A vida como ela é…, Nelson Rodrigues

Reler A vida como ela é… em 2016 foi esclarecedor em vários aspectos e me deixou com várias perguntas sem respostas em relação a outros. A verdade é que não sei se a edição que li agora tem exatamente o mesmo conjunto de textos da que li em 2010. Algumas das crônicas me pareceram já conhecidas, mas em se tratando de Nelson Rodrigues isso não é muita coisa já que ele tem uma temática repetitiva.

Fiquei me perguntando em que medida Nelson Rodrigues mostrou a vida como ela é ou apenas naturalizou a violência contra a mulher. Talvez as duas coisas porque estatísticas sobre assassinatos de mulheres motivados por questões de gênero é uma coisa já dos anos 2000. Não me admiraria que o escritor transpusesse para suas crônicas casos dos quais tomasse conhecimento.

Quase todos os textos dessa seleção terminam com uma mulher sendo assassinada pelo parceiro: porque ela o traiu, porque ele tinha certeza de que ela o trairia em algum momento, porque ela o abandonou por outro, etc. Uma quantidade considerável de crônicas sempre tem um homem dando uma bofetada numa mulher, ela falando sobre seu desejo de ser esbofeteada ou, ainda, dizendo que homem de verdade tem de esbofetear a mulher que ele gosta.

E tem as palavras-chave mulher séria, mulher viúva, mulher mascarada, todas querendo dizer quase a mesma coisa: uma mulher que se faz de frígida, sem desejo sexual, mas que na surdina é louca por homem. Basta insistir, chorar, ameaçar… que uma hora ela para de dizer não.

É importante frisar que a coluna de Nelson Rodrigues foi escrita entre 1950 e 1961 e todas essas construções ainda estão impregnadas no imaginário brasileiro, mas lógico que não com esses termos. Discursos se reinventam para parecer palatáveis aos nossos tempos.

Mas uma coisa é certa: os homens de hoje continuam entendendo não como “sim” ou “continue insistindo, tô só me fazendo de difícil”.

Senhora dos Afogados, Nelson Rodrigues

Antes de Babilônia contestar a família tradicional brasileira, Nelson Rodrigues fazia isso de forma mais hard. Foi assim: há pelo menos 4 anos comprei três peças dele, Vestido de Noiva, Valsa nº 6 e Senhora dos Afogados. Li as duas primeiras e a outra caiu no limbo. Se eu lembrava de sua existência, jurava que já a tinha lido. Ou então simplesmente não lembrava. E assim o livro ficou intocado por longo tempo.

Até que recentemente eu me vi numa situação complicada: o trajeto para o trabalho em ônibus lotados. Como ler em pé sem cair? Obviamente eu não podia segurar um livro volumoso. E o e-reader chama a atenção da galëre. Então eu tinha de arranjar livros pequenos com no máximo 200 páginas, mas o ideal mesmo é que fossem livros de bolso. Olhando meus livros na estante, me deparei com os três juntinhos e peguei Senhora dos Afogados. O caso é que tomei um susto ao dar uma olhada na sinopse na contracapa: eu não tinha lido o livro.

Coincidentemente, quando olhei a lista de personagens lá estava o nome da Nathalia Timberg como intérprete de Dona Eduarda na primeira montagem da peça. Vejam só: desde tempos pregressos, Timberg já andava maculando a família tradicional brasileira. Assim como aquela outra atriz, a Fernanda Montenegro, que encomendou ao Nelson O Beijo no Asfalto, outra peça execrável. Imagine: insinua que um nobre pai de família, senhor de cabelos brancos, seja homossexual. Não surpreende que ambas estejam fazendo um casal lésbico idoso em novela global.

Após e durante a leitura de um livro, tenho o hábito saudável de pesquisar nas interwebs o que outras pessoas falam dele: pode ser desde resenhas a artigos científicos. E foi lendo alguns textos sobre Senhora dos Afogados que me deparei com um que a colocava como a melhor peça do Nelson. Acho Vestido de Noiva melhor. As duas não têm uma definição muito precisa do espaço físico e do tempo. Talvez Senhora dos Afogados seja considerada melhor pela infinidade de referências que, confesso, não captei. Agora, a temática é excelente: incesto, adultério, homicídio, culpa, ciúme, obsessão e homossexualidade (não vi referência a este último em textos que li, é interpretação minha mesmo). Em todo o caso, o mais interessante no texto não é nem a temática, mas o texto.

Nelson Rodrigues tem uma forma particular de construir o texto: é histérico e totalmente fora da casinha quando você compara ao modo que uma pessoa falaria, tanto pelo que diz como pela forma como diz. Como este trecho, por exemplo:

Misael (tomando entre as suas as mãos de Moema) – Parecem as mãos de tua mãe…

Moema (com sofrimento) – Eu sei.

Misael (na sua nostalgia carnal) – E se eu ficasse assim, olhando só para as tuas mãos, pensaria estar aos pés de tua mãe… Juraria que tu eras ela… Mas olho teu rosto…

(Moema ergue o rosto)

Misael – …e vejo que és tu… Se não tivesses rosto, eu te amaria…

(Beija as mãos da filha em delírio)

Misael – …como se tu fosses minha mulher…

Moema (desesperada) – Pai, esquece que tenho rosto…

Nelson põe o inconfessável em palavras ditas por seus personagens. As falas dos personagens estão no campo do pensamento, daquilo que não se diz em hipótese alguma. Acredito que seja difícil imprimir “verdade” a essas falas. É coisa para intérpretes realmente bons.

Na história, a família Drummond se estilhaça após a morte de uma das filhas. Ela cometeu suicídio: se afogou, assim como fizera anteriormente outra das filhas. Moema, a única que restou, nutre um ódio terrível pela mãe. O irmão Paulo e o noivo de Moema tentam encontrar o corpo da morta no mar, mas em vão. Enquanto isso, Misael, o pai, se depara com a aparição da prostituta que foi assassinada no dia de seu casamento. Ele se preocupa mais com essa morte do que a da filha. E Dona Eduarda, a mãe, se divide entre o desejo pelo noivo de Moema e a dúvida sobre a morte da prostituta: teria sido Misael que a matou? Ah, não. Não vou dizer. Mas se você já leu algo do Nelson Rodrigues pode imaginar a resposta.