Fome dos Mortos, Vários Autores

Fome dos mortos é uma boa coleção de historinhas cujo único ponto em comum é o apocalipse zumbi. Como ocorre em outras coletâneas da editora Draco, esta é bem diversificada em temáticas e ideologias, uma política deste selo em agradar gregos e troianos. O volume contém sete histórias, cada uma escrita e desenhada por artistas diferentes: Prisão Zumbi, Anhangá, Marcha Fúnebre, Boca de Lobo, O Presente de Camila, Revolução é Meu Nome! e Passarela da Fome.

Destas, eu destaco três. A primeira é Anhangá, que tem como cenário a floresta e como possível centro da contaminação uma tribo indígenas. Não sei por que, mas me remeteu ao filme Zombi, de Lucio Fulci. Acredito que por se passar num lugar inusitado: no filme de Fulci, a ação se passa numa ilha, até então uma novidade pra época, já que este filme foi um dos primeiros sobre zumbis após a clássica trilogia de Romero. Gostei da ideia de ver uma tribo indígena dizimar a humanidade, especialmente depois do que a humanidade (leia, “civilização”) fez com eles.

A segunda é Revolução é Meu Nome!, pois traz como protagonista um zumbi. O foco narrativo está nele e a ação se dá em torno de sua percepção identitária como zumbi e como parte de algo maior. É interessante porque traz a humanização do zumbi, algo que não é exatamente novo nesse tipo de história, mas que só me recordo de ter sido feito em Day of the Dead, do Romero, com o apaixonante zumbi domesticado Bub.

E a terceira é Passarela da Fome por trazer uma metáfora legal sobre a ditadura da magreza e a crueldade da indústria da moda em relação ao corpo feminino.

Um dos que achei mais fracos foi Prisão Zumbi que faz uma péssima analogia com os discursos sobre direitos humanos/direitos dos zumbis. Se Romero, o criador dessa figura fictícia, conseguiu ver humanidade no já referido Bub, me parece meio audacioso Airton Marinho, o roteirista, propor o contrário disso. Claro que o objetivo aqui é colocar os zumbis no lugar dos “bandidos”, afinal, é uma prisão zumbi, não um hospital ou escola. Não dá pra ver uma narrativa dessas de modo ingênuo.

Ler uma história dessas é, no mínimo, desapontador porque quando Romero, principal responsável pela popularização da figura do zumbi, fez A Noite dos Mortos-Vivos, sua metáfora era política: primeiro para desvelar a apatia da sociedade, algo que mais tarde, Shaun of the Dead repetiria com sucesso, ao unir humor e gore. Depois, para se posicionar de forma bem assertiva em relação à luta por direitos civis nos EUA: seus protagonistas são uma mulher grávida, um negro e um homossexual. E, ao contrário da maioria dos filmes de terror, em que estes personagens são os primeiros a morrer, estes aqui são lutadores e sobrevivem.

Outro que achei fraquinho foi O Presente de Camila. Claramente inspirado em narrativas mais atuais sobre zumbis, como The Walking Dead, o pecado da historinha reside exatamente aí: o clichê. Em meio ao apocalipse zumbi, um adolescente procura uma boneca para a irmã mais nova. É melodramático e o twist pretensamente surpreendente não surpreende em nada.

As outras historinhas são de medianas para boas, mas não me captaram. Em todo caso, recomendo fortemente o quadrinho para quem gosta do gênero.

Erótica Fantástica

O problema de compêndios de contos é a irregularidade, alguns são muito bons e outros ruins. É o caso de Erótica Fantástica, primeiro volume de contos eróticos da editora Draco. Não são quaisquer contos eróticos, mas contos eróticos fantásticos. Comprei esta edição digital numa promoção e não me arrependo. No geral, foi uma leitura agradável. Assim, nem todos os textos são propriamente eróticos na acepção do termo. Também não é uma coleção de textos para todos os gostos. Se você é uma pessoa mais dada a textos realísticos, passe longe; se sente nojinho de qualquer coisa que fuja ao comum ou ordinário, passe longe; se é uma pessoa homofóbica, passe mais longe ainda (ou você pode virar gay). Pois bem, abaixo faço alguns comentários sobre cada um dos contos:

A melhor trepada da cidade – O primeiro conto foi uma grata surpresa por problematizar a questão da transsexualidade de forma… fantástica. Atendendo ao anúncio de uma prostituta (o título do conto), o protagonista não vê nada demais no ato sexual inicial. Até que algo acontece. O mais interessante desse conto é que ele traz elementos fantásticos que remetem à origem do próprio gênero. Inicialmente, o gênero fantástico explorava o medo e o susto diante do absurdo. E é exatamente o que acontece aqui. É um conto eficiente e gostoso (!) de ler.

Botão de Rosa – Este aqui é o primeiro que apresenta um mundo diferente do que chamamos de mundo real. Trata-se da narração das aventuras amorosas /sexuais de uma jovem. O clímax de tudo é quando ela consegue consumar uma atração sexual há muito alimentada por uma de suas criadas pessoais, que é um ser com anatomia distinta. Um tanto quanto melancólico. A verdade é que achei esse conto um dos mais longos e enfadonhos, embora tenha lá sua poesia.

Conto Pseudo-Erótico de Fantasia com Fantasias – Este é um dos meus preferidos porque tem elementos cômicos. O narrador é um motel que já foi várias outras coisas (não me recordo agora, acho que mercearia foi uma delas). E ele nos conta sobre o dia em que salvou o planeta da destruição. É uma história cínica que critica uma sociedade obcecada por corpos perfeitos e que para isso se valem de cirurgias estéticas e implantes.

A Cópula dos Devoradores do Mundo – É um dos contos que não considero erótico, mas é uma excelente história de ficção científica que descreve um possível ato sexual entre corpos celestes e seu produto, risus.

Dança de Shiva – Este é um dos contos feministas da coleção. Uma extraterrestre se vê meio que subjugada a um terráqueo que vê estrelinhas quando faz sexo com ela. A recíproca não é verdadeira. E ela diz que vai deixá-lo porque precisa de sexo de verdade (trololol).  Não vou contar o desfecho. Só lendo. Mas é bem épico.

A Ilha dos Amores – Eu me senti como se estivesse lendo um conto de Poe. Me remeteu um pouco “Manuscrito encontrado numa garrafa”, porém são histórias completamente distintas e esta, embora se passe num navio também, tem um desfecho menos pessimista que o conto de Poe.

Glicínias Suspensas – Parece um treco RPG, com guildas e tudo o mais. É um conto mais “sério” que erótico mesmo. Trata-se da história de uma jovem que tem de tornar-se prostituta pra pagar as dívidas da família. De certa forma, a narrativa envereda por um caminho mais de reflexão sobre a vida da própria personagem que se descobre pelo talento nato, pela percepção de como sua própria família é desprezível e, claro, pela dureza daquela vida com a qual ela vai ter de aprender a lidar.

Melhor Acompanhada – Tem seus momentos de erotismo, mas achei mais interessante pela abordagem de um narcisismo que pode vir a emergir com os avanços tecnológicos. Um excelente conto também sobre a solidão.

Memórias de Alto-Mar – O segundo conto da coletânea que tematiza as sereias.  Um engraçado (e trágico) caso de obsessão sexual.

A Mulher Imperfeita – Esse é o pior conto do livro. De um cinismo e misoginia ímpares. Num futuro não muito distante, empresas produzem as ginóides, andróides programadas para fazer o que o dono quiser. Isso mesmo. É uma versão mais tecnológica das bonecas infláveis. Pessoas que se sentem atraídas (lol) por ginóides são consideras cibersexuais, que é uma nova minoria política (lol) comparável (lol) a homossexuais. A história tem o mesmo plot twist de Grande Sertão: Veredas e o narrador retrata as mulheres humanas deste mundo como desesperadas (o irmão do protagonista tem três esposas) porque poucos homens têm interesse em mulheres de carne e osso, preferem as ginóides. Quero saber se o autor não teve imaginação suficiente pra imaginar comunidades lésbicas. Porque se eu me visse num mundo desses, com as mulheres heterossexuais sendo preteridas pelos homens, noooosssa, não vou nem dizer o que eu faria.

Portal para o Paraíso do Amor e Prazer – Você tem um emprego desestimulante, sua relação com seu namorado tá uma droga porque ele não te satisfaz nem afetivamente e nem sexualmente. Como uma última tentativa, você cede aos pedidos dele e vão os dois acampar juntos. E eis que você cai na floresta e vai parar em outra dimensão onde encontra gêmeos fogosos que só se preocupam em satisfazer você afetivamente e (principalmente) sexualmente. O que você faz? :B

Santíssima Magdalena – Esse é um conto que tira de McLuhan sua inspiração: os meios de comunicação como extensão do homem (sic). Não sei se gostei, não sei se me agrada essa descartabilidade das pessoas. Sem dúvida, é um conto que reflete a sociedade moderna ou a que ponto podemos chegar em relação ao uso de tecnologias. É mais isso do que erótico.

Para Agradar Amanda – Um dos mais fofos contos do livro. Trata-se de um cara que morre de medo que a namorada faça sexo oral nele. Não vou dizer por que, mas ele tem seus motivos. É um conto legal que aborda os relacionamentos entre diferentes. (Como quase todos os contos do livro, neah)

Robodisatva – Na linha de A Mulher Imperfeita, outro sujeito misógino que não consegue interagir com mulheres e prefere se relacionar com máquinas. Só que aqui as máquinas acabam dando o troco.

Sexo de Água: Uma Mutação Tentadora – Absurdamente absurdo. Embora o conto inicie focando o ponto de vista de uma personagem, a Sabrina, quem realmente ganha destaque é o peixe que ela compra e se transforma em um humanóide. Bem, você pode imaginar pra quê.

Fêmea Humana – Que é destruidora. Uma nave humana é invadida por ETs bizarros e de pênis esdrúxulos e essa coitada (que não tem nada de coitada) vai ter de se virar pra não… err, pra escapar dessa galera. Sim, é um conto feminista.

Ao final no livro tem um ensaio com Elida Miranda e Ader Gotardo. Não vou mostrar as fotos. Se quiserem ver, comprem.