Os treze porquês, Jay Asher

É meio estranho revisar esta resenha que escrevi há oito anos, após toda a polêmica causada pela série da Netflix. Os treze porquês, de Jay Asher, foi o livro que deu origem ao roteiro da série que leva o mesmo nome do site de streaming. A esta altura, todos já sabem qual é o tema: suicídio. Na época em que li, o que achei mais interessante é que o livro tinha como público-alvo os adolescentes, tanto na linguagem, como na caracterização dos personagens. Essa foi uma discussão que eu não tive nos meus tempos nem de Ensino Médio nem de Fundamental.

Não vou entrar no mérito dos treze motivos que a personagem de Hannah Baker dá para cometer o suicídio. Até mesmo porque, tomados isoladamente, podem parecer razões frágeis, mas que, como a personagem faz questão de enfatizar, desencadearam eventos bem graves numa crescente “bola de neve”. E o que chama mais a atenção é que, conforme Hannah avança sobre seus motivos, o leitor perceberá que a garota se sentia oprimida por sua constante objetificação enquanto mulher.

Sob muitos aspectos, era por isso que Hannah passava. Se a vida de quem não se enquadra nos padrões estéticos estabelecidos é difícil, para quem é considerada bonita, ou como a garota é qualificada pelos colegas, gostosa, não chega a ser um mar de rosas. Hannah é uma garota inteligente e percebe que é tratada como um simples pedaço de carne. A percepção disso destrói a personagem aos poucos.

Esse é o aspecto mais importante do livro porque quando se pensa no suicídio de um adolescente com problemas para se relacionar, o que vem imediatamente à mente é o tradicional bullying. O bullying é um termo genérico que mais serve para esconder o preconceito e graves formas de opressão no contexto escolar (misoginia, homofobia, racismo, gordofobia, etc.) e esvazia muitas dessas discussões, qualificando-as simplesmente como “brincadeiras violentas” ou “intimidação física e psicológica”.

Em uma entrevista anexa ao final do livro, o autor admite de maneira indireta que a opressão foi o que levou Hannah ao suicídio: “Basicamente, apesar de Hannah admitir que a decisão de tirar a própria vida foi inteiramente sua, é importante estarmos conscientes do modo como tratamos os outros. Mesmo que alguém pareça ignorar um comentário casual ou não se deixar afetar por um boato, é impossível saber tudo o que se passa na vida daquela pessoa e o quanto podemos ampliar a sua dor. As pessoas têm impacto na vida das pessoas, isso é inegável.”

Para a maioria das pessoas, é uma surpresa saber que um conhecido se matou. Por isso, o livro também chama a atenção para os sinais que indicariam que alguém pensa em cometer o suicídio: organizar finanças ou objetos com valor pecuniário ou sentimental para “quando não estiver mais aqui”, declarações soltas que podem indicar despedida, etc.  

Cemitérios de dragões, Raphael Draccon

Cemitérios de Dragões é uma fan fiction do super sentai Power Rangers. Nesta versão, cinco pessoas de diferentes países são lançadas num universo paralelo quando se encontram à beira da morte. Nesse lugar, que não se sabe exatamente que lugar é, há muitos perigos naturais e uns feiticeiros do mal. Desculpem por descrever assim, mas esse é o nível do livro que não se leva a sério em momento algum.

Quem nasceu após os anos 2000 talvez não entenda o que os Power Rangers significou para quem cresceu nos anos 1990. Quase todo mundo da minha geração (nascidos no final dos anos 1980) viu este e outros super sentai na Globo e extinta rede Manchete e isso fazia parte das brincadeiras numa época em que realmente se brincava com os vizinhos da rua e os colegas da escola.

Então, ler um trecho como este que remete diretamente às famosas faíscas que os rangers soltavam quando atingidos acaba tendo um sabor nostálgico:

Duas ligas rasparam em um, dois, três, quatro, cinco golpes, defendidos com partes da armadura, que geraram faíscas no atrito.

O livro é de autoria de Raphael Draccon, escritor brasileiro dedicado à literatura fantástica, gênero que vem ganhando espaço no Brasil e revelando alguns talentos nacionais nos últimos anos. Além deste, Draccon escreveu a série Dragões de Éter e é um dos escritores nacionais de fantasia mais vendidos hoje. Porém, eu não gostei muito deste Cemitérios.

O que eu destacaria de positivo neste primeiro volume é o multiculturalismo: os rangers são de nações distintas (França, Irlanda, EUA, Brasil e Ruanda) e, ainda que de forma bamba, tentam expressar traços culturais específicos ou apontar para aspectos que referenciam estes países, em alguns casos até desconstruindo um pouco a noção que se poderia fazer deles. O brasileiro Daniel, por exemplo, tem ascendência nipônica e de início é confundido com um japonês.

Existe uma tentativa de desenvolver esses personagens e criar laços entre eles, mas falha em ambos os casos. Também não senti química entre os personagens, Amber e Derek ou Daniel e Romain. A quinta protagonista, Ashanti, só vem se reunir ao resto do grupo nos últimos capítulos do livro.

Em relação ao humor, confesso que alguns momentos funciona e eu tive momentos de diversão. Em outros, só me causou um pouco de vergonha. Tipo este:

Avada Kedavra! Cruciatus! Honkizagazan! Incendio! Confringo! – gritou Daniel, em uma tentativa um tanto estranha de simular bruxaria. O corpo derreteu sobre o morto, encharcando-o em um nojento amontoado de visco e concha calcária.

Achei a narrativa confusa, especialmente na construção dos diálogos entre os personagens. Em alguns momentos, tive de reler trechos para identificar quem estava falando. Um problema de técnica e de caracterização dos personagens. Quando um personagem é construído de maneira eficaz, o narrador não precisa identificar que é ele quem fala. Só o modo de se expressar já é o bastante para o leitor identificá-lo com A, B ou C.

Aliás, essa questão da narrativa é bem problemática. Por vezes, a narração adquire um caráter meio estabanado que me causou muita confusão: fiquei sem compreender se havia intenção de causar uma situação cômica ou se era mesmo falta de técnica narrativa. Esse trecho aqui:

Daniel definitivamente gostava da sensação. E então ele cortou mais uma perna, rasgou um tórax, rasgou metade de uma face, cortou outra perna, furou um pescoço, perfurou uma coxa, separou um queixo e continuou a avançar.

Se a intenção era fazer rir… Desculpe, eu só acho meio constrangedor. Claro que existe uma referência aí ao caráter B das produções dos Power Rangers, mas não creio que este seja o modo adequado de demonstrar isso literariamente. Trechos como este se repetem inúmeras vezes e são enfadonhos.

Pra não me acusarem de chata, há alguns livros fantásticos brasileiros que gostei muito. Eu indicaria O Vilarejo, pequena coleção de contos de horror do Rafael Montes, Erótica Fantástica Vol. 1, que traz escritores brasileiros e lusófonos e o volume 4 da série de contos Imaginários que tem excelentes contos fantásticos e distópicos.