Menina a caminho, Raduan Nassar

Raduan Nassar escreveu pouco. Tirando Lavoura Arcaica e Um Copo de Cólera, o escritor paulista de origem libanesa publicou alguns contos em livros e revistas. Esta edição que li em e-book é uma coleção de contos –  Hoje de madrugada, Ventre seco, Aí pelas três da tarde e Mãozinhas de seda – em que o mais belo é o que dá nome à coletânea, Menina a Caminho. Essa coletânea venceu o Jabuti de 1998 na categoria Melhor Livro de Contos e Crônicas.

Costumo dizer que sempre é bom ler livros ruins porque quando você pega um muito bom, o impacto é tremendo. Foi assim que me senti lendo Menina a Caminho. Períodos curtos, recursos linguísticos na medida. Sabe quando você lê uma frase e sente que ela não poderia ter sido construída de maneira melhor? Pronto. É o texto do Raduan.

Olhe esse trecho:

Ágil, a velha entra no bar c’um vestido que chega na canela, uma chita tão escura que encolhe inda mais seu corpo arcado; traz na cabeça um lenço que se afunila armado sobre a cacunda. Se achega da sorveteira assim que entra, a barra da saia fustigando a perna da menina, espia a massa dentro da caldeira c’um trejeito azedo na boca, e pergunta do que que é aquele sorvete. O rapazote retira a pá, aproveitando pra dar uma limpada no rosto com a manga da camisa: “De uva passa, vovó”. Sua cara fica mais colorida quando mostra os dentes sorridente, piscando ao mesmo tempo o olho com malícia:

“Tá fervendo o chão por aí, num tá mesmo, vovó?”

A velha faz um muxoxo entortando a boca.

“A coisa tá de queimar o pé da gente, só se fala nisso… mas também não é todo dia que é dia de pão quente, né vovó?”

“Acaba co’essa conversa maluca que eu não sou de prosa.”

“Não é maluca, não, vovó, nadinha” diz ele metendo de novo a pá londa de pau na caldeira, com tanta firmeza, como se fincasse uma lança na carne doce e cor-de-rosa do sorvete.

“Vai de casquinha ou de palito, vovó?”

“Mais respeito, moleque, eu quero uma garrafa de pinga.”

“Nossa!”

O dono do bar acorre rápido, pondo-se atrás do balcão.

“A senhora pediu uma garrafa de pinga, dona Engrácia?”

“Eu já disse o que quero.”

Em Menina a Caminho, uma garotinha, cumprindo uma tarefa da mãe, assiste a várias cenas de uma cidadezinha como se estivesse alheia ao local, como se fosse uma mera espectadora. Tanto e que quando interpelada pelos outros personagens, ela se assusta.

Encontra a menina bem asseada que vai à escola, um grupo de meninos que discutem sobre a festinha que haverá mais tarde, um grupo de gente adulta que discute em um bar, uma velhinha que pede pinga no bar, etc. Várias das cenas são carregadas daquele humor interiorano, de situação.

Não que o anterior não seja cômico, mas veja esse trecho:

Três rapazolas turbulentos entram no bar trazendo o Zé-das-palhas, que vive fazendo discursos contra o governo. Coitado do seu Zé, ele pensa que o rádio que toca-e-fala serve também pra levar de volta a voz da gente. No fim, todo mundo dá risada

O conto culmina com o momento em que ela deixa de meramente observar e passa a ser parte de um drama familiar. Não vou entrar em detalhes.

Como pessoa que cresceu numa cidade pequena, eu senti uma profunda nostalgia vendo junto com a menina aquelas cenas, tão corriqueiras e, ao mesmo tempo, tão carregadas de vida.

Os outros contos, mais curtos, também são muito bem escritos. Eu destaco Hoje de Madrugada, conto que relata de forma dolorosa o amor deteriorado de um casal, em que se sobressai a indiferença de um dos amantes em relação ao outro; e Ventre Seco, que tem formato epistolar: um amante pede à ex que o deixe em paz.

 

Erótica Fantástica

O problema de compêndios de contos é a irregularidade, alguns são muito bons e outros ruins. É o caso de Erótica Fantástica, primeiro volume de contos eróticos da editora Draco. Não são quaisquer contos eróticos, mas contos eróticos fantásticos. Comprei esta edição digital numa promoção e não me arrependo. No geral, foi uma leitura agradável. Assim, nem todos os textos são propriamente eróticos na acepção do termo. Também não é uma coleção de textos para todos os gostos. Se você é uma pessoa mais dada a textos realísticos, passe longe; se sente nojinho de qualquer coisa que fuja ao comum ou ordinário, passe longe; se é uma pessoa homofóbica, passe mais longe ainda (ou você pode virar gay). Pois bem, abaixo faço alguns comentários sobre cada um dos contos:

A melhor trepada da cidade – O primeiro conto foi uma grata surpresa por problematizar a questão da transsexualidade de forma… fantástica. Atendendo ao anúncio de uma prostituta (o título do conto), o protagonista não vê nada demais no ato sexual inicial. Até que algo acontece. O mais interessante desse conto é que ele traz elementos fantásticos que remetem à origem do próprio gênero. Inicialmente, o gênero fantástico explorava o medo e o susto diante do absurdo. E é exatamente o que acontece aqui. É um conto eficiente e gostoso (!) de ler.

Botão de Rosa – Este aqui é o primeiro que apresenta um mundo diferente do que chamamos de mundo real. Trata-se da narração das aventuras amorosas /sexuais de uma jovem. O clímax de tudo é quando ela consegue consumar uma atração sexual há muito alimentada por uma de suas criadas pessoais, que é um ser com anatomia distinta. Um tanto quanto melancólico. A verdade é que achei esse conto um dos mais longos e enfadonhos, embora tenha lá sua poesia.

Conto Pseudo-Erótico de Fantasia com Fantasias – Este é um dos meus preferidos porque tem elementos cômicos. O narrador é um motel que já foi várias outras coisas (não me recordo agora, acho que mercearia foi uma delas). E ele nos conta sobre o dia em que salvou o planeta da destruição. É uma história cínica que critica uma sociedade obcecada por corpos perfeitos e que para isso se valem de cirurgias estéticas e implantes.

A Cópula dos Devoradores do Mundo – É um dos contos que não considero erótico, mas é uma excelente história de ficção científica que descreve um possível ato sexual entre corpos celestes e seu produto, risus.

Dança de Shiva – Este é um dos contos feministas da coleção. Uma extraterrestre se vê meio que subjugada a um terráqueo que vê estrelinhas quando faz sexo com ela. A recíproca não é verdadeira. E ela diz que vai deixá-lo porque precisa de sexo de verdade (trololol).  Não vou contar o desfecho. Só lendo. Mas é bem épico.

A Ilha dos Amores – Eu me senti como se estivesse lendo um conto de Poe. Me remeteu um pouco “Manuscrito encontrado numa garrafa”, porém são histórias completamente distintas e esta, embora se passe num navio também, tem um desfecho menos pessimista que o conto de Poe.

Glicínias Suspensas – Parece um treco RPG, com guildas e tudo o mais. É um conto mais “sério” que erótico mesmo. Trata-se da história de uma jovem que tem de tornar-se prostituta pra pagar as dívidas da família. De certa forma, a narrativa envereda por um caminho mais de reflexão sobre a vida da própria personagem que se descobre pelo talento nato, pela percepção de como sua própria família é desprezível e, claro, pela dureza daquela vida com a qual ela vai ter de aprender a lidar.

Melhor Acompanhada – Tem seus momentos de erotismo, mas achei mais interessante pela abordagem de um narcisismo que pode vir a emergir com os avanços tecnológicos. Um excelente conto também sobre a solidão.

Memórias de Alto-Mar – O segundo conto da coletânea que tematiza as sereias.  Um engraçado (e trágico) caso de obsessão sexual.

A Mulher Imperfeita – Esse é o pior conto do livro. De um cinismo e misoginia ímpares. Num futuro não muito distante, empresas produzem as ginóides, andróides programadas para fazer o que o dono quiser. Isso mesmo. É uma versão mais tecnológica das bonecas infláveis. Pessoas que se sentem atraídas (lol) por ginóides são consideras cibersexuais, que é uma nova minoria política (lol) comparável (lol) a homossexuais. A história tem o mesmo plot twist de Grande Sertão: Veredas e o narrador retrata as mulheres humanas deste mundo como desesperadas (o irmão do protagonista tem três esposas) porque poucos homens têm interesse em mulheres de carne e osso, preferem as ginóides. Quero saber se o autor não teve imaginação suficiente pra imaginar comunidades lésbicas. Porque se eu me visse num mundo desses, com as mulheres heterossexuais sendo preteridas pelos homens, noooosssa, não vou nem dizer o que eu faria.

Portal para o Paraíso do Amor e Prazer – Você tem um emprego desestimulante, sua relação com seu namorado tá uma droga porque ele não te satisfaz nem afetivamente e nem sexualmente. Como uma última tentativa, você cede aos pedidos dele e vão os dois acampar juntos. E eis que você cai na floresta e vai parar em outra dimensão onde encontra gêmeos fogosos que só se preocupam em satisfazer você afetivamente e (principalmente) sexualmente. O que você faz? :B

Santíssima Magdalena – Esse é um conto que tira de McLuhan sua inspiração: os meios de comunicação como extensão do homem (sic). Não sei se gostei, não sei se me agrada essa descartabilidade das pessoas. Sem dúvida, é um conto que reflete a sociedade moderna ou a que ponto podemos chegar em relação ao uso de tecnologias. É mais isso do que erótico.

Para Agradar Amanda – Um dos mais fofos contos do livro. Trata-se de um cara que morre de medo que a namorada faça sexo oral nele. Não vou dizer por que, mas ele tem seus motivos. É um conto legal que aborda os relacionamentos entre diferentes. (Como quase todos os contos do livro, neah)

Robodisatva – Na linha de A Mulher Imperfeita, outro sujeito misógino que não consegue interagir com mulheres e prefere se relacionar com máquinas. Só que aqui as máquinas acabam dando o troco.

Sexo de Água: Uma Mutação Tentadora – Absurdamente absurdo. Embora o conto inicie focando o ponto de vista de uma personagem, a Sabrina, quem realmente ganha destaque é o peixe que ela compra e se transforma em um humanóide. Bem, você pode imaginar pra quê.

Fêmea Humana – Que é destruidora. Uma nave humana é invadida por ETs bizarros e de pênis esdrúxulos e essa coitada (que não tem nada de coitada) vai ter de se virar pra não… err, pra escapar dessa galera. Sim, é um conto feminista.

Ao final no livro tem um ensaio com Elida Miranda e Ader Gotardo. Não vou mostrar as fotos. Se quiserem ver, comprem.