Kiki de Montparnasse, Catel & Bocquet

Kiki de Montparnasse é um livro que você lê rapidinho, apesar das 400 e tantas páginas. É uma biografia em quadrinhos de Alice Ernestine Prin, mais conhecida como Kiki de Montparnasse. Devo externar a minha ignorância: até pegar neste livro nunca tinha ouvido falar desta pessoa. Kiki foi atriz, cantora, dançarina e pintora. E se relacionou com diversos artistas. Dentre eles, Tsuguharu Foujita, Man Ray, Jean Cocteau e Per Krohg. Nasceu no fim do século XX e teve uma vida curta, morrendo aos 52 anos de idade, devido aos excessos com drogas, principalmente o álcool.

É um livro muito gostoso de ler. E diria que o defeito dele reside nisso porque a vida de Kiki não deve ter sido tão leve como a leitura de sua vida. Tenho a impressão de que Alice Prin pode ter sido alegre, mas não foi feliz. Viveu longe dos pais e o único carinho que recebeu quando criança foi o da avó. Foi uma mulher a frente de seu tempo: artista, bissexual e que construiu suas principais relações no espaço público, entre artistas e intelectuais, não na esfera doméstica, espaço reservado às mulheres.

Ironicamente, ao mesmo tempo em que buscava a liberdade de se expressar e de comportamento, Kiki precisava da influência de seus amigos e amantes artistas quando se metia em confusões. Entretanto, Alice Prin é importante por ser figura-chave nesse percurso pela emancipação da mulher, por ter tentado ser livre, conseguindo modestos avanços, mas nem por isso menos relevantes. Ser uma mulher artista e não ser chamada de puta nas ruas se deve em grande parte a pessoas como Kiki.

Eu diria que o ponto negativo do livro é apresentar Kiki de uma forma muito romantizada. É certo que não há grandes omissões quanto aos detalhes penosos de sua vida, mas eles são mostrados de forma muito leve.

Quanto ao desenho de Catel, ele prezou por marcadores que referenciam a Kiki verdadeira. Os traços de Kiki são muito semelhantes ao original, sendo que o desenhista deu especial destaque às características marcantes de Alice: o nariz, o corpo cheio de curvas e o cabelo.

Recomendo a leitura, mesmo fazendo essas ressalvas, mas recomendo também procurar outras biografias de Kiki de Montparnasse.

S. Bernardo, Graciliano Ramos

Graciliano Ramos era mesmo um vermelhinho. Só um comuna pra escrever um texto desses. Percebi isso lendo São Bernardo, primeiro livrinho que li dele. No diminutivo porque é curto, não em tom pejorativo. O livro causou uma forte impressão em mim porque trata de choque cultural, de conflito agrário, de machismo, de ignorância, de como é impossível a convivência pacífica entre dois extremos opostos. Uma hora um vai se quebrar. Talvez os dois.

Desculpem o bairrismo, mas do século XX pra cá, quase tudo de melhor que há na literatura brasileira foi parido no Nordeste: Graciliano Ramos, Rachel de Queiroz, João Cabral de Melo Neto, Ariano Suassuna. (HUEHUE BR). Sorry.

Ai, cara, mas as memórias de Paulo Honório, o herói de São Bernardo, são de chorar de rir, de raiva, de angústia. Para quem entende as expressões regionais do livro, a experiência é ainda mais enriquecedora. Graciliano tece, aos poucos, as lógicas que comandam aquele microcosmo no qual Paulo Honório está inserido. Ele tem um pouco de Heathcliff quando engabela o herdeiro beberrão do antigo proprietário da fazenda São Bernardo para se apropriar das terras. E tem muito o homem do sertão que chega, na secura, para cortejar uma mulher. É um personagem complexo em sua ignorância, brutalidade, incompreensão, avareza e ganância.

O que mais me angustiou, de fato, foram as sucessivas violências sofridas por Madalena, sua esposa. Graciliano não dá as cartas. O foco está todo em Paulo Honório e você, leitor, só enxerga Madalena pelos olhos dele. Isso é o que causa o maior desconforto porque é óbvio que aquele homem é louco de pedra. Em certos momentos, ele também lembra Bentinho, com ciúme de tudo.

Talvez quem é mulher tenha uma percepção diferenciada ao ler esse livro e é claro que toda mulher imagina como ela está se sentindo. Não tem como não imaginar que uma hora tudo vai explodir. Não tinha como dar certo Madalena sendo bem mais jovem, bem mais inteligente, bem mais instruída, bem mais humana, bem mais generosa unida a um homem como Paulo Honório. Cada choque que há entre os dois pela forma como ele trata os empregados na fazenda é de fazer a gente se retorcer toda enquanto lê.

Bem explicado, não é mesmo? E ele falou melhor sobre violência contra a mulher muito melhor que a galera faz hoje quando o termo ainda nem existia. Comuna, esquerdinha e com um pé nos direitos das mulheres.

Estranha presença, Sarah Waters

Eu não tinha grandes expectativas quando comecei a ler Estranha Presença. Era meu terceiro livro da Sarah Waters e, embora eu tivesse gostado muito dos dois anteriores, tinha lido o trecho de uma resenha no Skoob que afirmava ser a história muito semelhante à do filme O Orfanato. Ao mesmo tempo em que fiquei desapontada, senti um laivo de desconfiança porque pelo meu conhecimento das narrativas desta escritora, ela sempre tratou temas sobrenaturais com certo ceticismo.

Isto, contudo, não a impediu de fazer extensa pesquisa sobre poltergeists e toda essa baboseira para escrever a história da decadente família Ayres. Outra coisa que me desanimava a ler o livro é que este seria o primeiro romance da escritora que não traria temática lésbica. Se você é mulher e homofóbica, não leia Sarah Waters. Ou você pode se tornar caminhoneira. Se é homem e espera encontrar sacanagem, vai por mim, não é igual aos filmes pornôs lésbicos que você vê. ;*

O caso é que nenhum dos três motivos que me desanimavam a ler se mostraram verdadeiros em sua totalidade: vi muito pouca semelhança entre Estranha Presença e O Orfanato. Também, o sobrenatural é apenas uma metáfora para apontar a decadência dos Ayres. Um por um, eles caem, sucumbindo aos seus temores (e segredos, jamais revelados). A narrativa é bastante enfática em mostrar o declínio dos Ayres, uma tradicional família da aristocracia rural britânica, no pós-Segunda Guerra. Como eles soam fora de lugar, antiquados. Parecem saídos de outra época. Porque são de outra época. Seu deslocamento causa desconforto e tristeza. Pelo menos, eu senti.

Tudo isso é visto pelos olhos do médico Faraday, narrador da história e um dos personagens mais desprezíveis que já tive o desprazer de conhecer na literatura. É soberba a forma como Sarah Waters o constrói (e destrói) aos olhos do leitor. Esse diálogo dele com o advogado de Caroline é um tapa na cara do machismo nosso de cada dia:

– Você deve ter uma opinião a respeito – eu disse. – Quer dizer, uma opinião pessoal. Deve perceber a insensatez indiscutível disso.

Examinou a ponta de seu cigarro.

– Não tenho tanta certeza se percebo. É uma pena para o distrito, certamente, perder mais uma de suas antigas famílias. Mas essa casa está ruindo. A propriedade toda precisa de uma administração adequada. Como ela pode esperar conservá-la? E o que o lugar tem para ela, agora, se não recordações infelizes? Sem seus pais, sem seu irmão, sem marido…

– Eu ia ser seu marido.

– Não posso comentar sobre isso… Lamento. Não vejo o que possa fazer por você.

– Pode impedir que isso prossiga, até Caroline recuperar o juízo! Falou da doença do seu irmão, mas não está óbvio? Caroline está longe de estar bem.

– Acha mesmo? Pareceu-me muito bem, na verdade, quando a vi.

– Não estou falando de uma doença física. Estou pensando nos seus nervos, em seu estado mental. Estou pensando em tudo o que ela passou nos últimos meses. A tensão está afetando seu julgamento.

Ele pareceu constrangido, mas também achando um pouco de graça.

– Meu caro Faraday, se toda vez que um homem for rejeitado tentar declarar que a garota está desequilibrada…

Essa é a estratégia desesperada de Faraday quando Caroline se recusa a casar com ele e decide vender a propriedade caindo aos pedaços: convencer o advogado dela de que ela está louca. Não está. Ela é lésbica. Embora isso não seja dito em momento algum, mas é sugerido em cada um de seus diálogos. Em seu complexo de inferioridade, Faraday confunde o motivo da rejeição de Caroline, acha que ela não o quer por sua condição de filho de ex-criada da família. Em sua cegueira, ele jamais descobre o real motivo.

Agora, embora eu tenha plena convicção de que os eventos sobrenaturais da história sejam apenas o modo como a autora escolheu para a destruir gradativamente a família, eu sempre vou me perguntar quem é a pessoa para quem Caroline Ayres exclamou: “Você?!”.

Genet: uma biografia, Edmund White

Quando um caçador de suvenires arrancou a placa de mármore cinzelado com o nome de Genet e as datas de nascimento e morte, Jacky escreveu uma nova lápide com sua própria letra. Mas como a letra de Jacky lembra perfeitamente a de Genet, parece que esse grande autor assinou sua própria declaração final.

Não costumo ler biografias. Na verdade, tenho bem poucas em minha humilde biblioteca. Genet: uma biografia é um destes exemplares. Foi presente de um amigo que conhecia minha admiração pelo escritor. E, de fato, é uma leitura que vale a pena. Comecei a ler esse livro em fevereiro do ano passado e acabei de concluí-lo. Não, isso não é uma contradição. Os motivos de tanta demora na leitura são vários: a extensão da biografia (são mais de 700 páginas), a quantidade de informação que há nela, outras leituras paralelas e, principalmente, uma decisão que tomei de uns tempos para cá, a de não exigir demais nem do livro e nem de mim. Se o livro pede uma leitura rápida, daquelas vorazes, sim. Se pede uma leitura lenta é isso que devo fazer. E foi o que fiz em relação a este livro.

Meu Exu, quando mencionei que há muita informação não foi mera retórica. Nem todo livro de 700 páginas traz realmente informações ou, melhor, informações de valor. Não é o caso deste. Edmund White realmente se aprofundou em sua pesquisa. E isso se constituiu num grande dificultador da leitura porque sou uma pessoa muito dispersa e quando lia acerca de determinado personagem me sentia tentada a fazer uma rápida pesquisa sobre ele. Perdi (?) muito tempo de leitura fazendo essas incursões. Mas foi prazeroso.

Jean Genet foi dramaturgo, romancista e ativista francês que chamou a atenção da intelectualidade de seu tempo não apenas pelo seu talento, mas por causa de suas origens. Órfão e delinquente na maior parte de sua juventude, tendo cometido pequenos delitos como furtos, mas com tanta frequência que por pouco não foi condenado à prisão perpétua. Até a pré-adolescência foi criado por uma família paga pelo governo francês. Não era adoção. Era um sistema bizarro, semelhante ao que existe hoje no Brasil em que crianças cujos pais perderam o pátrio poder, moram em lar temporário por até 2 anos, enquanto não se encontra um lar definitivo para elas. A diferença é que no sistema francês daquela época não existia a possibilidade de se encontrar um lar definitivo. O caso é que após deixar a família, Genet viveu parte da adolescência numa colônia penal: Mettray. Já por conta de seus pequenos crimes. Da colônia penal, teve momentos de liberdade alternados por várias prisões. Que me lembro, ele foi preso pelo menos 9 vezes (tô chutando por baixo, mas acho que foi mais que isso. o.O )

A distinção social que sua posição lhe conferia e o descaso do Estado nesta época de sua vida são alguns dos motivos que levariam Genet a carregar por toda a vida um ódio profundo pela França, a ponto de desejar que a Alemanha nazista derrotasse seu país durante a Segunda Guerra Mundial. Em um momento mais maduro, Genet transforma esse ódio em crítica social. É o que ocorre, por exemplo, com a peça Os Biombos, que trazia como uma de suas temáticas o conflito francês com a Argélia, na época colônia da França. E que foi um escândalo na época, com protestos da direita francesa, liderados por um ainda jovem Jean-Marie Le Pen.

A biografia de White passa pela vida pessoal de Genet, mas não se detém muito nela. E quando esse tipo de relato surge vem sempre junto de uma interpretação do biógrafo de como tais circunstâncias contribuíram de alguma forma para sua produção. Gostei disso. A vida pessoal de Genet foi bem sombria: de pobretão delinquente a famoso e mimado pela elite intelectual e, posteriormente, com muito dinheiro, mas sempre sem porque sustentava diversas “famílias”. Genet não tinha habilidade em transitar no meio intelectual, embora tenha feito amigos ao longo de sua vida. E sempre administrou mal seu dinheiro. Sua relação com o dinheiro sempre foi diferenciada também. Ele não dava valor a ele, mas queria tê-lo. E sempre estava sem porque redistribuía tudo.

É incrível a quantidade de pessoas com quem Genet se relacionou de alguma forma: Jean-Paul Sartre, Simone de Beauvoir, Albert Camus (não se gostavam muito), Jean Cocteau, Jane Fonda, Angela Davis… Sartre chegou a escrever um livro sobre ele: Saint-Genet. Diversas obras suas foram adaptadas para o cinema (Querelle) e outras para a TV (como As Criadas).

Coisas que descobri lendo esse livro e que jamais passaram pela minha cabeça dada a distância com que eu via cada uma dessas pessoas: James Earl Jones integrou o elenco da primeira montagem de Os Negros nos Estados Unidos; Leonard Nimoy esteve em duas adaptações cinematográficas de Genet (agora não me recordo quais e preguiça de ir pesquisar, ok); Genet foi amigo do filho de Charles Mingus 😮 ; Genet admitiu gostar de Agatha Christie. 😮 😮 😮

O livro é cheio de detalhes curiosos. Uma verdade é que Genet se relacionou com muita gente, direta ou indiretamente. Depois de concluir esse livro me surpreende que tanta gente ainda desconheça ele.

Acho que uma biografia é boa quando consegue mostrar a multidimensionalidade do biografado. Não porque isso seja algo exclusivo de Genet. Todas as pessoas carregam contradições ao longo de sua vida. Apresentar um personagem coerente com uma história com início, meio e fim seria absurdo.

E aqui vai a minha listinha de próximos livros que quero ler de Saint Genet: Nossa Senhora das Flores, Pompas Fúnebres, Querelle, As Criadas, Os Biombos. J