Retorno a Brideshead, Evelyn Waugh

Publicado em 1945, Retorno a Brideshead, de Evelyn Waugh, é o tipo de romance em que “pessoas tomam chá e cometem adultério” e que duas décadas mais tarde Angela Carter viria a criticar. Dividido em três partes, o romance é narrado em primeira pessoa pelo capitão Charles Ryder que relata a fragmentação de uma família de aristocratas católicos a partir das relações que desenvolve com ela.

Não sei se concordo totalmente com o Luis Fernando Veríssimo, curador da Tag que indicou o livro, de que esta seria uma das melhores prosas do inglês. Não li o livro em inglês, mas não gostei da estruturação narrativa. Vou listar alguns aspectos que me pareceram problemáticos: a) o romance parece uma peça em que personagens importantes saem de cena e só voltam a aparecer como meros coadjuvantes, b) não existe uma coerência narrativa em relação aos conhecimentos de Ryder sobre o catolicismo, ora ele se mostra um completo ignorante, ora menciona aspectos muito particulares da religião como se fosse um perito, c) a forma esquemática como o catolicismo é apresentado: existe um descompasso entre a moral católica e o comportamento dos Flyte que parecem mais orientados por uma moral protestante. Um bom exemplo disso é a personagem Julia Flyte em dois momentos do livro: sua visão comercial e pragmática do casamento e sua reação cínica diante da descoberta que é adúltera.

Posso estar sendo maldosa, mas acredito que o fato de Evelyn Waugh ser um católico convertido o fez acreditar que era um grande entendedor do catolicismo. E ele quer provar que entende: o romance é cheio de pílulas sobre os rituais da religião católica, em alguns momentos de forma pretensamente didática. Faltou considerar dois aspectos da religião católica que praticamente não aparecem: o pecado e a culpa.

Isso é o que não gostei ou vi com estranhamento enquanto lia. Disse que não concordo plenamente com Veríssimo porque embora ache essas questões acima citadas problemáticas, não posso negar que a narrativa é envolvente: a bissexualidade do narrador Charles Ryder, dividido entre os irmãos Flyte, Sebastian e Julia, semelhantes fisicamente, mas diversos em personalidade; o papel da comida, em que é recorrente os personagens atacarem os pratos com voracidade rendeu alguns dos melhores trechos como, por exemplo, o momento em que Rex e Charles encontram-se para jantar em um restaurante chique em Paris, um reflexo inconsciente da escassez vivida pelo escritor durante a Segunda Guerra Mundial, época em que o livro foi escrito; e, claro, a delícia que é ver uma família de aristocratas dando seu último suspiro numa sociedade que não suportava mais aquele modo de vida.

O que é interessante no livro é que este processo vem associado ao de desagregação familiar: o patriarca abandona a família e vive em companhia da amante de forma ostensiva em outro país, o filho mais jovem se debate no alcoolismo, a filha mais velha casa-se com alguém “inapropriado”, causando grande desgosto à mãe e depois se divorcia, o filho mais velho casa-se com alguém igualmente “inapropriado”, a irmã mais jovem, solteira, vive a incerteza da nova configuração familiar, sem saber onde se firmar.

Fora isso, Retorno a Brideshead é uma narrativa com os mesmos elementos de outros romances, na linha de O Leopardo, de Giuseppe Tomasi di Lampedusa: conservador, com uma família aristocrática em franca decadência, representantes dos chamados “novos ricos”, o mesmo tom de “ah, os tempos já não são os mesmos” e o mesmo desdém por essa nova classe de poder aquisitivo ascendente.

Quase memória, Carlos Heitor Cony

Quase Memória é um livro que explora os limites entre biografia e ficção. Não há garantia de que nada do que esteja escrito nele de fato tenha acontecido e talvez seja isso que torne o livro mais interessante, especialmente quando a gente considera a época que foi lançado, início dos anos 1990, quando este formato ainda não era tão popular. O narrador, o próprio Carlos Heitor Cony, recebe um embrulho endereçado a ele, mas sem remetente. Entretanto, as características do pacote o fazem ter certeza de que o emissor é o pai, Ernesto Cony, morto há dez anos.

A partir do momento em que recebe a encomenda, o autor mergulha em reminiscências de sua infância, adolescência e vida adulta. São memórias da relação que teve com o pai em cada uma das fases de sua vida. Mas nada garante que sejam reais. Cony divaga pelo passado como se estivesse à deriva. Algumas informações são, de fato, verdadeiras como, por exemplo, o tempo em que frequentou o seminário.

A imagem que constrói de seu pai é a de um grande contador de histórias, na linha do personagem de Peixe grande e suas histórias maravilhosas. Ao contrário do personagem de Ewan McGregor, Cony sente um grande fascínio pelo pai e suas histórias que a cada narração recebem mais detalhes, acréscimos ou mudam completamente.

É um livro que traz elementos de afetividade, uma relação entre pai e filho, mas não é algo romantizado ou uma idealização da relação paterna. O próprio Cony admite que seu irmão mais velho é o preferido do pai e informa o leitor que o comportamento de Ernesto andava longe de seu perfeito, especialmente como marido, tendo tido diversos casos extraconjugais. O autor não entra no mérito sobre como isso interferia na vida íntima dos pais, posto que o foco da narrativa é mesmo a relação entre pai e filho.

Embora eu tenha gostado das histórias porque a narrativa funciona como crônica familiar, algumas coisas me incomodaram: a indulgência do narrador em relação às traições do pai (me pergunto se ele adotaria o mesmo tom, caso sua mãe fosse a adúltera), uma constante necessidade de afirmação de sua masculinidade em irritantes afirmações como “quando eu estava casado com minha terceira mulher” que se repetem em curtos intervalos entre as páginas e, talvez o que me causou maior estranhamento, a impaciência e irritação em saber que o pai estava ajudando uma família perseguida pela ditadura militar.

Até onde sei, Cony apoiou a derrubada de Jango que culminou no golpe de 1964, mas depois se arrependeu e passou até mesmo a ser perseguido pelo regime militar. Compreendo ele temer pela vida do pai quando pessoas estavam sendo torturadas, mas se indignar com o que ele supunha serem pessoas se aproveitando de um idoso, sem nenhum exame de consciência de seu papel, enquanto comunicador, para que a situação política do país estivesse naquelas condições me pareceu bem estranho.

Ernesto Cony não informou ao filho sobre suas atividades e isso parece ter causado grande angústia no personagem-narrador-Carlos:

Eu servira na hora dos balões, das mangas roubadas, das encrencas na Sala de Imprensa. Num episódio em que ele lidara realmente com o perigo, que poderia colocá-lo numa situação sem retorno, sendo obrigado também a fugir, nesse episódio que por semanas consumiu-lhe energia, sonho e discurso, ele me quis longe, evitou-me.

Por que será?

De duas uma: ou queria poupar-me, receando que o perigo também me ameaçasse, ou me julgou de menor valia, plateia insuficiente para assistir à sua loucura e ao seu gesto.

¯\_(ツ)_/¯

Trechos engraçados #3: Carlos Heitor Cony

Quando comecei Quase Memória, do Carlos Heitor Cony, escritor e jornalista falecido no início do ano, achei o livro pedante. Demorou um pouco para a leitura “pegar”. Ainda não concluí, mas agora passei a me divertir com as histórias, verdadeiras ou não, que o autor conta de seu pai.

Uma delas me captou porque me remeteu ao tempo em que era repórter de redação, há três anos. Eu tinha um colega que, de tanto entrevistar pessoas na cidade, sabia imitar algumas delas com perfeição: as frases que diriam, o modo como se expressavam e assim por diante.

Para quem está há muito tempo em uma editoria ou entrevistando sempre as mesmas fontes oficiais é possível “prever” o que essas pessoas diriam em determinadas situações porque elas sempre usam o mesmo discurso.

Foi confiando nessas habilidades que Ernesto Cony, pai do autor e também jornalista, escreveu uma matéria sobre o sermão de um padre que estava acostumado a ouvir desde sempre. O sermão do padre seria no sábado à tarde e a matéria sairia na edição de domingo. Mas seu Ernesto preferiu namorar em vez de ir assistir ao sermão do padre. Vai vendo:

Naquela tarde, já tendo ouvido vários e edificantes sermões anteriores do Júlio Maria, o pai combinou com o chefe da oficina do jornal em deixar o texto já pronto.

Embarcou para Três Rios, o chefe da oficina era uma toupeira, publicou no domingo a palestra do Júlio Maria na página 8, que era dedicada à cidade. Na primeira página da mesma edição do mesmo jornal, com destaque, tarja preta assinalando a matéria, vinha a notícia de que “o festejado orador sacro, padre Júlio Maria”, falecera minutos antes de assumir o púlpito da catedral metropolitana para a habitual palestra da quaresma.

Seu Ernesto só não foi demitido porque o chefe gostou muito de seu estilo de escrita e o promoveu a redator.

Uns e outros, contos espelhados

A intertextualidade e o dialogismo são dois conceitos-chave quando se pensa em discurso. O primeiro diz respeito às referências, implícitas ou explícitas, a outros textos/discursos em um dado texto. E o segundo indica que todo discurso ou texto dialoga com outros, seja para discordar ou concordar. Essa é a ideia central da edição de aniversário da Tag do ano passado, Uns e Outros – Contos Espelhados, conjunto de contos concebidos e organizados por Helena Terra e Luiz Ruffato.

Dez escritores foram convidados para, cada um, entregar um conto de sua autoria, mas não qualquer conto: seria um texto escrito a partir de outro. Eles escolheriam um conto de sua preferência de um escritor clássico ou cânone e redigiram uma resposta. Portanto, a edição contém vinte contos. Abaixo eu fiz uma lista com as correspondências entre escritores e contos clássicos escolhidos:

  1. A morte da mãe (Beatriz Bracher) > Eveline (James Joyce)

  2. Início de alguma coisa (imitando Hemingway) (Luiz Antonio de Assis Brasil) > O fim de algo (Ernest Hemingway)

  3. Simplício (Eliane Brum) > Os desastres de Sofia (Clarice Lispector)

  4. O futuro político (Primeiro ato) (Milton Hatoum) > Teoria do medalhão (Machado de Assis)

  5. Negrinha! Negrinha! Negrinha! (Ana Maria Gonçalves) > Negrinha (Monteiro Lobato)

  6. Pipa Sande (Paulo Lins) > Pai contra mãe (Machado de Assis)

  7. A rainha das fadas (Ivana Arruda Leite) > Marriage à la mode (Katherine Mansfield)

  8. Um homem célebre (José Luís Peixoto) > Um homem célebre (Machado de Assis)

  9. Um simples engano (Maria Valéria Rezende) > O colar (Guy de Maupassant)

  10. O herói da sombra (Cristóvão Tezza) > Depois do baile (Leon Tolstói)

Machado de Assis foi escolhido duas vezes: Teoria do Medalhão e Pai Contra Mãe. Particularmente, achei a resposta de Paulo Lins, cujo título é Pipa Sande, mais interessante porque busca resgatar a história de uma família africana antes do Brasil e as consequências da escravidão na formatação daquela família nas gerações posteriores. Não que o conto do Machado de Assis – sobre um homem que ganha a vida capturando escravos fugidos e depende da captura de uma escrava grávida para que seu próprio filho não passe fome – seja ruim, mas ele traz apenas a perspectiva de Cândido, o protagonista. Porém, não deixa de mostrar a crueldade da ação quando nos premia com um desfecho trágico.

Além deste, há Negrinha! Negrinha! Negrinha, de Ana Maria Gonçalves, que também traz como tema as questões raciais. O conto é uma resposta ao doentio Negrinha, de Monteiro Lobato. É um dos textos em que a metanarrativa fica mais explícita: nele, o conto original é citado diretamente como preponderante para que o evento principal da narrativa aconteça.

Destaco ainda Simplício, escrito por Eliane Brum e resposta a Os Desastres de Sofia, de Clarice Lispector. Se no original, temos o foco narrativo em Sofia, na resposta ele está no professor da menina. São ambas narrativas intimistas e psicológicas. São os contos para se ler mais lentamente desta coletânea; e A Rainha das Fadas, resposta de Ivana Arruda Leite, a Katherine Mansfield. O que achei interessante neste conto é que a autora extrai ideias sugeridas (conscientemente ou não) do original e as transforma em fato consolidado em seu texto.

Se mesmo assim, você não gostar dos textos inéditos, sempre há a possibilidade de ler os clássicos e até conhecer: eu, por exemplo, ainda não tinha lido nada do James Joyce, Hemingway, Katherine Mansfield e Guy de Maupassant. Às vezes é interessante começar a ler um autor por seus contos e, só então, passar aos romances.

Trechos engraçados #1: Machado de Assis

Outro dia, eu estava pensando em compartilhar por aqui esses trechos muito engraçados que, volta e meia, lembro aleatoriamente e começo a rir sozinha, na rua, no trabalho, em casa, no ônibus. “Tá doida?”, geralmente me perguntam, silenciosamente ou não.

Vai ver alguém é doido, acha engraçado também e se diverte. Acho que o mundo precisa de um pouco mais de riso. 😦

Então, aqui vai: pensei num trecho de Um homem célebre, do Machado de Assis. Esse conto trata da angústia criativa do compositor Pestana que, desejando ardentemente compor algo grandioso como seus ídolos – Cimarosa, Mozart, Beethoven, Gluck, Bach, Schumann – só consegue compor polcas. E, para seu grande desespero, as polcas fazem muito sucesso.

Reli esse conto recentemente porque veio numa das edições da Tag. Sorri que lacrimejei:

Veio a questão do título. Pestana, quando compôs a primeira polca, em 1871, quis dar-lhe um título poético, escolheu este: Pingos de Sol. O editor abanou a cabeça, e disse-lhe que os títulos deviam ser, já de si, destinados à popularidade – ou por alusão a algum sucesso do dia, ou pela graça das palavras; indicou-lhe dois: A lei de 28 de setembro, ou Candongas não fazem festa.

– Mas que quer dizer Candongas não fazem festa? – perguntou o autor.

– Não quer dizer nada, mas populariza-se logo.

Machado de Assis se adianta em uma discussão que só se intensificaria com os estudos sociológicos da Escola de Frankfurt sobre a mercantilização da arte. E desde o final do século XIX sinaliza a tendência que é a “composição” de músicas cujos títulos (ou letras) não fazem sentido algum mas, como diz o editor, “populariza-se logo”.

Limonov, Emmanuel Carrère

Quanto mais eu me adiantava na leitura de Limonov, mais me convencia do fracasso particular do personagem. Afinal, desde a adolescência, a maior ambição de Eduard Limonov era ser famoso no mundo inteiro. E, até a edição de junho de 2017 da Tag, eu nunca soube da existência dessa controversa figura. Mas até aí tudo bem, não tenho a pretensão de conhecer tudo. O caso é que comecei a indagar meus amigos e conhecidos sobre ele e descobri que ninguém o conhecia.

Pesquisei na internet e mesmo lá achei pouca informação sobre Limonov. Pois bem, Eduard Limonov, nascido Savenko, é um escritor e político russo. Filho de um oficial de baixa patente da antiga União Soviética, ele deixou o país na mesma época que o escritor Alexander Soljenítsin, nos idos dos anos 1970. Soljenítsin foi praticamente expulso após a repercussão internacional do livro Arquipélago Gulag, livro que trazia relatos de vários presos políticos.

Morando nos Estados Unidos, Limonov viveu de Assistência Social depois de ir ao fundo do poço. Isso por causa do abandono da esposa e também pelo ressentimento que sentia devido ao sucesso de outros que julgava menos talentosos que ele.

E a narrativa podia parar por aí porque tudo na vida de Limonov é uma sequência de fracassos. Um dos episódios mais hilários narrados no livro, por exemplo, é o engano dele ao pensar que uma das serviçais de uma festa a que vai é a filha do dono da casa.

Todos os livros de Limonov que foram sucesso de público e crítica são relatos de sua própria vivência. Um dia, não tinha mais história para contar. E ele percebeu que era, sim, famoso, mas no underground e entre a crítica. Não era mundialmente famoso. Daí, foi fazer outras coisas. Uma delas, a que causou grande polêmica, encontra-se neste trecho do documentário Serbian Epics.

Depois da separação da União Soviética, Limonov retornou à Rússia e fundou o Partido Nacional Bolchevique, agremiação com tendências fascistas que fazia oposição Gorbachev, Iéltsin e, depois, Putin. Para o escritor e agora político, o fim da União Soviética era um grande erro.

O jornalista francês Emmanuel Carrère faz uma análise dos nasbols como mais do que um grupo de fascistas, mas como o que a Rússia teve de contracultura nos anos 1990. De acordo com o escritor francês, muitos dos adolescentes e jovens que faziam parte do Partido Nacional Bolchevique, em outras circunstâncias, poderiam ter ido por caminhos mais tortuosos. Ao redor de Limonov e de seu partido, eles que viveram suas infâncias na União Soviética, queriam acreditar que o que lhes foi ensinado não era uma mentira.

O partido existiu entre 1994 e 2007 quando foi banido. Limonov fundou outro, The Other Russia. Passou de opositor a aliado de Putin.

Achei a história de Limonov interessante, mas não sei se adotaria o tom indulgente que Carrère adota em relação ao escritor. A impressão que fica é que Limonov é um tanto quanto picareta, mais preocupado com a promoção pessoal e, aparentemente, sem talento para produzir uma obra de ficção que não fosse centrada em aspectos puramente autobiográficos.

O que torna sua história mais interessante é que ele viveu e fez parte politicamente de alguns dos eventos mais importantes do século XX e, como o próprio Carrère diz, talvez a história dele conte um pouco da história sobre eles mesmos, os europeus. E, sobretudo, do próprio autor que também tem ascendência russa. Inclusive, ele usa a origem compartilhada como estratégia narrativa, comparando sua própria trajetória à de Limonov. Então, é uma leitura que vale a pena para quem gosta de história, de literatura e de personagens controversos.

Melhor e pior leitura do ano

O final do ano chegou e, juro, gostaria de fazer uma postagem com os 10 melhores livros que li. Porém, não li tantos livros assim em 2017 e menos ainda (dez!) que possam figurar numa lista dessas sem causar algum constrangimento. Mas estou entregando este textinho com o melhor e o pior livro que li este ano.

São impressões bem pessoais mesmo. Portanto, não há necessidade de rancor. Vamos lá então:

O melhor

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O xará, Jhumpa Lahiri

De uns tempos para cá, eu tomei a decisão de ler mais mulheres ou, pelo menos, balancear mais minhas leituras em relação ao gênero dos autores. A Tag me ajudou bastante neste ano — sou assinante desde o ano passado — com dois lançamentos muito bons. Um foi A Câmara Sangrenta e Outros Contos, de Angela Carter, que além de trazer uma narrativa com foco na subjetividade feminina, também apresenta uma outra literatura possível, se esquivando da tradição de britânica das narrativas com crítica social e de costumes que tematizam, dentre outras coisas, a hipocrisia, o adultério, a vida de aparências, etc.

E o outro foi este O Xará, de Jhumpa Lahiri, que considero o melhor livro que li em 2017. Assim como A Câmara Sangrenta, a obra apresenta grande interesse na questão da subjetividade.  Porém, desta vez, de um jovem americano, de origem indiana, Gógol Ganguli. O título do livro faz referência ao escritor russo Nicolai Gógol. Grande admirador de Gógol, o pai do protagonista dá ao filho o apelido homônimo e, por uma série de enganos causados pelas diferenças culturais, a criança acaba sendo registrada assim nos Estados Unidos.

O mais interessante em O Xará é a ideia da impermanência: com bastante habilidade, a escritora passeia pelas vivências de Gógol, apresentando sem julgamento de valor o jogo dialógico no processo sempre ininterrupto da construção da identidade do personagem. Em relação à família, à Índia, à cultura norte-americana e, claro, ao próprio nome. É um livro belíssimo.

O pior

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Vida e proezas de Aléxis Zorbás

O pior também veio via Tag. Meu, o que é esse livro?

Assim, primeiro os aspectos positivos: Vida e Proezas de Aléxis Zorbás é um livro muito bem escrito. E não é algo para se estranhar, visto que o autor era um intelectual, estudou Filosofia e quase ganhou um Nobel (perdeu para Albert Camus). O ritmo e o tom reflexivo diante da vida e das escolhas que se faz me lembrou muito Vitória, de Joseph Conrad.

Mas por que mesmo que é ruim? Porque é um dos livros mais misóginos que já li na minha vida. Peguem o título: vida e proezas. A maioria dessas proezas dizem respeito a relacionamentos amorosos de Zorbás com as mulheres. Só que essas mulheres muito raramente ganham sequer um nome na narrativa. Quando têm algum destaque, são apresentadas como desesperadas, caso da Bubulina. E ela é a única que é nomeada e tem alguma voz (ela é a única que tem a honra de vermos dialogando) no romance. Fim.

Uma outra personagem, viúva (só viúva, sem nome, sem história), é brutalmente assassinada diante de toda uma vila. E tirando um leve pesar, o narrador da história que teve uma breve relação com ela, não perde muito tempo pensando no crime.

Em resumo, a misoginia se mostra pelo silenciamento, pela naturalização da violência de um homem (que foi rejeitado) em relação à mulher e, especialmente, pela própria visão que os dois protagonistas têm das mulheres.

A Balada de Adam Henry, Ian McEwan

Fiona Maye é uma Mrs. Dalloway moderna e de araque. Essa foi a primeira impressão que tive da personagem quando comecei a ler A Balada de Adam Henry ou, no original, The Child Act. O romance de Ian McEwan traça um paralelo entre a crise de uma mulher às portas da velhice e o fundamentalismo religioso trazido por meio da profissão de Fiona que é uma juíza da Vara da Família e, constantemente, é confrontada com o choque entre as culturas religiosas e o bem-estar de crianças e adolescentes. Engana-se quem pensa que McEwan usa isso como justificativa para recorrer a um discurso islamofóbico ou recheado dos lugares-comuns sobre as religiões. Do Judaísmo às Testemunhas de Jeová e ao próprio Cristianismo, as religiões são representadas pelos personagens que entram e saem da vida profissional de Fiona e que, invariavelmente, colocam seus dogmas acima da vida das crianças.

E esse é o aspecto mais rico do livro. Não espere um discurso virulento contra as religiões. Há uma preocupação quase milimétrica em examinar as questões éticas, morais e culturais envolvidas, mas sempre de um ponto de vista racionalizante e dialogizante, papéis representados por Fiona. Nesse ponto, é interessante a pesquisa minuciosa feita pelo escritor sobre a rotina de um juiz. Mas o romance não é só isso.

Ironicamente, Fiona que é uma juíza especializada em resolver conflitos familiares, encontra-se ela mesma inserida em um: aos 59 anos, seu casamento está em crise, e ela teme uma velhice na solidão já que optou pela carreira profissional e não teve filhos. Em meio a isso, ela se vê envolvida emocionalmente com um de seus casos profissionais: um garoto de 17 anos diagnosticado com leucemia que, sendo ele e os pais testemunhas de Jeová, se recusa a receber uma transfusão de sangue. A ambiguidade dos sentimentos de Fiona em relação ao garoto é até interessante, perpassando de um instinto maternal a algum tipo de atração.

Fiona talvez represente uma das primeiras gerações de mulheres que optaram por desempenhar papéis fora do padrão patriarcal: é uma mulher bem-sucedida profissionalmente e respeitada pelos pares. Casou, mas não teve filhos. Talvez McEwan tente apontar este tipo de mulher chegando à velhice, mas recorre a clichês literários que redundam numa análise simplória e que anda longe de abranger a complexidade de uma mulher.

Esse é um tema muito difícil de construir: o tema da mulher em crise. Já abordado inúmeras vezes em obras literárias, tanto por homens como por mulheres, é uma tarefa árdua não cair na armadilha dos lugares-comuns e nas construções simplistas. E o maior problema é que, embora o foco narrativo esteja em Fiona, é impossível deixar de perceber que é o olhar de um homem (McEwan) sobre uma mulher em crise. É uma sensação terrível quando você, leitor ou leitora, sente as engrenagens ou o fio das marionetes do escritor, no texto que está lendo.

Fiona caminha todos os dias até o trabalho tal qual nossa querida Mrs. Dalloway andou no seu apenas um dia narrado por Virginia Woolf. Enquanto andam, pensam, lembram, refletem. As duas personagens têm até mesmo questões semelhantes, embora tenham vivido em momentos históricos distintos e uma seja juíza e a outra, socialite. Mas Clarissa não pensa explicitamente que está em crise como nossa juíza faz.

Esse foi o primeiro livro que recebi pelo Tag – Experiências Literárias. Gostei bastante da leitura complementar e ainda ganhei um copo e um marcador exclusivos com um desenho da protagonista. Mas espero outras leituras deste escritor que venham a me causar maior impacto do que esta.

É um romance recomendável, mas um filme de Ingmar Bergman fala melhor sobre mulheres em crise. E também trata de religião, ainda que sob um aspecto metafísico…