Trechos engraçados #5: Agatha Christie

O inimigo secreto é um dos livros mais divertidos da Agatha Christie. É a primeira aventura dos (ainda) jovens Tommy e Tuppence e acontece poucos anos após a Primeira Guerra Mundial. A Inglaterra ainda está se recuperando dos efeitos da guerra e eles, como deveria ser a situação de vários jovens na época, estão desempregados e duros.

Esse trecho que selecionei é cômico porque reflete o desespero de Tuppence frente aos problemas financeiros e a que ponto ela chegou. Como o Brasil vive um momento de crise financeira, com altos índices de desemprego, achei que o trecho tem um pouco a ver também com a gente, enquanto juventude, que passa pelos maiores perrengues, ou porque estamos desempregados ou porque estamos em empregos precários:

Também já pensei em todas as maneiras imagináveis de obter dinheiro. […] Só existem três: herdar uma bela fortuna, casar com alguém podre de rico ou ganhar dinheiro. A primeira está fora de cogitação. Não tenho parentes velhos e ricos. Todos os parentes que tenho são velhotas recolhidas em asilos para senhoras distintas e decadentes. Pelo sim pelo não, costumo sempre ajudar as idosas a atravessar a rua e os cavalheiros anciãos a carregar suas compras, na esperança de descobrir que um deles é um milionário excêntrico. Mas até hoje nenhum deles perguntou meu nome – e muitos sequer disseram “Obrigado”.

É, Tuppence, a pessoa em questão tem de ser muito excêntrica para ela própria, sendo idosa, carregar pacotes pesados quando poderia ter alguém encarregado para fazer isso. De qualquer forma, é uma ideia.

Melhor e pior leitura do ano

O final do ano chegou e, juro, gostaria de fazer uma postagem com os 10 melhores livros que li. Porém, não li tantos livros assim em 2017 e menos ainda (dez!) que possam figurar numa lista dessas sem causar algum constrangimento. Mas estou entregando este textinho com o melhor e o pior livro que li este ano.

São impressões bem pessoais mesmo. Portanto, não há necessidade de rancor. Vamos lá então:

O melhor

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O xará, Jhumpa Lahiri

De uns tempos para cá, eu tomei a decisão de ler mais mulheres ou, pelo menos, balancear mais minhas leituras em relação ao gênero dos autores. A Tag me ajudou bastante neste ano — sou assinante desde o ano passado — com dois lançamentos muito bons. Um foi A Câmara Sangrenta e Outros Contos, de Angela Carter, que além de trazer uma narrativa com foco na subjetividade feminina, também apresenta uma outra literatura possível, se esquivando da tradição de britânica das narrativas com crítica social e de costumes que tematizam, dentre outras coisas, a hipocrisia, o adultério, a vida de aparências, etc.

E o outro foi este O Xará, de Jhumpa Lahiri, que considero o melhor livro que li em 2017. Assim como A Câmara Sangrenta, a obra apresenta grande interesse na questão da subjetividade.  Porém, desta vez, de um jovem americano, de origem indiana, Gógol Ganguli. O título do livro faz referência ao escritor russo Nicolai Gógol. Grande admirador de Gógol, o pai do protagonista dá ao filho o apelido homônimo e, por uma série de enganos causados pelas diferenças culturais, a criança acaba sendo registrada assim nos Estados Unidos.

O mais interessante em O Xará é a ideia da impermanência: com bastante habilidade, a escritora passeia pelas vivências de Gógol, apresentando sem julgamento de valor o jogo dialógico no processo sempre ininterrupto da construção da identidade do personagem. Em relação à família, à Índia, à cultura norte-americana e, claro, ao próprio nome. É um livro belíssimo.

O pior

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Vida e proezas de Aléxis Zorbás

O pior também veio via Tag. Meu, o que é esse livro?

Assim, primeiro os aspectos positivos: Vida e Proezas de Aléxis Zorbás é um livro muito bem escrito. E não é algo para se estranhar, visto que o autor era um intelectual, estudou Filosofia e quase ganhou um Nobel (perdeu para Albert Camus). O ritmo e o tom reflexivo diante da vida e das escolhas que se faz me lembrou muito Vitória, de Joseph Conrad.

Mas por que mesmo que é ruim? Porque é um dos livros mais misóginos que já li na minha vida. Peguem o título: vida e proezas. A maioria dessas proezas dizem respeito a relacionamentos amorosos de Zorbás com as mulheres. Só que essas mulheres muito raramente ganham sequer um nome na narrativa. Quando têm algum destaque, são apresentadas como desesperadas, caso da Bubulina. E ela é a única que é nomeada e tem alguma voz (ela é a única que tem a honra de vermos dialogando) no romance. Fim.

Uma outra personagem, viúva (só viúva, sem nome, sem história), é brutalmente assassinada diante de toda uma vila. E tirando um leve pesar, o narrador da história que teve uma breve relação com ela, não perde muito tempo pensando no crime.

Em resumo, a misoginia se mostra pelo silenciamento, pela naturalização da violência de um homem (que foi rejeitado) em relação à mulher e, especialmente, pela própria visão que os dois protagonistas têm das mulheres.

Tom Jones, Henry Fielding

O que dizer desse livro que há tão pouco tempo conheço e já considero pacas? Assim ocorre com Tom Jones, um dos melhores livros que li neste ano. O livro chegou às minhas mãos da forma mais aleatória possível: uma amiga que também considero pacas chegou aqui em casa um belo dia e trazia este livro. Disse “Trouxe pra você porque comecei a ler, achei enfadonho e imaginei que você fosse gostar” e rebolou o livro nas minhas mãos. Um exemplar antigo, com páginas amarelecidas, lombada remendada. Só quem ama livros sabe como é legal ter um livro assim. Já não posso falar pelos mesmos amantes quando digo que adoro pensar na história de um livro. Digo, não seu conteúdo, mas por quantas mãos ele passou, seu percurso até chegar a mim. A amiga que considero pacas nunca me contou essa história.

É por isso que amo sebos. Há um tempo comprei uma edição da década de 1930, em inglês, de O assassinato de Roger Ackroyd. Mostro a todo mundo que me visita. É o livro mais antigo que tenho. Eita chatice do cão.

Não comecei a ler Tom Jones de imediato porque só tinha o primeiro volume. Como falei, é uma edição antiga da Globo. Só recentemente comprei o segundo volume em um sebo virtual. Nossa, queimei as pestanas para ler mais de mil páginas, o romance é enorme. A quantidade de páginas talvez assuste, mas o livro é tão gostoso de ler que você as vence sem sentir seu peso.

Tom Jones narra a historinha de Tom Jones. Dã. Ele é um enjeitado, um desgraçadinho. Pelo menos é assim que o personagem-título é referido nas primeiras, sei lá, 50 páginas. Eu que tenho um senso de humor cruel, ria sozinha, no ônibus, na parada de ônibus, na rua (eu leio andando) toda vez que se falava no enjeitadinho.

O caso é que coisas muito ruins acontecem a Tom Jones, mas ele tem uma sorte dos diabos. Que o diga o fato de Thomas Allworthy tomá-lo como seu protegido depois de encontrá-lo em sua cama (!). O bebê é criado como espécie de filho/neto do ricaço que tem uma irmã, Bridget Allworthy. Primeiramente, ela detesta o garoto. Posteriormente, passa a desenvolver certo afeto por ele (dois personagens que têm interesse $ amoroso $ nela sentem raiva de Tom porque ele é um rival de peso). Tom cresce com o sobrinho de Allworthy, Master Blifil,  e os dois recebem uma educação especial de dois preceptores. É difícil precisar qual dos dois odeia mais Tom Jones. O caso é que vivem fazendo inferno na vida do coitado. Mas, como Tom Jones é sortudo, no fim ele sempre acaba se dando bem de alguma maneira.

Sua sorte começa a mudar depois de uma armação muito bem arquitetada e é aí que começa sua aventura de fato. Também é por isso que este romance é chamado de romance picaresco: Tom Jones peregrina por diversas partes da Inglaterra tentando achar seu lugar no mundo e superar um amor impossível. Em cada lugar, uma aventura. E com introdução de novos personagens (e como tem personagens!). Às vezes, com o retorno de alguns.

Apesar do tom pessimista, e de um certo determinismo social, Tom Jones é uma linda crítica social. Eu sempre acho que as melhores críticas são assim, em forma de humor (Machado de Assis que o diga!). Por exemplo, é de rir como as pessoas mudam de opinião sobre o personagem conforme são informadas de que a) ele é filho de Thomas Allworthy, b) nah, ele é um enjeitado c) nah, ele é um bastardinho, mas é o protegido de Thomas Allworthy.

E esse é um dos grandes enigmas da historinha: qual seria a origem de Tom Jones? Ao início do livro, sabemos quem é sua mãe. E várias hipóteses surgem sobre quem seria seu pai ao longo da narrativa. Uma delas, a mais aceita pela maioria dos personagens, é que o próprio Allworthy seria o pai dele. Só no finalzinho o mistério da paternidade de Tom Jones é revelado. E não tem como não rir.

Compilei aqui alguns dos trechos mais hilários do livro:

a) Um exemplo de fibra moral, honra e honestidade

Tendo recebido a bolsa, saiu Black George a caminho da taberna; mas, no meio do trajeto, ocorreu-lhe o pensamento de ficar também com esse dinheiro. A consciência, porém, assustou-se imediatamente com a sugestão e principiou a acusá-lo de ingratidão a seu benfeitor. A isso respondeu a avareza que a consciência devia ter pensado antes no caso, ao privar o pobre Jones das suas quinhentas libras. Que, havendo tranquilamente concordado com o que era de tão maior importância, seria absurdo, senão profundamente hipócrita, ter escrúpulos por causa de uma bagatela. Diante do que a consciência, como bom advogado, procurou distinguir a quebra absoluta de confiança, como nesse caso, em que certos bens haviam sido entregues, da simples omissão de um achado, como no caso anterior. A avareza, por sua vez, ridicularizou o raciocínio, chamando-lhe distinção sem diferença e insistiu absolutamente em que, depois de se haver renunciado, de uma vez, a todas as pretensões de honra e virtude no primeiro caso, seria improcedente recorrer a elas no segundo. Em suma, a pobre consciência teria sido derrotada na discussão se por ela não acudisse o medo e muito tenazmente argumentasse que a verdadeira distinção entre as duas ações não residia nos diferentes graus de honra, mas de segurança; pois o ocultamento das quinhentas libras era coisa muito pouco arriscada, ao passo que a retenção dos dezesseis guinéus corria o máximo perigo de ser descoberta.

Em virtude desse amigável auxílio do medo, a consciência obteve completa vitória no espírito de Black George e, depois de cumprimentá-lo por sua honestidade, obrigou-o a entregar o dinheiro a Jones.

b) Essas considerações sobre os prazeres da vida conjugal

Só uma situação do matrimônio não proporciona espécie alguma de prazer: um estado de indiferença; mas, assim como espero que muitos dos leitores conheçam o requintado deleite que existe em proporcionar prazer a um objeto amado, assim receio tenham alguns experimentado a satisfação de atormentar alguém que odiamos. É, pelo que deduzo, para chegar a este último prazer que vemos ambos os sexos desistirem muitas vezes da tranquilidade matrimonial que, de outra forma, poderiam gozar, embora o outro cônjuge nunca lhes seja tão desagradável. Daí o simular a esposa, com frequência, acessos de amor e de ciúmes, e chegar a ponto de negar-se a si mesma qualquer prazer, para perturbar e embargar os do marido; e este, por sua vez, privar-se de muita coisa e ficar em casa ao pé de pessoas que desama, a fim de impor à mulher o que ela também detesta. Daí, também, as lágrimas que uma viúva derrama às vezes com tamanha abundância sobre as cinzas do marido com quem levara uma vida de constantes aflições e turbulência, e que nunca mais lhe será possível atormentar.

Mas, se houve casal que desfrutasse alguma vez esse prazer, foi, nessa ocasião, o que formavam o capitão e a esposa. Era sempre razão suficiente a qualquer um deles para se obstinar nalguma opinião o fato de haver o outros afirmado previamente o contrário. Se um propunha algum divertimento, opunha-se-lhe o outro: nunca amavam ou odiavam, elogiavam ou censuravam a mesma pessoa. E, por esse motivo, como o capitão não visse com bons olhos o enjeitadinho, a esposa principiou a acarinhá-lo quase tanto como ao próprio filho.

c) Este diálogo entre mãe e filhas

– Fora melhor que ouvisse o que diz o pároco – tornou a [irmã] mais velha -, em vez de prestar atenção às cantigas dos homens.

— E foi, de fato, filha, o que ela fez — interveio a mãe, soluçando –, chamou a desgraça sobre todas nós. É a pior das prostitutas que já houve na família.

— Não precisa insultar-me por causa disso, mãe. — lamentou Molly –, pois a senhora mesma deu à luz minha irmã uma semana depois de casada.

— De fato, sua descarada — retrucou a enraivecida mãe –, é verdade; e que é que tem? Logo depois me converti em mulher honesta; e, se você se você se convertesse também em mulher honesta, eu não me importaria; mas era preciso que você se metesse com fidalgos, sua porcalhona; e terá um bastardo, sua leviana, terá: e eu desafio qualquer um a dizer de mim a mesma coisa.

d) A crueldade da Fortuna com Blifil pai

Mas, enquanto o capitão se entregava, um belo dia, a profundas lucubrações dessa natureza, ocorreu-lhe um dos incidentes mais infortunados e mais intempestivos. A maior perversidade da Fortuna não poderia, com efeito, engenhar nada de tão cruel, despropositado e absolutamente destrutivo de todos os seus planos. Numa palavra, para não conservar o leitor numa incerteza muito grande, no instante preciso em que se lhe comprazia o coração em cogitações sobre a felicidade que lhe adviria da morte do sr. Allworthy- – morreu de apoplexia”.

e) Mais claro do que isso, impossível

— Mas a honra — acrescentou ele — não é múltipla porque são muitas as teorias absurdas sobre ela; nem é múltipla a religião porque existem no mundo várias seitas e heresias. Quando digo religião, refiro-me à religião cristã; e não apenas à religião cristã, senão à religião protestante; e não apenas à religião protestante, senão à Igreja da Inglaterra.

f) Esse manjador da alma feminina

— […] Não, não, eu vos garanto que o rapaz não ficará mal com ele; nem com ninguém. Perguntai aqui a Sophia: tu não fazes pior ideia de um moço por ter tido um bastardo, não é verdade, filha? Não, não, as mulheres até gostam mais da gente por causa disso.”

g) Este trecho…

A vossa ignorância, mano — retrucou ela –, como diz o grande Milton, quase me esgota a paciência.

h) …E a nota de rodapé para ele

O leitor esgotará, talvez, a sua própria paciência se quiser encontrar em Milton essa frase.