Uns e outros, contos espelhados

A intertextualidade e o dialogismo são dois conceitos-chave quando se pensa em discurso. O primeiro diz respeito às referências, implícitas ou explícitas, a outros textos/discursos em um dado texto. E o segundo indica que todo discurso ou texto dialoga com outros, seja para discordar ou concordar. Essa é a ideia central da edição de aniversário da Tag do ano passado, Uns e Outros – Contos Espelhados, conjunto de contos concebidos e organizados por Helena Terra e Luiz Ruffato.

Dez escritores foram convidados para, cada um, entregar um conto de sua autoria, mas não qualquer conto: seria um texto escrito a partir de outro. Eles escolheriam um conto de sua preferência de um escritor clássico ou cânone e redigiram uma resposta. Portanto, a edição contém vinte contos. Abaixo eu fiz uma lista com as correspondências entre escritores e contos clássicos escolhidos:

  1. A morte da mãe (Beatriz Bracher) > Eveline (James Joyce)

  2. Início de alguma coisa (imitando Hemingway) (Luiz Antonio de Assis Brasil) > O fim de algo (Ernest Hemingway)

  3. Simplício (Eliane Brum) > Os desastres de Sofia (Clarice Lispector)

  4. O futuro político (Primeiro ato) (Milton Hatoum) > Teoria do medalhão (Machado de Assis)

  5. Negrinha! Negrinha! Negrinha! (Ana Maria Gonçalves) > Negrinha (Monteiro Lobato)

  6. Pipa Sande (Paulo Lins) > Pai contra mãe (Machado de Assis)

  7. A rainha das fadas (Ivana Arruda Leite) > Marriage à la mode (Katherine Mansfield)

  8. Um homem célebre (José Luís Peixoto) > Um homem célebre (Machado de Assis)

  9. Um simples engano (Maria Valéria Rezende) > O colar (Guy de Maupassant)

  10. O herói da sombra (Cristóvão Tezza) > Depois do baile (Leon Tolstói)

Machado de Assis foi escolhido duas vezes: Teoria do Medalhão e Pai Contra Mãe. Particularmente, achei a resposta de Paulo Lins, cujo título é Pipa Sande, mais interessante porque busca resgatar a história de uma família africana antes do Brasil e as consequências da escravidão na formatação daquela família nas gerações posteriores. Não que o conto do Machado de Assis – sobre um homem que ganha a vida capturando escravos fugidos e depende da captura de uma escrava grávida para que seu próprio filho não passe fome – seja ruim, mas ele traz apenas a perspectiva de Cândido, o protagonista. Porém, não deixa de mostrar a crueldade da ação quando nos premia com um desfecho trágico.

Além deste, há Negrinha! Negrinha! Negrinha, de Ana Maria Gonçalves, que também traz como tema as questões raciais. O conto é uma resposta ao doentio Negrinha, de Monteiro Lobato. É um dos textos em que a metanarrativa fica mais explícita: nele, o conto original é citado diretamente como preponderante para que o evento principal da narrativa aconteça.

Destaco ainda Simplício, escrito por Eliane Brum e resposta a Os Desastres de Sofia, de Clarice Lispector. Se no original, temos o foco narrativo em Sofia, na resposta ele está no professor da menina. São ambas narrativas intimistas e psicológicas. São os contos para se ler mais lentamente desta coletânea; e A Rainha das Fadas, resposta de Ivana Arruda Leite, a Katherine Mansfield. O que achei interessante neste conto é que a autora extrai ideias sugeridas (conscientemente ou não) do original e as transforma em fato consolidado em seu texto.

Se mesmo assim, você não gostar dos textos inéditos, sempre há a possibilidade de ler os clássicos e até conhecer: eu, por exemplo, ainda não tinha lido nada do James Joyce, Hemingway, Katherine Mansfield e Guy de Maupassant. Às vezes é interessante começar a ler um autor por seus contos e, só então, passar aos romances.

Trechos engraçados #1: Machado de Assis

Outro dia, eu estava pensando em compartilhar por aqui esses trechos muito engraçados que, volta e meia, lembro aleatoriamente e começo a rir sozinha, na rua, no trabalho, em casa, no ônibus. “Tá doida?”, geralmente me perguntam, silenciosamente ou não.

Vai ver alguém é doido, acha engraçado também e se diverte. Acho que o mundo precisa de um pouco mais de riso. 😦

Então, aqui vai: pensei num trecho de Um homem célebre, do Machado de Assis. Esse conto trata da angústia criativa do compositor Pestana que, desejando ardentemente compor algo grandioso como seus ídolos – Cimarosa, Mozart, Beethoven, Gluck, Bach, Schumann – só consegue compor polcas. E, para seu grande desespero, as polcas fazem muito sucesso.

Reli esse conto recentemente porque veio numa das edições da Tag. Sorri que lacrimejei:

Veio a questão do título. Pestana, quando compôs a primeira polca, em 1871, quis dar-lhe um título poético, escolheu este: Pingos de Sol. O editor abanou a cabeça, e disse-lhe que os títulos deviam ser, já de si, destinados à popularidade – ou por alusão a algum sucesso do dia, ou pela graça das palavras; indicou-lhe dois: A lei de 28 de setembro, ou Candongas não fazem festa.

– Mas que quer dizer Candongas não fazem festa? – perguntou o autor.

– Não quer dizer nada, mas populariza-se logo.

Machado de Assis se adianta em uma discussão que só se intensificaria com os estudos sociológicos da Escola de Frankfurt sobre a mercantilização da arte. E desde o final do século XIX sinaliza a tendência que é a “composição” de músicas cujos títulos (ou letras) não fazem sentido algum mas, como diz o editor, “populariza-se logo”.

Esaú e Jacó, Machado de Assis

Não estava nos meus planos ler Esaú e Jacó agora. Em minhas notas mentais, sempre desejei que Quincas Borba fosse meu terceiro romance do Machado de Assis. Além de contos, li os dois romances mais famosos dele: Dom Casmurro e Memórias Póstumas de Brás Cubas, que são perfeitos. Mas é a disponibilidade da obra que faz a leitura, né?

Esaú e Jacó é um bom livro, mas sinto que eu teria aproveitado mais a leitura se tivesse feito uma revisão do período histórico em que se passa a narrativa. Basicamente, é aquele momento em que o Brasil passa de monarquia à república. E um dos motivos de conflito (e são muitos) entre os protagonistas é justamente esse. Um é favor da monarquia. O outro, da república. Uma constante que vai se repetir em várias das desavenças entre os dois: um é acomodado, avesso à mudança. O outro precisa da mudança.

Eu também teria aproveitado mais a leitura se conhecesse mais a Bíblia. Esaú e Jacó, como o próprio título sugere, é cheio de intertextos. Os protagonistas, Pedro e Paulo, são irmãos gêmeos que brigam desde o útero. Eles são comparados aos também gêmeos do Antigo Testamento, Esaú e Jacó, daí o título do livro; e aos apóstolos Pedro e Paulo, que também tinham uma relação conflituosa.

Como já falei, um dos motivos de desavença entre os irmãos era a política. O outro era uma mulher, Flora, que é a personagem feminina machadiana mais curiosa até agora pra mim.

Flora é uma protagonista virgem (rs) e muito ingênua se comparada, por exemplo, à Rita (A Cartomante), à Virgília (Memórias Póstumas de Brás Cubas) ou à Capitu (Dom Casmurro). O ponto mais interessante nela é o que os outros personagens da história e até o próprio narrador concluem: Flora não se decide entre os dois irmãos.

Eu acho que não é bem isso… Ela apenas se apaixonou pelos dois homens. Simples.

Coitadinha. Nem ela mesma é capaz de compreender isso. Tanto que funde os gêmeos numa só pessoa.

Os gêmeos. A história é sobre eles e eu aqui me detendo na Flora. Bem, é porque os gêmeos são um saco. E a culpa é do próprio Machado que zomba de seus personagens a todo momento. Você não tem um pingo de respeito por eles. Basicamente, queridos, são dois playboys do século XIX. Tem um trecho muito engraçadinho sobre eles dois:

Agora o que é mister dizer é que a ideia da hospedagem cabe toda aos dous jovens doutores. Que eles eram já doutores, posto não houvessem ainda encetado a carreira de advogado nem de médico. Viviam do amor da mãe e da bolsa do pai, inesgotáveis ambos.

O livro é cheio de zombarias sobre a vida fácil dos jovens e a futilidade dos pais. Um retrato que, infelizmente, permanece atual sobre a elite brasileira.