As ondas, Virginia Woolf

Faz sete anos que li esse livro e pensei em fazer uma releitura e publicar uma nova resenha, mas ocorre de eu estar sem tempo para isso no momento. Portanto, vai esta mesma, revisada e, no futuro, quando puder reler esse que considero o melhor livro da Virginia Woolf, eu faça uma nova resenha.

A edição que li é da editora Nova Fronteira e com tradução de Lya Luft, que fez um trabalho corajoso em verter uma obra dessas para o português. Mesmo sabendo que Lya Luft ocupa um lugar de importância na literatura nacional, traduções sempre são complicadas, ainda mais quando é um texto que foge ao padrão das narrativas convencionais.

As Ondas não é um livro difícil de ler, embora, provavelmente, seja muito diferente da maioria dos livros que você já leu porque faz recurso de algo chamado fluxo de consciência em que, de modo intimista, o narrador expõe o caos mental dos personagens, onde consciente e inconsciente não têm uma fronteira definida.

Isso era algo que Virginia já fazia em livros como Mrs. Dalloway, mas de modo mais incipiente, presa que estava às convenções de uma narrativa precisa com início, meio e fim. Em As Ondas não há qualquer preocupação com uma trama: mergulhamos nos pensamentos e sentimentos dos personagens como pensamentos e sentimentos costumam ser: caóticos, confusos, sem muita coerência, sem qualquer cadeia lógica como ocorre no processo de fala, por exemplo.

No livro, há seis personagens – Susan, Rhoda, Jinny, Bernard, Neville e Louis. Em pouco mais de 200 páginas, acompanhamos esses personagens desde a infância até a idade adulta, sem ordem cronológica, tomando conhecimento das coisas somente a partir deles, por meio de monólogos intimistas.

Em um dos textos que encontrei sobre este livro, havia a menção ao fato de que Virginia Woolf eliminou a ação da narrativa. Depende muito do que você considera ação. A ação pode não estar lá da forma como aparece em romances convencionais, mas está lá sim, traduzida nos anseios e nas angústias dos personagens.

A relação de alteridade entre eles é bem marcada. Isso se explicita, principalmente, no modo como cada um estabelece vínculos com Percival, personagem que não tem voz direta como os outros, mas que funciona como elo entre eles. Em alguns momentos, é como se os seis personagens se fundissem em um só.

Talvez não seja o primeiro livro para começar a ler Virginia Woolf, mas eu não me arrependo (comecei por ele). E, depois, é sempre possível retornar e fazer uma releitura, como eu mesma pretendo fazer.

Quase memória, Carlos Heitor Cony

Quase Memória é um livro que explora os limites entre biografia e ficção. Não há garantia de que nada do que esteja escrito nele de fato tenha acontecido e talvez seja isso que torne o livro mais interessante, especialmente quando a gente considera a época que foi lançado, início dos anos 1990, quando este formato ainda não era tão popular. O narrador, o próprio Carlos Heitor Cony, recebe um embrulho endereçado a ele, mas sem remetente. Entretanto, as características do pacote o fazem ter certeza de que o emissor é o pai, Ernesto Cony, morto há dez anos.

A partir do momento em que recebe a encomenda, o autor mergulha em reminiscências de sua infância, adolescência e vida adulta. São memórias da relação que teve com o pai em cada uma das fases de sua vida. Mas nada garante que sejam reais. Cony divaga pelo passado como se estivesse à deriva. Algumas informações são, de fato, verdadeiras como, por exemplo, o tempo em que frequentou o seminário.

A imagem que constrói de seu pai é a de um grande contador de histórias, na linha do personagem de Peixe grande e suas histórias maravilhosas. Ao contrário do personagem de Ewan McGregor, Cony sente um grande fascínio pelo pai e suas histórias que a cada narração recebem mais detalhes, acréscimos ou mudam completamente.

É um livro que traz elementos de afetividade, uma relação entre pai e filho, mas não é algo romantizado ou uma idealização da relação paterna. O próprio Cony admite que seu irmão mais velho é o preferido do pai e informa o leitor que o comportamento de Ernesto andava longe de seu perfeito, especialmente como marido, tendo tido diversos casos extraconjugais. O autor não entra no mérito sobre como isso interferia na vida íntima dos pais, posto que o foco da narrativa é mesmo a relação entre pai e filho.

Embora eu tenha gostado das histórias porque a narrativa funciona como crônica familiar, algumas coisas me incomodaram: a indulgência do narrador em relação às traições do pai (me pergunto se ele adotaria o mesmo tom, caso sua mãe fosse a adúltera), uma constante necessidade de afirmação de sua masculinidade em irritantes afirmações como “quando eu estava casado com minha terceira mulher” que se repetem em curtos intervalos entre as páginas e, talvez o que me causou maior estranhamento, a impaciência e irritação em saber que o pai estava ajudando uma família perseguida pela ditadura militar.

Até onde sei, Cony apoiou a derrubada de Jango que culminou no golpe de 1964, mas depois se arrependeu e passou até mesmo a ser perseguido pelo regime militar. Compreendo ele temer pela vida do pai quando pessoas estavam sendo torturadas, mas se indignar com o que ele supunha serem pessoas se aproveitando de um idoso, sem nenhum exame de consciência de seu papel, enquanto comunicador, para que a situação política do país estivesse naquelas condições me pareceu bem estranho.

Ernesto Cony não informou ao filho sobre suas atividades e isso parece ter causado grande angústia no personagem-narrador-Carlos:

Eu servira na hora dos balões, das mangas roubadas, das encrencas na Sala de Imprensa. Num episódio em que ele lidara realmente com o perigo, que poderia colocá-lo numa situação sem retorno, sendo obrigado também a fugir, nesse episódio que por semanas consumiu-lhe energia, sonho e discurso, ele me quis longe, evitou-me.

Por que será?

De duas uma: ou queria poupar-me, receando que o perigo também me ameaçasse, ou me julgou de menor valia, plateia insuficiente para assistir à sua loucura e ao seu gesto.

¯\_(ツ)_/¯

Trechos engraçados #3: Carlos Heitor Cony

Quando comecei Quase Memória, do Carlos Heitor Cony, escritor e jornalista falecido no início do ano, achei o livro pedante. Demorou um pouco para a leitura “pegar”. Ainda não concluí, mas agora passei a me divertir com as histórias, verdadeiras ou não, que o autor conta de seu pai.

Uma delas me captou porque me remeteu ao tempo em que era repórter de redação, há três anos. Eu tinha um colega que, de tanto entrevistar pessoas na cidade, sabia imitar algumas delas com perfeição: as frases que diriam, o modo como se expressavam e assim por diante.

Para quem está há muito tempo em uma editoria ou entrevistando sempre as mesmas fontes oficiais é possível “prever” o que essas pessoas diriam em determinadas situações porque elas sempre usam o mesmo discurso.

Foi confiando nessas habilidades que Ernesto Cony, pai do autor e também jornalista, escreveu uma matéria sobre o sermão de um padre que estava acostumado a ouvir desde sempre. O sermão do padre seria no sábado à tarde e a matéria sairia na edição de domingo. Mas seu Ernesto preferiu namorar em vez de ir assistir ao sermão do padre. Vai vendo:

Naquela tarde, já tendo ouvido vários e edificantes sermões anteriores do Júlio Maria, o pai combinou com o chefe da oficina do jornal em deixar o texto já pronto.

Embarcou para Três Rios, o chefe da oficina era uma toupeira, publicou no domingo a palestra do Júlio Maria na página 8, que era dedicada à cidade. Na primeira página da mesma edição do mesmo jornal, com destaque, tarja preta assinalando a matéria, vinha a notícia de que “o festejado orador sacro, padre Júlio Maria”, falecera minutos antes de assumir o púlpito da catedral metropolitana para a habitual palestra da quaresma.

Seu Ernesto só não foi demitido porque o chefe gostou muito de seu estilo de escrita e o promoveu a redator.

A vida como ela é…, Nelson Rodrigues

Reler A vida como ela é… em 2016 foi esclarecedor em vários aspectos e me deixou com várias perguntas sem respostas em relação a outros. A verdade é que não sei se a edição que li agora tem exatamente o mesmo conjunto de textos da que li em 2010. Algumas das crônicas me pareceram já conhecidas, mas em se tratando de Nelson Rodrigues isso não é muita coisa já que ele tem uma temática repetitiva.

Fiquei me perguntando em que medida Nelson Rodrigues mostrou a vida como ela é ou apenas naturalizou a violência contra a mulher. Talvez as duas coisas porque estatísticas sobre assassinatos de mulheres motivados por questões de gênero é uma coisa já dos anos 2000. Não me admiraria que o escritor transpusesse para suas crônicas casos dos quais tomasse conhecimento.

Quase todos os textos dessa seleção terminam com uma mulher sendo assassinada pelo parceiro: porque ela o traiu, porque ele tinha certeza de que ela o trairia em algum momento, porque ela o abandonou por outro, etc. Uma quantidade considerável de crônicas sempre tem um homem dando uma bofetada numa mulher, ela falando sobre seu desejo de ser esbofeteada ou, ainda, dizendo que homem de verdade tem de esbofetear a mulher que ele gosta.

E tem as palavras-chave mulher séria, mulher viúva, mulher mascarada, todas querendo dizer quase a mesma coisa: uma mulher que se faz de frígida, sem desejo sexual, mas que na surdina é louca por homem. Basta insistir, chorar, ameaçar… que uma hora ela para de dizer não.

É importante frisar que a coluna de Nelson Rodrigues foi escrita entre 1950 e 1961 e todas essas construções ainda estão impregnadas no imaginário brasileiro, mas lógico que não com esses termos. Discursos se reinventam para parecer palatáveis aos nossos tempos.

Mas uma coisa é certa: os homens de hoje continuam entendendo não como “sim” ou “continue insistindo, tô só me fazendo de difícil”.

Senhora dos Afogados, Nelson Rodrigues

Antes de Babilônia contestar a família tradicional brasileira, Nelson Rodrigues fazia isso de forma mais hard. Foi assim: há pelo menos 4 anos comprei três peças dele, Vestido de Noiva, Valsa nº 6 e Senhora dos Afogados. Li as duas primeiras e a outra caiu no limbo. Se eu lembrava de sua existência, jurava que já a tinha lido. Ou então simplesmente não lembrava. E assim o livro ficou intocado por longo tempo.

Até que recentemente eu me vi numa situação complicada: o trajeto para o trabalho em ônibus lotados. Como ler em pé sem cair? Obviamente eu não podia segurar um livro volumoso. E o e-reader chama a atenção da galëre. Então eu tinha de arranjar livros pequenos com no máximo 200 páginas, mas o ideal mesmo é que fossem livros de bolso. Olhando meus livros na estante, me deparei com os três juntinhos e peguei Senhora dos Afogados. O caso é que tomei um susto ao dar uma olhada na sinopse na contracapa: eu não tinha lido o livro.

Coincidentemente, quando olhei a lista de personagens lá estava o nome da Nathalia Timberg como intérprete de Dona Eduarda na primeira montagem da peça. Vejam só: desde tempos pregressos, Timberg já andava maculando a família tradicional brasileira. Assim como aquela outra atriz, a Fernanda Montenegro, que encomendou ao Nelson O Beijo no Asfalto, outra peça execrável. Imagine: insinua que um nobre pai de família, senhor de cabelos brancos, seja homossexual. Não surpreende que ambas estejam fazendo um casal lésbico idoso em novela global.

Após e durante a leitura de um livro, tenho o hábito saudável de pesquisar nas interwebs o que outras pessoas falam dele: pode ser desde resenhas a artigos científicos. E foi lendo alguns textos sobre Senhora dos Afogados que me deparei com um que a colocava como a melhor peça do Nelson. Acho Vestido de Noiva melhor. As duas não têm uma definição muito precisa do espaço físico e do tempo. Talvez Senhora dos Afogados seja considerada melhor pela infinidade de referências que, confesso, não captei. Agora, a temática é excelente: incesto, adultério, homicídio, culpa, ciúme, obsessão e homossexualidade (não vi referência a este último em textos que li, é interpretação minha mesmo). Em todo o caso, o mais interessante no texto não é nem a temática, mas o texto.

Nelson Rodrigues tem uma forma particular de construir o texto: é histérico e totalmente fora da casinha quando você compara ao modo que uma pessoa falaria, tanto pelo que diz como pela forma como diz. Como este trecho, por exemplo:

Misael (tomando entre as suas as mãos de Moema) – Parecem as mãos de tua mãe…

Moema (com sofrimento) – Eu sei.

Misael (na sua nostalgia carnal) – E se eu ficasse assim, olhando só para as tuas mãos, pensaria estar aos pés de tua mãe… Juraria que tu eras ela… Mas olho teu rosto…

(Moema ergue o rosto)

Misael – …e vejo que és tu… Se não tivesses rosto, eu te amaria…

(Beija as mãos da filha em delírio)

Misael – …como se tu fosses minha mulher…

Moema (desesperada) – Pai, esquece que tenho rosto…

Nelson põe o inconfessável em palavras ditas por seus personagens. As falas dos personagens estão no campo do pensamento, daquilo que não se diz em hipótese alguma. Acredito que seja difícil imprimir “verdade” a essas falas. É coisa para intérpretes realmente bons.

Na história, a família Drummond se estilhaça após a morte de uma das filhas. Ela cometeu suicídio: se afogou, assim como fizera anteriormente outra das filhas. Moema, a única que restou, nutre um ódio terrível pela mãe. O irmão Paulo e o noivo de Moema tentam encontrar o corpo da morta no mar, mas em vão. Enquanto isso, Misael, o pai, se depara com a aparição da prostituta que foi assassinada no dia de seu casamento. Ele se preocupa mais com essa morte do que a da filha. E Dona Eduarda, a mãe, se divide entre o desejo pelo noivo de Moema e a dúvida sobre a morte da prostituta: teria sido Misael que a matou? Ah, não. Não vou dizer. Mas se você já leu algo do Nelson Rodrigues pode imaginar a resposta.