucos metros da residência.

O desenho de Backderf é algo a se destacar. Desde o uso de sombras e até mesmo a concepção das paisagens e demais ambientes onde se passa a narrativa, tudo remete à mente doentia de Dahmer e seu isolamento gradativo conforme os anos do Ensino Médio correm.

No mais, eu acrescentaria que a edição da Darkside está muito bonita. Repleta de textos adicionais do autor e de fotos daquela época, o livro traz algumas curiosidades que talvez a maioria das pessoas não conheça. Um exemplo é que a placa de formandos de 1978, ano em que Dahmer se formou, foi removida da escola, uma tentativa débil da instituição em desvincular sua imagem do serial killer. 

Trechos engraçados #1: Machado de Assis

Outro dia, eu estava pensando em compartilhar por aqui esses trechos muito engraçados que, volta e meia, lembro aleatoriamente e começo a rir sozinha, na rua, no trabalho, em casa, no ônibus. “Tá doida?”, geralmente me perguntam, silenciosamente ou não.

Vai ver alguém é doido, acha engraçado também e se diverte. Acho que o mundo precisa de um pouco mais de riso. 😦

Então, aqui vai: pensei num trecho de Um homem célebre, do Machado de Assis. Esse conto trata da angústia criativa do compositor Pestana que, desejando ardentemente compor algo grandioso como seus ídolos – Cimarosa, Mozart, Beethoven, Gluck, Bach, Schumann – só consegue compor polcas. E, para seu grande desespero, as polcas fazem muito sucesso.

Reli esse conto recentemente porque veio numa das edições da Tag. Sorri que lacrimejei:

Veio a questão do título. Pestana, quando compôs a primeira polca, em 1871, quis dar-lhe um título poético, escolheu este: Pingos de Sol. O editor abanou a cabeça, e disse-lhe que os títulos deviam ser, já de si, destinados à popularidade – ou por alusão a algum sucesso do dia, ou pela graça das palavras; indicou-lhe dois: A lei de 28 de setembro, ou Candongas não fazem festa.

– Mas que quer dizer Candongas não fazem festa? – perguntou o autor.

– Não quer dizer nada, mas populariza-se logo.

Machado de Assis se adianta em uma discussão que só se intensificaria com os estudos sociológicos da Escola de Frankfurt sobre a mercantilização da arte. E desde o final do século XIX sinaliza a tendência que é a “composição” de músicas cujos títulos (ou letras) não fazem sentido algum mas, como diz o editor, “populariza-se logo”.

Limonov, Emmanuel Carrère

Quanto mais eu me adiantava na leitura de Limonov, mais me convencia do fracasso particular do personagem. Afinal, desde a adolescência, a maior ambição de Eduard Limonov era ser famoso no mundo inteiro. E, até a edição de junho de 2017 da Tag, eu nunca soube da existência dessa controversa figura. Mas até aí tudo bem, não tenho a pretensão de conhecer tudo. O caso é que comecei a indagar meus amigos e conhecidos sobre ele e descobri que ninguém o conhecia.

Pesquisei na internet e mesmo lá achei pouca informação sobre Limonov. Pois bem, Eduard Limonov, nascido Savenko, é um escritor e político russo. Filho de um oficial de baixa patente da antiga União Soviética, ele deixou o país na mesma época que o escritor Alexander Soljenítsin, nos idos dos anos 1970. Soljenítsin foi praticamente expulso após a repercussão internacional do livro Arquipélago Gulag, livro que trazia relatos de vários presos políticos.

Morando nos Estados Unidos, Limonov viveu de Assistência Social depois de ir ao fundo do poço. Isso por causa do abandono da esposa e também pelo ressentimento que sentia devido ao sucesso de outros que julgava menos talentosos que ele.

E a narrativa podia parar por aí porque tudo na vida de Limonov é uma sequência de fracassos. Um dos episódios mais hilários narrados no livro, por exemplo, é o engano dele ao pensar que uma das serviçais de uma festa a que vai é a filha do dono da casa.

Todos os livros de Limonov que foram sucesso de público e crítica são relatos de sua própria vivência. Um dia, não tinha mais história para contar. E ele percebeu que era, sim, famoso, mas no underground e entre a crítica. Não era mundialmente famoso. Daí, foi fazer outras coisas. Uma delas, a que causou grande polêmica, encontra-se neste trecho do documentário Serbian Epics.

Depois da separação da União Soviética, Limonov retornou à Rússia e fundou o Partido Nacional Bolchevique, agremiação com tendências fascistas que fazia oposição Gorbachev, Iéltsin e, depois, Putin. Para o escritor e agora político, o fim da União Soviética era um grande erro.

O jornalista francês Emmanuel Carrère faz uma análise dos nasbols como mais do que um grupo de fascistas, mas como o que a Rússia teve de contracultura nos anos 1990. De acordo com o escritor francês, muitos dos adolescentes e jovens que faziam parte do Partido Nacional Bolchevique, em outras circunstâncias, poderiam ter ido por caminhos mais tortuosos. Ao redor de Limonov e de seu partido, eles que viveram suas infâncias na União Soviética, queriam acreditar que o que lhes foi ensinado não era uma mentira.

O partido existiu entre 1994 e 2007 quando foi banido. Limonov fundou outro, The Other Russia. Passou de opositor a aliado de Putin.

Achei a história de Limonov interessante, mas não sei se adotaria o tom indulgente que Carrère adota em relação ao escritor. A impressão que fica é que Limonov é um tanto quanto picareta, mais preocupado com a promoção pessoal e, aparentemente, sem talento para produzir uma obra de ficção que não fosse centrada em aspectos puramente autobiográficos.

O que torna sua história mais interessante é que ele viveu e fez parte politicamente de alguns dos eventos mais importantes do século XX e, como o próprio Carrère diz, talvez a história dele conte um pouco da história sobre eles mesmos, os europeus. E, sobretudo, do próprio autor que também tem ascendência russa. Inclusive, ele usa a origem compartilhada como estratégia narrativa, comparando sua própria trajetória à de Limonov. Então, é uma leitura que vale a pena para quem gosta de história, de literatura e de personagens controversos.

Melhor e pior leitura do ano

O final do ano chegou e, juro, gostaria de fazer uma postagem com os 10 melhores livros que li. Porém, não li tantos livros assim em 2017 e menos ainda (dez!) que possam figurar numa lista dessas sem causar algum constrangimento. Mas estou entregando este textinho com o melhor e o pior livro que li este ano.

São impressões bem pessoais mesmo. Portanto, não há necessidade de rancor. Vamos lá então:

O melhor

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O xará, Jhumpa Lahiri

De uns tempos para cá, eu tomei a decisão de ler mais mulheres ou, pelo menos, balancear mais minhas leituras em relação ao gênero dos autores. A Tag me ajudou bastante neste ano — sou assinante desde o ano passado — com dois lançamentos muito bons. Um foi A Câmara Sangrenta e Outros Contos, de Angela Carter, que além de trazer uma narrativa com foco na subjetividade feminina, também apresenta uma outra literatura possível, se esquivando da tradição de britânica das narrativas com crítica social e de costumes que tematizam, dentre outras coisas, a hipocrisia, o adultério, a vida de aparências, etc.

E o outro foi este O Xará, de Jhumpa Lahiri, que considero o melhor livro que li em 2017. Assim como A Câmara Sangrenta, a obra apresenta grande interesse na questão da subjetividade.  Porém, desta vez, de um jovem americano, de origem indiana, Gógol Ganguli. O título do livro faz referência ao escritor russo Nicolai Gógol. Grande admirador de Gógol, o pai do protagonista dá ao filho o apelido homônimo e, por uma série de enganos causados pelas diferenças culturais, a criança acaba sendo registrada assim nos Estados Unidos.

O mais interessante em O Xará é a ideia da impermanência: com bastante habilidade, a escritora passeia pelas vivências de Gógol, apresentando sem julgamento de valor o jogo dialógico no processo sempre ininterrupto da construção da identidade do personagem. Em relação à família, à Índia, à cultura norte-americana e, claro, ao próprio nome. É um livro belíssimo.

O pior

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Vida e proezas de Aléxis Zorbás

O pior também veio via Tag. Meu, o que é esse livro?

Assim, primeiro os aspectos positivos: Vida e Proezas de Aléxis Zorbás é um livro muito bem escrito. E não é algo para se estranhar, visto que o autor era um intelectual, estudou Filosofia e quase ganhou um Nobel (perdeu para Albert Camus). O ritmo e o tom reflexivo diante da vida e das escolhas que se faz me lembrou muito Vitória, de Joseph Conrad.

Mas por que mesmo que é ruim? Porque é um dos livros mais misóginos que já li na minha vida. Peguem o título: vida e proezas. A maioria dessas proezas dizem respeito a relacionamentos amorosos de Zorbás com as mulheres. Só que essas mulheres muito raramente ganham sequer um nome na narrativa. Quando têm algum destaque, são apresentadas como desesperadas, caso da Bubulina. E ela é a única que é nomeada e tem alguma voz (ela é a única que tem a honra de vermos dialogando) no romance. Fim.

Uma outra personagem, viúva (só viúva, sem nome, sem história), é brutalmente assassinada diante de toda uma vila. E tirando um leve pesar, o narrador da história que teve uma breve relação com ela, não perde muito tempo pensando no crime.

Em resumo, a misoginia se mostra pelo silenciamento, pela naturalização da violência de um homem (que foi rejeitado) em relação à mulher e, especialmente, pela própria visão que os dois protagonistas têm das mulheres.

A revolução dos bichos, George Orwell

A Revolução dos Bichos foi escrito durante um contexto bastante complicado politicamente: a Segunda Guerra Mundial, quando Inglaterra e URSS eram aliadas na luta contra o nazismo. Sendo George Orwell – pseudônimo de Eric Arthur Blair – um escritor indiano, mas morando na Inglaterra na época do lançamento do livro, houve um desconforto pela sátira ao regime stalinista.

Animal Farm, título original, é uma distopia, uma espécie de “conto de fadas” que conta a história da rebelião dos bichos de uma fazenda. Sentindo-se oprimidos por Jones, proprietário do local, os animais fazem uma revolução que culmina na expulsão dele. A partir daí, pouco a pouco, os porcos, liderados por Napoleão e Bola-de-Neve adquirem uma ascendência ideológica sobre os demais, muitas vezes estando de lados opostos.

Napoleão e Bola-de-Neve claramente são metáforas para Stálin e Trótski, respectivamente. Tal qual a metáfora, os acontecimentos da vida real se repetem na distopia de Orwell. Vê-se praticamente tudo o que caracterizou o regime stalinista: deturpação da história, execuções em massa, concentração do poder e assim por diante.

Alguns certamente dirão que A Revolução dos Bichos é um livro que vai além do contexto histórico no qual foi escrito. Sem dúvida, é verdade. O século XX foi cenário de diversos regimes totalitários. O Nazismo na Alemanha, o Fascismo na Itália, o Franquismo na Espanha, Salazar em Portugal, sem contar as dituduras que se deram na América Latina, inclusive no Brasil. Isto para citar apenas alguns exemplos.

Contudo, não creio que se deva esquecer o contexto em que Orwell escreveu este texto porque se não houver uma consciência disto, A Revolução dos Bichos pode se tornar um ótimo instrumento de manipulação ideológica com interpretações irracionalistas. Uma delas é dizer que o Socialismo de fato se deu na URSS e, comprovar o engodo que foi esta sua forma de organização econômica.

Entendo A Revolução dos Bichos como uma crítica aos regimes totalitários, tomando como caso bem específico, o Stalinismo. Talvez o resto dos bichos tivessem esse ideal – lá chamado de Animalismo – mas os porcos não podem ser caracterizados como socialistas. Eles simbolizam o corrupto que ocupa uma função e age de má fé, abusa de um poder, aproveitando-se de um lugar que lhe foi conferido.

O conceito de manipulação foi muito bem trabalhado. Não se trata de uma massa amorfa que crê no que é dito e que reage de forma igual a tudo. Orwell deixa bem clara a conivência dos bichos: muitos deles percebem que estão sendo explorados/enganados, mas não se mobilizam de forma ativa. Por medo, por ignorância, por falta de crença numa situação melhor, enfim, por vários fatores.

É um livro que tem que ser lido, mas não com o significado que muitos dão hoje: de desesperança e pessimismo diante da política. É um texto para refletir, principalmente, sobre nossa postura e capacidade de mobilização.

Os treze porquês, Jay Asher

É meio estranho revisar esta resenha que escrevi há oito anos, após toda a polêmica causada pela série da Netflix. Os treze porquês, de Jay Asher, foi o livro que deu origem ao roteiro da série que leva o mesmo nome do site de streaming. A esta altura, todos já sabem qual é o tema: suicídio. Na época em que li, o que achei mais interessante é que o livro tinha como público-alvo os adolescentes, tanto na linguagem, como na caracterização dos personagens. Essa foi uma discussão que eu não tive nos meus tempos nem de Ensino Médio nem de Fundamental.

Não vou entrar no mérito dos treze motivos que a personagem de Hannah Baker dá para cometer o suicídio. Até mesmo porque, tomados isoladamente, podem parecer razões frágeis, mas que, como a personagem faz questão de enfatizar, desencadearam eventos bem graves numa crescente “bola de neve”. E o que chama mais a atenção é que, conforme Hannah avança sobre seus motivos, o leitor perceberá que a garota se sentia oprimida por sua constante objetificação enquanto mulher.

Sob muitos aspectos, era por isso que Hannah passava. Se a vida de quem não se enquadra nos padrões estéticos estabelecidos é difícil, para quem é considerada bonita, ou como a garota é qualificada pelos colegas, gostosa, não chega a ser um mar de rosas. Hannah é uma garota inteligente e percebe que é tratada como um simples pedaço de carne. A percepção disso destrói a personagem aos poucos.

Esse é o aspecto mais importante do livro porque quando se pensa no suicídio de um adolescente com problemas para se relacionar, o que vem imediatamente à mente é o tradicional bullying. O bullying é um termo genérico que mais serve para esconder o preconceito e graves formas de opressão no contexto escolar (misoginia, homofobia, racismo, gordofobia, etc.) e esvazia muitas dessas discussões, qualificando-as simplesmente como “brincadeiras violentas” ou “intimidação física e psicológica”.

Em uma entrevista anexa ao final do livro, o autor admite de maneira indireta que a opressão foi o que levou Hannah ao suicídio: “Basicamente, apesar de Hannah admitir que a decisão de tirar a própria vida foi inteiramente sua, é importante estarmos conscientes do modo como tratamos os outros. Mesmo que alguém pareça ignorar um comentário casual ou não se deixar afetar por um boato, é impossível saber tudo o que se passa na vida daquela pessoa e o quanto podemos ampliar a sua dor. As pessoas têm impacto na vida das pessoas, isso é inegável.”

Para a maioria das pessoas, é uma surpresa saber que um conhecido se matou. Por isso, o livro também chama a atenção para os sinais que indicariam que alguém pensa em cometer o suicídio: organizar finanças ou objetos com valor pecuniário ou sentimental para “quando não estiver mais aqui”, declarações soltas que podem indicar despedida, etc.  

Uzumaki, a espiral do horror, Junji Ito

Uzumaki – A Espiral do Horror é um quadrinho japonês de criação de Junji Ito que relata a obsessão da cidade de Kurouzo por espirais. A história é narrada por Kirie Goshima, uma adolescente que vive na cidadezinha. Em um primeiro momento, pode parecer engraçado o elemento causador de horror. Entretanto, aqui não se trata de uma espiral em específico, como sugere o subtítulo do mangá.

A narrativa parece sugerir que a ideia de espirais como algo sagrado parte do interior dos habitantes da cidade. Daí, a obsessão. Com variações percebe-se dois tipos de obsessão na cidade: a dos que veneram a espiral e a dos que têm medo (às vezes, verdadeiro horror) dela.

O mangá constitui-se de três volumes intitulados Cicatriz, Farol Negro e Caos. É sutil a diferença entre o sobrenatural e a própria obsessão pela espiral. Há momentos em que há um diálogo entre as duas situações: o sobrenatural dá origem a obsessão que, por sua vez, faz com que seja possível o sobrenatural acontecer. Ou poderia muito bem ser o contrário.

Assim como outros trabalhos de Ito, acredito que Uzumaki se trata de uma metáfora sobre a cultura nipônica, especialmente a cultura moderna japonesa. O que mais causa horror e angústia é a necessidade de as pessoas se apegarem a espirais, seja pelo medo, seja pela adoração. Assim como o Enigma da Falha de Amigara, penso que esta história também versa sobre o vazio e a solidão.

Em 2000, foi feita uma adaptação para o cinema, dirigida por Higuchinsky. O filme traz elementos dos três volumes, mas não abarca as várias pequenas histórias embutidas em cada um. Também dá um desfecho diferente à história.

A narrativa não consegue ser coesa. Parece um “resumão” das aberrações dos três volumes, sem um elemento que as ligue. E isso fica mais grave, principalmente, porque a história contada no filme acompanha a trajetória de Kirie apenas no equivalente ao primeiro volume do mangá.

Tecnicamente, é pobre em recursos visuais e maquiagem, algo que seria imprescindível para uma adaptação de Uzumaki. Muitas das cenas, como a dos caracóis humanos, são filmadas à distância, uma artimanha da produção para não ter que mostrar detalhes.

Boas atuações e um roteiro que transitasse mais no rumo do sugestionável poderiam suprir um pouco as carências técnicas. No entanto, os atores de Uzumaki são fracos.

Já neste ano, foi anunciada a produção de um anime chamado Junji Ito Collection. Como o nome sugere, deverá ser uma série antológica e Uzumaki pode ser um dos trabalhos abordados no anime, pois é uma das principais obras do quadrinista. Esperamos que sim porque a trilogia merece uma boa adaptação.