Genet: uma biografia, Edmund White

Quando um caçador de suvenires arrancou a placa de mármore cinzelado com o nome de Genet e as datas de nascimento e morte, Jacky escreveu uma nova lápide com sua própria letra. Mas como a letra de Jacky lembra perfeitamente a de Genet, parece que esse grande autor assinou sua própria declaração final.

Não costumo ler biografias. Na verdade, tenho bem poucas em minha humilde biblioteca. Genet: uma biografia é um destes exemplares. Foi presente de um amigo que conhecia minha admiração pelo escritor. E, de fato, é uma leitura que vale a pena. Comecei a ler esse livro em fevereiro do ano passado e acabei de concluí-lo. Não, isso não é uma contradição. Os motivos de tanta demora na leitura são vários: a extensão da biografia (são mais de 700 páginas), a quantidade de informação que há nela, outras leituras paralelas e, principalmente, uma decisão que tomei de uns tempos para cá, a de não exigir demais nem do livro e nem de mim. Se o livro pede uma leitura rápida, daquelas vorazes, sim. Se pede uma leitura lenta é isso que devo fazer. E foi o que fiz em relação a este livro.

Meu Exu, quando mencionei que há muita informação não foi mera retórica. Nem todo livro de 700 páginas traz realmente informações ou, melhor, informações de valor. Não é o caso deste. Edmund White realmente se aprofundou em sua pesquisa. E isso se constituiu num grande dificultador da leitura porque sou uma pessoa muito dispersa e quando lia acerca de determinado personagem me sentia tentada a fazer uma rápida pesquisa sobre ele. Perdi (?) muito tempo de leitura fazendo essas incursões. Mas foi prazeroso.

Jean Genet foi dramaturgo, romancista e ativista francês que chamou a atenção da intelectualidade de seu tempo não apenas pelo seu talento, mas por causa de suas origens. Órfão e delinquente na maior parte de sua juventude, tendo cometido pequenos delitos como furtos, mas com tanta frequência que por pouco não foi condenado à prisão perpétua. Até a pré-adolescência foi criado por uma família paga pelo governo francês. Não era adoção. Era um sistema bizarro, semelhante ao que existe hoje no Brasil em que crianças cujos pais perderam o pátrio poder, moram em lar temporário por até 2 anos, enquanto não se encontra um lar definitivo para elas. A diferença é que no sistema francês daquela época não existia a possibilidade de se encontrar um lar definitivo. O caso é que após deixar a família, Genet viveu parte da adolescência numa colônia penal: Mettray. Já por conta de seus pequenos crimes. Da colônia penal, teve momentos de liberdade alternados por várias prisões. Que me lembro, ele foi preso pelo menos 9 vezes (tô chutando por baixo, mas acho que foi mais que isso. o.O )

A distinção social que sua posição lhe conferia e o descaso do Estado nesta época de sua vida são alguns dos motivos que levariam Genet a carregar por toda a vida um ódio profundo pela França, a ponto de desejar que a Alemanha nazista derrotasse seu país durante a Segunda Guerra Mundial. Em um momento mais maduro, Genet transforma esse ódio em crítica social. É o que ocorre, por exemplo, com a peça Os Biombos, que trazia como uma de suas temáticas o conflito francês com a Argélia, na época colônia da França. E que foi um escândalo na época, com protestos da direita francesa, liderados por um ainda jovem Jean-Marie Le Pen.

A biografia de White passa pela vida pessoal de Genet, mas não se detém muito nela. E quando esse tipo de relato surge vem sempre junto de uma interpretação do biógrafo de como tais circunstâncias contribuíram de alguma forma para sua produção. Gostei disso. A vida pessoal de Genet foi bem sombria: de pobretão delinquente a famoso e mimado pela elite intelectual e, posteriormente, com muito dinheiro, mas sempre sem porque sustentava diversas “famílias”. Genet não tinha habilidade em transitar no meio intelectual, embora tenha feito amigos ao longo de sua vida. E sempre administrou mal seu dinheiro. Sua relação com o dinheiro sempre foi diferenciada também. Ele não dava valor a ele, mas queria tê-lo. E sempre estava sem porque redistribuía tudo.

É incrível a quantidade de pessoas com quem Genet se relacionou de alguma forma: Jean-Paul Sartre, Simone de Beauvoir, Albert Camus (não se gostavam muito), Jean Cocteau, Jane Fonda, Angela Davis… Sartre chegou a escrever um livro sobre ele: Saint-Genet. Diversas obras suas foram adaptadas para o cinema (Querelle) e outras para a TV (como As Criadas).

Coisas que descobri lendo esse livro e que jamais passaram pela minha cabeça dada a distância com que eu via cada uma dessas pessoas: James Earl Jones integrou o elenco da primeira montagem de Os Negros nos Estados Unidos; Leonard Nimoy esteve em duas adaptações cinematográficas de Genet (agora não me recordo quais e preguiça de ir pesquisar, ok); Genet foi amigo do filho de Charles Mingus 😮 ; Genet admitiu gostar de Agatha Christie. 😮 😮 😮

O livro é cheio de detalhes curiosos. Uma verdade é que Genet se relacionou com muita gente, direta ou indiretamente. Depois de concluir esse livro me surpreende que tanta gente ainda desconheça ele.

Acho que uma biografia é boa quando consegue mostrar a multidimensionalidade do biografado. Não porque isso seja algo exclusivo de Genet. Todas as pessoas carregam contradições ao longo de sua vida. Apresentar um personagem coerente com uma história com início, meio e fim seria absurdo.

E aqui vai a minha listinha de próximos livros que quero ler de Saint Genet: Nossa Senhora das Flores, Pompas Fúnebres, Querelle, As Criadas, Os Biombos. J