Retorno a Brideshead, Evelyn Waugh

Publicado em 1945, Retorno a Brideshead, de Evelyn Waugh, é o tipo de romance em que “pessoas tomam chá e cometem adultério” e que duas décadas mais tarde Angela Carter viria a criticar. Dividido em três partes, o romance é narrado em primeira pessoa pelo capitão Charles Ryder que relata a fragmentação de uma família de aristocratas católicos a partir das relações que desenvolve com ela.

Não sei se concordo totalmente com o Luis Fernando Veríssimo, curador da Tag que indicou o livro, de que esta seria uma das melhores prosas do inglês. Não li o livro em inglês, mas não gostei da estruturação narrativa. Vou listar alguns aspectos que me pareceram problemáticos: a) o romance parece uma peça em que personagens importantes saem de cena e só voltam a aparecer como meros coadjuvantes, b) não existe uma coerência narrativa em relação aos conhecimentos de Ryder sobre o catolicismo, ora ele se mostra um completo ignorante, ora menciona aspectos muito particulares da religião como se fosse um perito, c) a forma esquemática como o catolicismo é apresentado: existe um descompasso entre a moral católica e o comportamento dos Flyte que parecem mais orientados por uma moral protestante. Um bom exemplo disso é a personagem Julia Flyte em dois momentos do livro: sua visão comercial e pragmática do casamento e sua reação cínica diante da descoberta que é adúltera.

Posso estar sendo maldosa, mas acredito que o fato de Evelyn Waugh ser um católico convertido o fez acreditar que era um grande entendedor do catolicismo. E ele quer provar que entende: o romance é cheio de pílulas sobre os rituais da religião católica, em alguns momentos de forma pretensamente didática. Faltou considerar dois aspectos da religião católica que praticamente não aparecem: o pecado e a culpa.

Isso é o que não gostei ou vi com estranhamento enquanto lia. Disse que não concordo plenamente com Veríssimo porque embora ache essas questões acima citadas problemáticas, não posso negar que a narrativa é envolvente: a bissexualidade do narrador Charles Ryder, dividido entre os irmãos Flyte, Sebastian e Julia, semelhantes fisicamente, mas diversos em personalidade; o papel da comida, em que é recorrente os personagens atacarem os pratos com voracidade rendeu alguns dos melhores trechos como, por exemplo, o momento em que Rex e Charles encontram-se para jantar em um restaurante chique em Paris, um reflexo inconsciente da escassez vivida pelo escritor durante a Segunda Guerra Mundial, época em que o livro foi escrito; e, claro, a delícia que é ver uma família de aristocratas dando seu último suspiro numa sociedade que não suportava mais aquele modo de vida.

O que é interessante no livro é que este processo vem associado ao de desagregação familiar: o patriarca abandona a família e vive em companhia da amante de forma ostensiva em outro país, o filho mais jovem se debate no alcoolismo, a filha mais velha casa-se com alguém “inapropriado”, causando grande desgosto à mãe e depois se divorcia, o filho mais velho casa-se com alguém igualmente “inapropriado”, a irmã mais jovem, solteira, vive a incerteza da nova configuração familiar, sem saber onde se firmar.

Fora isso, Retorno a Brideshead é uma narrativa com os mesmos elementos de outros romances, na linha de O Leopardo, de Giuseppe Tomasi di Lampedusa: conservador, com uma família aristocrática em franca decadência, representantes dos chamados “novos ricos”, o mesmo tom de “ah, os tempos já não são os mesmos” e o mesmo desdém por essa nova classe de poder aquisitivo ascendente.

A revolução dos bichos, George Orwell

A Revolução dos Bichos foi escrito durante um contexto bastante complicado politicamente: a Segunda Guerra Mundial, quando Inglaterra e URSS eram aliadas na luta contra o nazismo. Sendo George Orwell – pseudônimo de Eric Arthur Blair – um escritor indiano, mas morando na Inglaterra na época do lançamento do livro, houve um desconforto pela sátira ao regime stalinista.

Animal Farm, título original, é uma distopia, uma espécie de “conto de fadas” que conta a história da rebelião dos bichos de uma fazenda. Sentindo-se oprimidos por Jones, proprietário do local, os animais fazem uma revolução que culmina na expulsão dele. A partir daí, pouco a pouco, os porcos, liderados por Napoleão e Bola-de-Neve adquirem uma ascendência ideológica sobre os demais, muitas vezes estando de lados opostos.

Napoleão e Bola-de-Neve claramente são metáforas para Stálin e Trótski, respectivamente. Tal qual a metáfora, os acontecimentos da vida real se repetem na distopia de Orwell. Vê-se praticamente tudo o que caracterizou o regime stalinista: deturpação da história, execuções em massa, concentração do poder e assim por diante.

Alguns certamente dirão que A Revolução dos Bichos é um livro que vai além do contexto histórico no qual foi escrito. Sem dúvida, é verdade. O século XX foi cenário de diversos regimes totalitários. O Nazismo na Alemanha, o Fascismo na Itália, o Franquismo na Espanha, Salazar em Portugal, sem contar as dituduras que se deram na América Latina, inclusive no Brasil. Isto para citar apenas alguns exemplos.

Contudo, não creio que se deva esquecer o contexto em que Orwell escreveu este texto porque se não houver uma consciência disto, A Revolução dos Bichos pode se tornar um ótimo instrumento de manipulação ideológica com interpretações irracionalistas. Uma delas é dizer que o Socialismo de fato se deu na URSS e, comprovar o engodo que foi esta sua forma de organização econômica.

Entendo A Revolução dos Bichos como uma crítica aos regimes totalitários, tomando como caso bem específico, o Stalinismo. Talvez o resto dos bichos tivessem esse ideal – lá chamado de Animalismo – mas os porcos não podem ser caracterizados como socialistas. Eles simbolizam o corrupto que ocupa uma função e age de má fé, abusa de um poder, aproveitando-se de um lugar que lhe foi conferido.

O conceito de manipulação foi muito bem trabalhado. Não se trata de uma massa amorfa que crê no que é dito e que reage de forma igual a tudo. Orwell deixa bem clara a conivência dos bichos: muitos deles percebem que estão sendo explorados/enganados, mas não se mobilizam de forma ativa. Por medo, por ignorância, por falta de crença numa situação melhor, enfim, por vários fatores.

É um livro que tem que ser lido, mas não com o significado que muitos dão hoje: de desesperança e pessimismo diante da política. É um texto para refletir, principalmente, sobre nossa postura e capacidade de mobilização.

Menina a caminho, Raduan Nassar

Raduan Nassar escreveu pouco. Tirando Lavoura Arcaica e Um Copo de Cólera, o escritor paulista de origem libanesa publicou alguns contos em livros e revistas. Esta edição que li em e-book é uma coleção de contos –  Hoje de madrugada, Ventre seco, Aí pelas três da tarde e Mãozinhas de seda – em que o mais belo é o que dá nome à coletânea, Menina a Caminho. Essa coletânea venceu o Jabuti de 1998 na categoria Melhor Livro de Contos e Crônicas.

Costumo dizer que sempre é bom ler livros ruins porque quando você pega um muito bom, o impacto é tremendo. Foi assim que me senti lendo Menina a Caminho. Períodos curtos, recursos linguísticos na medida. Sabe quando você lê uma frase e sente que ela não poderia ter sido construída de maneira melhor? Pronto. É o texto do Raduan.

Olhe esse trecho:

Ágil, a velha entra no bar c’um vestido que chega na canela, uma chita tão escura que encolhe inda mais seu corpo arcado; traz na cabeça um lenço que se afunila armado sobre a cacunda. Se achega da sorveteira assim que entra, a barra da saia fustigando a perna da menina, espia a massa dentro da caldeira c’um trejeito azedo na boca, e pergunta do que que é aquele sorvete. O rapazote retira a pá, aproveitando pra dar uma limpada no rosto com a manga da camisa: “De uva passa, vovó”. Sua cara fica mais colorida quando mostra os dentes sorridente, piscando ao mesmo tempo o olho com malícia:

“Tá fervendo o chão por aí, num tá mesmo, vovó?”

A velha faz um muxoxo entortando a boca.

“A coisa tá de queimar o pé da gente, só se fala nisso… mas também não é todo dia que é dia de pão quente, né vovó?”

“Acaba co’essa conversa maluca que eu não sou de prosa.”

“Não é maluca, não, vovó, nadinha” diz ele metendo de novo a pá londa de pau na caldeira, com tanta firmeza, como se fincasse uma lança na carne doce e cor-de-rosa do sorvete.

“Vai de casquinha ou de palito, vovó?”

“Mais respeito, moleque, eu quero uma garrafa de pinga.”

“Nossa!”

O dono do bar acorre rápido, pondo-se atrás do balcão.

“A senhora pediu uma garrafa de pinga, dona Engrácia?”

“Eu já disse o que quero.”

Em Menina a Caminho, uma garotinha, cumprindo uma tarefa da mãe, assiste a várias cenas de uma cidadezinha como se estivesse alheia ao local, como se fosse uma mera espectadora. Tanto e que quando interpelada pelos outros personagens, ela se assusta.

Encontra a menina bem asseada que vai à escola, um grupo de meninos que discutem sobre a festinha que haverá mais tarde, um grupo de gente adulta que discute em um bar, uma velhinha que pede pinga no bar, etc. Várias das cenas são carregadas daquele humor interiorano, de situação.

Não que o anterior não seja cômico, mas veja esse trecho:

Três rapazolas turbulentos entram no bar trazendo o Zé-das-palhas, que vive fazendo discursos contra o governo. Coitado do seu Zé, ele pensa que o rádio que toca-e-fala serve também pra levar de volta a voz da gente. No fim, todo mundo dá risada

O conto culmina com o momento em que ela deixa de meramente observar e passa a ser parte de um drama familiar. Não vou entrar em detalhes.

Como pessoa que cresceu numa cidade pequena, eu senti uma profunda nostalgia vendo junto com a menina aquelas cenas, tão corriqueiras e, ao mesmo tempo, tão carregadas de vida.

Os outros contos, mais curtos, também são muito bem escritos. Eu destaco Hoje de Madrugada, conto que relata de forma dolorosa o amor deteriorado de um casal, em que se sobressai a indiferença de um dos amantes em relação ao outro; e Ventre Seco, que tem formato epistolar: um amante pede à ex que o deixe em paz.

 

Seis Suspeitos, Vikas Swarup

É ruim. Seis Suspeitos, de Vikas Swarup, romance policial indiano, é muito ruim. Na história, um jovem podre de rico, filho de um político corrupto, é morto na festa que deu em comemoração (olha só) por ter sido inocentado do assassinato de uma jovem garçonete. O autor tenta fazer o inverso de uma fórmula muito comum nos livros policiais: em vez de revelar aos poucos quem é a vítima, ele já informa no prólogo quem é ela, Vicky Rai, e que tipo de pessoa é. Então, você já começa perdendo parte do interesse pela narrativa.

Nos capítulos que se seguem, Swarup intercala diversos núcleos em torno de cada um dos seis suspeitos a que o título se refere. Ou seja, nada de novo no front. Tem uma atriz ambiciosa e meio sociopata, um texano que deve ter algum tipo de doença mental, o nativo em busca de uma relíquia de sua tribo, um burocrata corrupto que tem “apagões” em que acha que Gandhi, o pai da vítima e um ladrão que vive na periferia.

vikas swarup

Vikas Swarup

A trama se passa em Lucknow, capital de Uttah Pradesh, estado da Índia que tem mais ou menos a mesma população do Brasil, 200 milhões de pessoas. A imagem da Índia no livro não é muito lisonjeira: miséria, injustiça, prostituição, corrupção generalizada, muito machismo.

No geral, a narrativa é desinteressante. Em alguns momentos, garante o humor com o personagem americano, em outros trata o preconceito de forma um tanto quanto inapropriada com o nativo Eketi, seja pelo tom panfletário, seja por nem conseguir tirar o próprio preconceito do argumento que julga combatê-lo.

quem-quer-ser-um-milionario

Filme Quem quer ser um milionário?

Como falei, o autor revela logo quem é e que tipo de pessoa é a vítima como se isso fosse uma grande sacada. Eu considero que o interessante na leitura de um romance policial é descobrir aos poucos quem é a vítima e observar as pistas de ordem física ou psicológica deixadas no percurso. No final, ao saber quem é o assassino, você ter a satisfação de soltar um “é, faz sentido por isso e por isso e de outro modo não faria sentido”. Porém, é difícil escrever um livro assim. Afinal, é um exercício de lógica.Ao final de Seis Suspeitos, você se dá conta de que poderia ter sido qualquer uma daquelas pessoas e, tanto faz, você se pergunta por que ninguém tinha matado aquele desgraçado antes. Então, é até desnecessário os dois plot twists criados pelo autor para revelar o assassino.

Fico surpresa com o fato de esse livro ser um best-seller porque é bem chato. Imagino que o livro seja bem vendido por causa do autor: Swarup escreveu Q & A, romance que serviu como embrião para o roteiro do filme Quem quer ser um milionário?. Além de escritor, Swarup também é diplomata. Acredito que algum verniz multicultural que possa ser vislumbrado em Seis Suspeitos venha dessa experiência dele.

A Balada de Adam Henry, Ian McEwan

Fiona Maye é uma Mrs. Dalloway moderna e de araque. Essa foi a primeira impressão que tive da personagem quando comecei a ler A Balada de Adam Henry ou, no original, The Child Act. O romance de Ian McEwan traça um paralelo entre a crise de uma mulher às portas da velhice e o fundamentalismo religioso trazido por meio da profissão de Fiona que é uma juíza da Vara da Família e, constantemente, é confrontada com o choque entre as culturas religiosas e o bem-estar de crianças e adolescentes. Engana-se quem pensa que McEwan usa isso como justificativa para recorrer a um discurso islamofóbico ou recheado dos lugares-comuns sobre as religiões. Do Judaísmo às Testemunhas de Jeová e ao próprio Cristianismo, as religiões são representadas pelos personagens que entram e saem da vida profissional de Fiona e que, invariavelmente, colocam seus dogmas acima da vida das crianças.

E esse é o aspecto mais rico do livro. Não espere um discurso virulento contra as religiões. Há uma preocupação quase milimétrica em examinar as questões éticas, morais e culturais envolvidas, mas sempre de um ponto de vista racionalizante e dialogizante, papéis representados por Fiona. Nesse ponto, é interessante a pesquisa minuciosa feita pelo escritor sobre a rotina de um juiz. Mas o romance não é só isso.

Ironicamente, Fiona que é uma juíza especializada em resolver conflitos familiares, encontra-se ela mesma inserida em um: aos 59 anos, seu casamento está em crise, e ela teme uma velhice na solidão já que optou pela carreira profissional e não teve filhos. Em meio a isso, ela se vê envolvida emocionalmente com um de seus casos profissionais: um garoto de 17 anos diagnosticado com leucemia que, sendo ele e os pais testemunhas de Jeová, se recusa a receber uma transfusão de sangue. A ambiguidade dos sentimentos de Fiona em relação ao garoto é até interessante, perpassando de um instinto maternal a algum tipo de atração.

Fiona talvez represente uma das primeiras gerações de mulheres que optaram por desempenhar papéis fora do padrão patriarcal: é uma mulher bem-sucedida profissionalmente e respeitada pelos pares. Casou, mas não teve filhos. Talvez McEwan tente apontar este tipo de mulher chegando à velhice, mas recorre a clichês literários que redundam numa análise simplória e que anda longe de abranger a complexidade de uma mulher.

Esse é um tema muito difícil de construir: o tema da mulher em crise. Já abordado inúmeras vezes em obras literárias, tanto por homens como por mulheres, é uma tarefa árdua não cair na armadilha dos lugares-comuns e nas construções simplistas. E o maior problema é que, embora o foco narrativo esteja em Fiona, é impossível deixar de perceber que é o olhar de um homem (McEwan) sobre uma mulher em crise. É uma sensação terrível quando você, leitor ou leitora, sente as engrenagens ou o fio das marionetes do escritor, no texto que está lendo.

Fiona caminha todos os dias até o trabalho tal qual nossa querida Mrs. Dalloway andou no seu apenas um dia narrado por Virginia Woolf. Enquanto andam, pensam, lembram, refletem. As duas personagens têm até mesmo questões semelhantes, embora tenham vivido em momentos históricos distintos e uma seja juíza e a outra, socialite. Mas Clarissa não pensa explicitamente que está em crise como nossa juíza faz.

Esse foi o primeiro livro que recebi pelo Tag – Experiências Literárias. Gostei bastante da leitura complementar e ainda ganhei um copo e um marcador exclusivos com um desenho da protagonista. Mas espero outras leituras deste escritor que venham a me causar maior impacto do que esta.

É um romance recomendável, mas um filme de Ingmar Bergman fala melhor sobre mulheres em crise. E também trata de religião, ainda que sob um aspecto metafísico…