Erótica Fantástica

O problema de compêndios de contos é a irregularidade, alguns são muito bons e outros ruins. É o caso de Erótica Fantástica, primeiro volume de contos eróticos da editora Draco. Não são quaisquer contos eróticos, mas contos eróticos fantásticos. Comprei esta edição digital numa promoção e não me arrependo. No geral, foi uma leitura agradável. Assim, nem todos os textos são propriamente eróticos na acepção do termo. Também não é uma coleção de textos para todos os gostos. Se você é uma pessoa mais dada a textos realísticos, passe longe; se sente nojinho de qualquer coisa que fuja ao comum ou ordinário, passe longe; se é uma pessoa homofóbica, passe mais longe ainda (ou você pode virar gay). Pois bem, abaixo faço alguns comentários sobre cada um dos contos:

A melhor trepada da cidade – O primeiro conto foi uma grata surpresa por problematizar a questão da transsexualidade de forma… fantástica. Atendendo ao anúncio de uma prostituta (o título do conto), o protagonista não vê nada demais no ato sexual inicial. Até que algo acontece. O mais interessante desse conto é que ele traz elementos fantásticos que remetem à origem do próprio gênero. Inicialmente, o gênero fantástico explorava o medo e o susto diante do absurdo. E é exatamente o que acontece aqui. É um conto eficiente e gostoso (!) de ler.

Botão de Rosa – Este aqui é o primeiro que apresenta um mundo diferente do que chamamos de mundo real. Trata-se da narração das aventuras amorosas /sexuais de uma jovem. O clímax de tudo é quando ela consegue consumar uma atração sexual há muito alimentada por uma de suas criadas pessoais, que é um ser com anatomia distinta. Um tanto quanto melancólico. A verdade é que achei esse conto um dos mais longos e enfadonhos, embora tenha lá sua poesia.

Conto Pseudo-Erótico de Fantasia com Fantasias – Este é um dos meus preferidos porque tem elementos cômicos. O narrador é um motel que já foi várias outras coisas (não me recordo agora, acho que mercearia foi uma delas). E ele nos conta sobre o dia em que salvou o planeta da destruição. É uma história cínica que critica uma sociedade obcecada por corpos perfeitos e que para isso se valem de cirurgias estéticas e implantes.

A Cópula dos Devoradores do Mundo – É um dos contos que não considero erótico, mas é uma excelente história de ficção científica que descreve um possível ato sexual entre corpos celestes e seu produto, risus.

Dança de Shiva – Este é um dos contos feministas da coleção. Uma extraterrestre se vê meio que subjugada a um terráqueo que vê estrelinhas quando faz sexo com ela. A recíproca não é verdadeira. E ela diz que vai deixá-lo porque precisa de sexo de verdade (trololol).  Não vou contar o desfecho. Só lendo. Mas é bem épico.

A Ilha dos Amores – Eu me senti como se estivesse lendo um conto de Poe. Me remeteu um pouco “Manuscrito encontrado numa garrafa”, porém são histórias completamente distintas e esta, embora se passe num navio também, tem um desfecho menos pessimista que o conto de Poe.

Glicínias Suspensas – Parece um treco RPG, com guildas e tudo o mais. É um conto mais “sério” que erótico mesmo. Trata-se da história de uma jovem que tem de tornar-se prostituta pra pagar as dívidas da família. De certa forma, a narrativa envereda por um caminho mais de reflexão sobre a vida da própria personagem que se descobre pelo talento nato, pela percepção de como sua própria família é desprezível e, claro, pela dureza daquela vida com a qual ela vai ter de aprender a lidar.

Melhor Acompanhada – Tem seus momentos de erotismo, mas achei mais interessante pela abordagem de um narcisismo que pode vir a emergir com os avanços tecnológicos. Um excelente conto também sobre a solidão.

Memórias de Alto-Mar – O segundo conto da coletânea que tematiza as sereias.  Um engraçado (e trágico) caso de obsessão sexual.

A Mulher Imperfeita – Esse é o pior conto do livro. De um cinismo e misoginia ímpares. Num futuro não muito distante, empresas produzem as ginóides, andróides programadas para fazer o que o dono quiser. Isso mesmo. É uma versão mais tecnológica das bonecas infláveis. Pessoas que se sentem atraídas (lol) por ginóides são consideras cibersexuais, que é uma nova minoria política (lol) comparável (lol) a homossexuais. A história tem o mesmo plot twist de Grande Sertão: Veredas e o narrador retrata as mulheres humanas deste mundo como desesperadas (o irmão do protagonista tem três esposas) porque poucos homens têm interesse em mulheres de carne e osso, preferem as ginóides. Quero saber se o autor não teve imaginação suficiente pra imaginar comunidades lésbicas. Porque se eu me visse num mundo desses, com as mulheres heterossexuais sendo preteridas pelos homens, noooosssa, não vou nem dizer o que eu faria.

Portal para o Paraíso do Amor e Prazer – Você tem um emprego desestimulante, sua relação com seu namorado tá uma droga porque ele não te satisfaz nem afetivamente e nem sexualmente. Como uma última tentativa, você cede aos pedidos dele e vão os dois acampar juntos. E eis que você cai na floresta e vai parar em outra dimensão onde encontra gêmeos fogosos que só se preocupam em satisfazer você afetivamente e (principalmente) sexualmente. O que você faz? :B

Santíssima Magdalena – Esse é um conto que tira de McLuhan sua inspiração: os meios de comunicação como extensão do homem (sic). Não sei se gostei, não sei se me agrada essa descartabilidade das pessoas. Sem dúvida, é um conto que reflete a sociedade moderna ou a que ponto podemos chegar em relação ao uso de tecnologias. É mais isso do que erótico.

Para Agradar Amanda – Um dos mais fofos contos do livro. Trata-se de um cara que morre de medo que a namorada faça sexo oral nele. Não vou dizer por que, mas ele tem seus motivos. É um conto legal que aborda os relacionamentos entre diferentes. (Como quase todos os contos do livro, neah)

Robodisatva – Na linha de A Mulher Imperfeita, outro sujeito misógino que não consegue interagir com mulheres e prefere se relacionar com máquinas. Só que aqui as máquinas acabam dando o troco.

Sexo de Água: Uma Mutação Tentadora – Absurdamente absurdo. Embora o conto inicie focando o ponto de vista de uma personagem, a Sabrina, quem realmente ganha destaque é o peixe que ela compra e se transforma em um humanóide. Bem, você pode imaginar pra quê.

Fêmea Humana – Que é destruidora. Uma nave humana é invadida por ETs bizarros e de pênis esdrúxulos e essa coitada (que não tem nada de coitada) vai ter de se virar pra não… err, pra escapar dessa galera. Sim, é um conto feminista.

Ao final no livro tem um ensaio com Elida Miranda e Ader Gotardo. Não vou mostrar as fotos. Se quiserem ver, comprem.