O balcão, Jean Genet

A diferença mais marcante entre a linguagem do cinema e do teatro é a nossa percepção enquanto espectadores. Se no cinema somos transportados para dentro da realidade fílmica e ficamos imersos no enredo de uma película até o seu final, no teatro existe um acordo tácito entre público e atores de que aquilo é uma mentira, um faz-de-contas, em suma, não é real.

A cenografia, no teatro, por mais realística que seja, não esconde sua “falsidade” e estamos vendo os atores ali, em carne e osso, vemos as mudanças de atos, etc. Ou seja, assistimos a uma peça, mas nunca com a mesma imersão com a qual vemos um filme. Não é de se  estranhar, por exemplo, o desconforto que certos filmes causam quando adotam elementos anti-ilusionistas.

O Balcão, peça de Jean Genet, destrói qualquer ilusão de realidade que pode haver na linguagem teatral. Esta peça fala sobre um bordel, cujo nome é o do título, frequentado por homens que fingem ser aquilo que não são. Curiosamente, os personagens que estes escolhem para encarnar são justamente figuras de autoridade: o bispo, o juiz, o coronel.

A peça é uma série de representações dentro de representações. Ela provoca pelo teor de suas falas, pelo ambiente em que é encenada, mas principalmente pela falta de referencial que causa no espectador. Ao final, o que temos de mais verdadeiro é a fala de Madame Irma, dona do bordel, que se dirige à plateia com algo como: “Agora vocês podem voltar pra casa. Certamente, as coisas serão tão verdadeiras por lá quanto foram aqui.”

Muito ácida, a peça debocha das instituições representadas – Igreja, Justiça, Exército. Um dos aspectos centrais é o fato de elas precisarem ser constantemente legitimadas para não perder espaços de poder. Desse modo, esses lugares e essas posições devem ser reafirmados continuamente. Ao mesmo tempo, Genet aponta que a necessidade de constante afirmação é um sinal de que essas instituições estão enfraquecidas.

Esse foi o primeiro trabalho que li de Jean Genet. É uma leitura rápida, porque a peça é curtinha, e instigante, mas não é para todos. O teatro de Genet é provocante, com uma estética do choque. Também não é recomendado para mentes pudicas. 🙂